História e futuro

40 anos de resistência camponesa: como o movimento Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen mobiliza a luta no Haiti

Grupo aposta em assembleias locais na busca pela reforma agrária em meio à violência das gangues e à crise institucional

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Marcha realizada pelo Tèt Kole no ano de 2023 em memória do massacre de Jean Rabel
Marcha realizada pelo Tèt Kole no ano de 2023 em memória do massacre de Jean Rabel | Crédito: Divulgação/Tèt Kole

Em outro contexto, seriam dias de festividades no Haiti, com centenas de camponeses vindos de todo o país, homens e mulheres, jovens e veteranos, reunidos para celebrar a luta e reafirmar o compromisso. Mas, neste mês de setembro de 2026, não haverá nenhum grande evento para celebrar os 40 anos de existência e resistência do Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen, organização camponesa de abrangência nacional.

Com as estradas do país bloqueadas pelas gangues e um clima especialmente tenso na região da capital, a situação atual do país não dá abertura para realizar as comemorações que a data merecia. Nem por isso o marco passará em branco. No lugar da festa, serão realizadas dezenas de assembleias locais ao longo dos próximos meses, promovendo momentos de reflexão, crítica e autocrítica junto com a base.

O Tèt Kole trabalhou desse jeito desde sua criação, em setembro de 1986. Como movimento reivindicativo camponês, promove a organização popular, a formação de base e a defesa dos direitos da população rural contra o jugo do imperialismo e das elites do país.

“O nosso objetivo concreto é chegar a uma sociedade sem favores. Uma sociedade em que as pessoas possam viver como pessoas. Uma sociedade em que quem trabalha é quem come. (…) Ainda não chegamos a isso. Mas, justamente por isso, não podemos desanimar, nem desistir”, resume Jean-Jacques Henrilus, um dos fundadores da organização, membro da Coordenação Nacional.

A fotografia mostra uma assembleia, com varias pessoas sentadas em cadeiras de plástico. Ao centro, um homem negro discursa vestindo a camiseta do MST.
Jean-Jacques Henrilus discursa vestindo a camiseta do MST, em 2025. | Crédito: Cha Dafol/Brasil de Fato

Ao mesmo tempo em que instiga a olhar para frente, ele ressalta que seria injusto minimizar as árduas conquistas das quatro décadas passadas: “Hoje, temos a capacidade de mobilizar povo nos 10 departamentos do país. Isso é um primeiro ponto. Segundo, a gente conseguiu incentivar os camponeses a sentarem juntos, trabalharem juntos, comerem juntos, serem solidários entre eles para enfrentar as doenças, a morte ou a exploração do Estado.”

Membro da Direção Executiva, Pierre-Mary Louis concorda e acrescenta: “Se hoje os camponeses têm direitos, podem falar livremente, mobilizar-se, dizer o que eles querem e não querem, o Tèt Kole contribuiu muito nisso, por meio das formações que fazemos e do acompanhamento contínuo em todos os cantos do país.”

O começo antes da oficialização

Foi na ditadura de François e Jean-Claude Duvallier (de 1956 a 1986) que o Tèt Kole foi gestado, muito antes do seu nascimento formal. Na época, os camponeses eram as primeiras vítimas da repressão exercida pelos poderes locais, junto com as milícias e os paramilitares conhecidos como “Tonton Makoute”.

“Eles prendiam os camponeses por qualquer motivo, batiam neles, os encarceravam e os obrigavam a vender sua terra, seus animais, seus porcos, para serem soltos”, lembra-se Jean-Jacques Henrilus.

Nos anos 1970, as primeiras reuniões começaram a acontecer junto às comunidades de base da Cáritas de forma clandestina, uma vez que havia restrições às liberdades de associação e expressão. “Tivemos que usar a própria roça como espaço para construir o movimento. A gente fazia mutirões, capinava, plantava e, depois disso, na hora do almoço, na sombra de uma árvore, fazíamos a reunião. Porque era impossível fazer isso em outro local”, conta Henrilus.

À medida que o movimento foi crescendo, as estratégias se multiplicaram, com encontros de vários dias, acampados no mato ou nos canaviais, ou até mesmo em Porto Príncipe. As reuniões aconteciam em voz baixa, sem canto nem tumulto. Cada participante tinha uma hora específica para chegar e ir embora, a fim de evitar a aglomeração na rua.

Com a queda do regime de Duvallier, o Tèt Kole pôde finalmente organizar o seu primeiro encontro nacional em 6 de setembro de 1986 e oficializar seu nome. Mas, mesmo com a volta da democracia, a marginalização e a violência sistêmica contra a população camponesa continuaram.

Violências sistêmicas

O Haiti, que se libertou da colonização com uma revolução que pôs fim à escravidão, nunca conseguiu levar a cabo uma reforma agrária com devida redistribuição de terras. Até hoje, as maiores parcelas estão nas mãos de grandes proprietários, das igrejas ou do Estado, mantendo os camponeses em situação de arrendamento ou como trabalhadores precarizados.

Quando o povo se organiza, a repressão não demora. Foi o caso do massacre de Jean Rabel, em 23 de julho de 1987, quando 139 camponeses foram assassinados, a mando das elites locais, por reivindicarem um pedaço de chão. O movimento Tèt Kole não tinha sequer um ano de existência formal. Longe de se deixar abater, ele continuou ao lado das famílias no enfrentamento ao Estado. Hoje, aquela região é um exemplo de conquistas em termos de luta pela terra e organização popular.

As frentes de trabalho do Tèt Kole são muitas, do local ao internacional. Começam com a busca por direitos fundamentais (como o acesso a documentos de identidade e serviços básicos, muitas vezes negados às populações que vivem em zonas mais recuadas) e vão até a promoção da agroecologia, soberania alimentar, educação popular, preservação ambiental, economia social e solidária, igualdade de gênero, além da defesa incondicional da soberania do país e do seu povo contra todas as formas de ingerência imperialista.

A nível internacional, o Tèt Kole se articula dentro de organizações como CLOC-Via Campesina, Alba Movimentos e a Assembleia Internacional dos Povos (AIP), que compartilham os mesmos objetivos estratégicos contra um inimigo comum. Ele sustenta também um vínculo especial com o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST) do Brasil, que, desde 2009, mantém uma brigada permanente de militantes no Haiti.

Visita de uma delegação da Alba Movimentos em 2025
Visita de uma delegação da Alba Movimentos em 2025. | Crédito: Cha Dafol

“A nossa parceria não se baseia em projetos ou aporte financeiro. É uma relação de irmandade. Uma relação de luta, de troca, de solidariedade”, relata Pierre-Mary Louis. “E isso é uma prova de que, nessa dinâmica de globalização da nossa luta, qualquer organização de qualquer país pode levar [a outro país] sua essência, suas ideias e sua solidariedade, do jeito que o MST faz.”

De ruim para pior

Paradoxalmente, depois de tantos avanços e tantas lutas, parece que a conjuntura do país nunca foi tão dramática. A crise de segurança e, em especial, a quase impossibilidade de deslocamento dentro da ilha têm como consequência um empobrecimento generalizado das famílias de pequenos agricultores. “Os camponeses precisam levar sua produção ao mercado local ou nacional, onde eles trocam ou vendem seus produtos para comprar o que lhes falta em casa. Porém, faz cinco anos que essa relação está praticamente cortada”, explica Louis.

As atividades de organização dos movimentos também são diretamente afetadas por essa situação, que impossibilita, por exemplo, assembleias gerais ou grandes mobilizações a nível nacional. A instabilidade impede qualquer planejamento, assim como o custo disparatado das passagens aéreas para viajar de Norte a Sul.

Mais grave ainda é a situação do Centro Nacional de Montrouis, que o movimento vem construindo ao longo de 15 anos, numa região hoje dominada por gangues armadas. O local era o principal centro de formação do Tèt Kole, erguido numa área de 14 hectares dedicados à agroecologia. Em 2024, ele foi invadido e saqueado, e hoje se encontra absolutamente inacessível para os membros da organização.

Fotografia mostra uma turma do curso sentada, olhando para a câmera, segurando um certificado em frente ao Centro Nacional de Montrouis
Formação no Centro Nacional de Montrouis em 2021. | Crédito: Divulgação/Tèt Kole

Dessa crise multifacetada, a direção do movimento faz uma análise aprofundada e histórica, rejeitando as respostas precipitadas ou superficiais. A violência, segundo eles, não é o feito de alguns bandidos locais que podem ser derrotados com uma intervenção estrangeira, por mercenários estadunidenses ou por uma falsa troca de governo. Ela faz parte de um projeto global e geopolítico de recolonização do Haiti, de exploração do seu povo e dos seus bens naturais – projeto implementado por aqueles mesmos que agora pretendem trazer soluções.

“As gangues foram criadas nessa lógica, por setores mafiosos nacionais e internacionais que precisavam exercer uma dominação sobre o povo haitiano, especialmente sobre as massas dos bairros populares, sobre os camponeses no meio rural, criando uma situação de pobreza, de miséria, de confinamento, para mantê-las sob dominação imperialista”, explica Jean-Jacques Henrilus.

Por isso, críticos à realização de eleições em um contexto tão antidemocrático consideram que a saída está numa mudança estrutural da sociedade, na construção de um novo Estado em que o poder esteja realmente nas mãos e a serviço do povo. “O Tèt Kole está engajado numa dinâmica que almeja uma mudança de Estado. Uma mudança radical, ou seja, não apenas trocar as pessoas que estão ali, mas sim construir um Estado popular, um Estado socialista capaz de assumir suas responsabilidades em prol do país e de todas as pessoas”, afirma Pierre-Mary Louis.

Henrilus complementa que essa criação de um novo Estado, de uma nova nação, realmente soberana, só pode partir da organização popular, único caminho possível “para reivindicar, para exigir, para enfrentar, para batalhar contra esse sistema de opressão. Porque, se a gente não se unir para acabar com ele, para arrancá-lo pela raiz, (…) a nação está perdida, a pátria está perdida, e nós estamos perdidos enquanto povo”.

Formação organizada pelo Tèt Kole junto com a brigada do MST, em 2025. | Crédito: Cha Dafol
Editado por: Gia Matheus Almeida

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