Em meio à crise institucional que atingiu o Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça pediu o afastamento do diretor da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. O ministro Alexandre de Moraes havia usado relatório da PF para embasar o pedido de investigação contra Mendonça por suposto abuso de autoridade. A movimentação aconteceu como retaliação ao fato de que Mendonça derrubou sigilo e expôs mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro para Moraes.
Apesar de já ter composto maioria para afastar Rodrigues, o ministro Gilmar Mendes pediu vista e interrompeu o julgamento sobre a decisão de Mendonça.
O cientista político Paulo Roberto de Souza avalia que Mendonça está fazendo uma “aposta muito alta” em uma tentativa de interferir nas eleições. “Ele está transformando toda a campanha eleitoral em uma questão judicializada”, aponta ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Caso Flávio Bolsonaro (PL) vença, ressalta Souza, ele poderá indicar até quatro novos ministros ao STF na sua primeira gestão. “Isso faria Flávio ter seis de 11 ministros do seu lado. Você tem um processo que faz parte de toda uma expectativa desse golpe da extrema direita de, no mínimo, transformação ou esgarçamento de uma democracia à sua imagem e semelhança de forma fundamental. É muito preocupante o que Mendonça está fazendo”, pontua.
O cientista político considera que as movimentações políticas aliadas à crise no STF transformam o cenário em verdadeiro caos. Figuras como Nikolas Ferreira têm aproveitado o contexto para se colocar como antissistema, ao mesmo tempo em que o campo conservador tenta colar o escândalo do Master no governo Lula, embora não haja qualquer prova disso. “Há uma articulação discursiva muito preocupante por parte desses grupos [da extrema direita] que começam cada vez mais a tensionar não só se vencer, mas principalmente se perder”, alerta.
Paulo Roberto de Souza aponta que Mendonça realizou um “atravessamento de poder” e que a expectativa é que Lula recorra ao plenário do Supremo contra afastamento de diretor da PF. “A gente vai ter um cenário de tensionamento constante a partir de agora. Nesse momento não há outra saída para Lula a não ser fazer esse enfrentamento político que ele estava, de forma cautelosa, segurando na semana passada. Chegou a uma situação limítrofe. “Agora é um questionamento de autoridade e enfrentamento aberto não só ao presidente, mas também ao candidato Lula”, afirma.
Além disso, o especialista pondera que existe hoje uma grande parcela da população que apoia o golpismo. “Uma coisa era a senhorinha de Santana de 1964, que não era uma maioria. Inclusive o golpe militar foi muito mais fruto das elites articuladas com os Estados Unidos e não com apoio popular. Hoje nós temos mobilizado há mais de uma década um percentual significativo que apoia [o golpe]”, aponta. “A democracia não estará assegurada enquanto essa extrema direita não for devidamente desbaratada, enquanto ela não for excluída do sistema político-eleitoral brasileiro.”
Para ouvir e assistir
Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira das 12h25 às 14h, e a segunda, sem alteração, a partir das 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
