Yaroslav Lissovolik conhece por dentro a arquitetura financeira global e sua trajetória nos ensina importantes lições. Entrou no mercado no fim dos anos 1990 pelo Renaissance Capital, então o principal banco de investimentos da Rússia, e passou de lá para o Fundo Monetário Internacional (FMI), no qual atuou como assessor do diretor-executivo russo Alexei Mozhin — com menos de 30 anos, estava assim sentado à mesa do Conselho Executivo. Formado em Harvard, na London School of Economics e no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), escreveu com seu orientador um dos primeiros livros abrangentes sobre a adesão russa à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Esse processo moldou sua visão de mundo. A Rússia levou quase 20 anos para entrar na OMC: a China ingressou em 2001, Moscou apenas em 2012. Ele relembra como viveram o processo na Rússia: “Você acha que já fez todas as concessões possíveis, e surge mais uma rodada de concessões que você tem que fazer. Mais uma, mais uma, a cada ano.” O país havia sido convertido em uma economia radicalmente liberalizada e, ainda assim, a porta do clube ocidental permanecia fechada. “Qualquer pessoa familiarizada com esse assunto entenderia o tremendo grau de frustração que vinha se acumulando ano após ano”, afirma.
Depois do FMI, veio o Deutsche Bank, em que foi economista-chefe para a Rússia e a Comunidade de Estados Independentes (CEI) por cerca de dez anos — período em que ainda se acreditava ser possível construir pontes econômicas entre o Ocidente e a Rússia, e que se encerrou com a Crimeia, em 2014. Seguiram-se o Banco de Desenvolvimento da União Econômica Eurasiática e o Sberbank, maior banco russo, onde chefiou a área de pesquisa de investimentos.
Essa descida do global para o regional e depois para o nacional produziu sua tese central. “Na época em que eu estava no FMI, achava que tudo deveria ser de cima para baixo, resolvido pelas instituições globais e repassado aos níveis inferiores”, conta. “Essa forma de pensar mudou quando passei a fazer parte de uma instituição regional. Comecei a pensar nos blocos regionais como os alicerces de uma economia global reformada. Porque, com essas organizações globais, é quase como um colosso assentado em alicerces muito frágeis.”
Em 2023, fundou a Brics+ Analytics, consultoria dedicada a produzir propostas para o bloco e para o Sul Global. Foi dele, em 2017, o artigo que lançou a sigla R5 — a ideia de usar as moedas nacionais dos cinco países do BRICS nas operações do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e dos bancos regionais —, embrião de todo o debate posterior sobre uma moeda comum.
A entrevista foi concedida em 2 de setembro, dez dias antes da cúpula do BRICS em Nova Délhi (Índia) e um dia depois do encerramento da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) em Bishkek (Quirguistão).
Confira a primeira parte da entrevista:
Brasil de Fato: Na semana passada tivemos a cúpula da OCX em Bishkek. A organização vem ganhando destaque, e o presidente Vladimir Putin ressaltou que o comércio da Rússia com o grupo atingiu US$ 400 bilhões, com 98% em moedas locais. A OCX estaria em transição para uma plataforma econômica? Qual sua avaliação da cúpula?
Yaroslav Lissovolik: Você está certo ao destacar o vetor-chave da OCX, que é a evolução do bloco em direção a um bloco econômico. Ela começou com forte ênfase na segurança, por razões compreensíveis na época, há 25 anos, e hoje as necessidades econômicas são enormes. A cada ano houve a constatação das limitações enfrentadas pelas economias regionais em termos de integração econômica e de comércio.
Por isso, a necessidade econômica começou a se tornar mais pronunciada, e isso se refletiu nos acontecimentos do ano passado, inclusive nas discussões sobre o banco de desenvolvimento. Quando se começa a ver a institucionalização, que proporciona algo mais baseado em regras, previsível e viável, passa-se a observar maior adesão da comunidade econômica, da comunidade de investidores, dos mercados.
Portanto, não estou muito preocupado com o fato de talvez não ter havido tanto progresso este ano em relação ao banco. Há muitas questões a decidir. É melhor dedicar um pouco mais de tempo e não cometer erros logo no início. E acho que uma das questões-chave pode ser a sede [Quirguistão e Cazaquistão se ofereceram para sediar o banco].
Sou um grande defensor de diversificar as instituições geograficamente, na medida do possível. De nos afastarmos desse padrão ocidental em que uma ou duas cidades representam toda a governança global, para que todas as regiões do mundo comecem a representá-la. Já está na hora. É um assunto que está no radar, está sendo discutido, e com certeza haverá avanços.
28 acordos foram assinados na cúpula. Quais deles chamaram sua atenção na declaração final?
Houve referências ao trabalho no sistema financeiro, ou seja, pagamentos em moedas nacionais. E menções a projetos de conectividade relacionados aos principais corredores. O mais importante aqui seria o corredor Norte-Sul.
Fiquei muito otimista ao ver na lista de documentos adotados os roteiros dos membros sobre projetos, portfólios de projetos e conectividade. Tudo isso está começando a se tornar sistêmico e baseado em projetos — algo menos retórico, mais concreto, mais fundamentado em projetos reais.
Quanto ao comércio, o padrão continua sendo, assim como no BRICS+, a ênfase em acordos bilaterais, nos quais os dois países concordam com uma determinada meta de comércio e trabalham para implementá-la. É o caso da Rússia, do Brasil, de praticamente todos. Alcançar níveis mais altos por esse instrumento é perfeitamente aceitável, parece funcionar e gerar resultados. Mas um caminho mais rápido seria um roteiro de acordos comerciais reunidos em plataformas comuns, resultando em um instrumento muito mais sistemático e previsível.
Minha preferência é por um roteiro de acordos comerciais no formato “OCX+”, que não abarque apenas os membros plenos, mas também os parceiros e os observadores, além da integração eurasiana e de blocos regionais como a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Há esse formato que começa a ficar mais evidente — China mais CCG, China mais Asean — e que poderia muito bem ser integrado a uma estrutura OCX+.
A visão de longo prazo que se cristaliza é a OCX+ como a plataforma da Eurásia para a cooperação do Sul Global, reunindo todos os principais atores e servindo como plataforma de agregação de instituições de desenvolvimento, blocos de integração e projetos de conectividade.
O senhor apontou a conectividade como uma das duas questões-chave na frente econômica e destacou o corredor Norte-Sul entre os projetos da declaração. Esse corredor liga o porto de Mumbai ao Irã e segue até São Petersburgo por ferrovia e navegação no mar Cáspio, encurtando de forma expressiva a rota que hoje passa pelo canal de Suez. Ele envolve exatamente três países que estão nas duas mesas: Rússia, Irã e Índia integram tanto a OCX quanto o BRICS. O que isso significa para o senhor?
O que significa que é bem possível que os dois trabalhem juntos. Vimos que o NDB vem cofinanciando projetos com bancos regionais, como o Banco de Desenvolvimento da União Econômica Eurasiática. Isso poderia muito bem acontecer com o banco da OCX assim que estiver operacional. A OCX definitivamente precisa estar envolvida no corredor Norte-Sul, pois o tema das rotas alternativas de comércio é o elo crucial que também poderia conectar, em grau mais forte, a OCX ao BRICS+.
Hoje quatro países são membros plenos dos dois blocos: Rússia, China, Irã e Índia. Se considerarmos parceiros, observadores e as demais categorias, são onze países nas duas mesas.
Isso é muito bom. São pontes, formas de se conectar e de expandir. Se antes se pensava que as sobreposições eram duplicação e um problema, não: isso é positivo para o Sul Global em termos de ampliar projetos e plataformas.
A sobreposição melhora as perspectivas de formação de plataformas entre acordos de integração regional — como a plataforma Beams que propus, que reúne a Iniciativa da Baía de Bengala para Cooperação Multissetorial (Bimstec), a União Econômica Eurasiática (UEE), a Área de Livre Comércio Continental Africana, o Mercosul e a própria OCX. Você constrói uma casa com “BRICS e Beams”: são os dois elementos-chave [em inglês, “bricks” são tijolos e “beams”, vigas]. O tempo dirá, mas estamos caminhando, de forma lenta, porém segura, para um paradigma em que não são apenas países individuais, mas blocos regionais, que se tornam o material de construção dessas plataformas.
E a OCX será a espinha dorsal, o elo absolutamente crucial de todo esse grande projeto que chamam de Grande Eurásia. Eu o chamaria de OCX+.
