Os países-membros da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) se reuniram nesta semana em Bishkek, no Quirguistão, em um encontro que tratou de alguns dos projetos da China para a governança global, expôs o patamar de cooperação entre Moscou e Pequim e intensificou a coesão das nações do grupo em torno do Irã, atacado desde fevereiro por Estados Unidos e Israel.
Já na segunda-feira (31), o presidente chinês, Xi Jinping, teve um encontro bilateral com o mandatário russo, Vladimir Putin, em que os ecos da “amizade sem limites” entre os dois países (definição dada em 2022 por ambos) voltaram a ser ouvidos. O líder chinês voltou a dizer que o país está disposto a trabalhar com a Rússia e outros países para “fortalecer as forças que lideram a forma da governança global”, enquanto Putin destacou um aumento de quase 50% no fluxo turístico bilateral no primeiro semestre de 2026, como resultado direto da isenção temporária de vistos.
Na terça-feira, foi a vez do Irã entrar em cena. Masoud Pezeshkian, a principal autoridade iraniana presente no evento, aproveitou a ida a Bishkek para cobrar os Estados Unidos por conta do descumprimento do acordo de paz provisório assinado há poucos meses. Ao lado de Putin, Pezeshkian mostrou reconhecimento ao apoio russo dado desde o início da guerra.
Antes disso, a China aproveitou para anunciar que vai criar um centro internacional de cooperação em Inteligência Artificial com os países da OCX, levando adiante 100 projetos de cooperação tecnológica com os membros da organização nos próximos três anos. A iniciativa acabou sendo uma das principais novidades da edição da OCX deste ano, e é resultado direto do impulso gerado pela criação da Organização Mundial para a Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), anunciada em julho, e da qual o Brasil é membro.
“O entendimento político da China de que estimular o desenvolvimento e estabelecer acordos ganha-ganha é uma estratégia para diminuir a temperatura dos conflitos globais”, avalia o professor Samuel Spellmann, do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Pará (UFPA) e diretor do Centro Amazônico de Estudos Chineses.
Para Spellmann, essa estratégia se contrapõe às políticas unilaterais escancaradas pelos Estados Unidos desde a volta de Donald Trump ao poder, em 2025. “A promoção de uma globalização mais inclusiva, da consulta e da cooperação em áreas tradicionais faz parte desse processo”, lembra o pesquisador.
Em 2026, OCX ampliou o horizonte econômico
Ainda em 2001, quando a OCX foi criada, o foco do agrupamento era a questão da segurança. Eram os tempos do início da “Guerra ao Terror”, propagada aos quatro cantos pelo governo estadunidense de George W. Bush. Foi, também, o período de entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC).
A questão da segurança sempre esteve em primeiro plano. Antes mesmo da formalização da OCX, os “Cinco de Xangai”, criados em 1996 por Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão (as últimas três, diga-se, ex-repúblicas socialistas soviéticas), já se voltavam a estabelecer condições para reduzir a influência militar dos EUA na região.
Tendo como foco o combate ao que chama de “três males” (separatismo, terrorismo e fundamentalismo), a OCX tem tido sucesso no cumprimento de seus objetivos primordiais, o que ganhou força com o ingresso de potências militares como Índia, Paquistão e Irã, nos últimos anos.
Nos últimos tempos, porém, a pauta econômica vem ganhando força. Em 2025, o Conselho de Chefes de Estado da organização lançou a Declaração de Tianjin, definindo, entre outros pontos, a criação do Banco de Desenvolvimento da entidade. Na ocasião, a China comunicou a criação de três plataformas para a cooperação nas áreas de energia, indústrias renováveis e economia digital.
A reunião de cúpula de 2026 indicou mais um avanço. “Está sendo construída uma organização de cooperação financeira especial em Tianjin, que é o novo centro de cooperação econômica. Há um núcleo interno de países ricos, em grande proporção, que terão uma cooperação mais equilibrada com a China. A partir disso, também haverá uma maior aproximação com o Quirguistão, que recebe a cúpula deste ano. Ao mesmo tempo, está sendo construída uma importante nova ferrovia que atravessa o Quirguistão e chega ao Uzbequistão, além do desenvolvimento das novas iniciativas de cooperação”, avalia Spellmann.
Funcionando como uma espécie de desdobramento da edição do ano passado, o encontro de 2026 da OCX intensificou a necessidade de criação de alternativas de financiamento para setores como comércio e infraestrutura. Spellmann lembra que muitos dos países-membros já contam com instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. São atores importantes, mas que já funcionam dentro de uma lógica padronizada de atuação, o que faz com que a ampliação do leque seja bem-vinda.
“A criação de uma nova organização ou de um novo banco pode possibilitar uma divisão de tarefas melhor, como foi feito em outras experiências internacionais, ou pode suscitar uma complementação da atual estrutura de financiamento. Pode haver uma complementação dos investimentos realizados até aqui”, diz o professor.
