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Pequim reafirma laços estratégicos com Pyongyang no 78º aniversário da Coreia do Norte

Em mensagem a Kim Jong Un, Xi Jinping destaca a amizade entre os dois países socialistas como vínculos 'inabaláveis'

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O presidente chinês Xi Jinping cumprimenta o presidente norte-coreano Kim Jong Un durante sua partida de Pyongyang, em 10 de junho de 2026, após visita de Estado à Coreia do Norte.
O presidente chinês Xi Jinping cumprimenta o presidente norte-coreano Kim Jong Un durante sua partida de Pyongyang, em 10 de junho de 2026, após visita de Estado à Coreia do Norte. | Crédito: KCNA

No dia em que a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) celebra seu 78º aniversário, Beijing voltou a destacar o caráter estratégico da relação com Pyongyang. Em mensagem enviada nesta quarta-feira (9) ao líder norte-coreano Kim Jong Un, o presidente chinês Xi Jinping elogiou os avanços alcançados pelo país e afirmou que preservar, consolidar e desenvolver as relações bilaterais continua sendo uma política “inabalável” da China.

Ao lembrar os 78 anos da RPDC, Xi afirmou que, sob a liderança do Partido dos Trabalhadores da Coreia, o povo norte-coreano alcançou um “vigoroso desenvolvimento” em diferentes áreas da construção socialista, apoiado na autossuficiência, na unidade e no trabalho árduo. O presidente chinês também destacou os resultados obtidos nos últimos anos.

Xi disse ainda confiar que o povo norte-coreano cumprirá as metas e tarefas definidas pelo 9º Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia, realizado em fevereiro, e abrirá novas perspectivas para o desenvolvimento do partido e do Estado. Segundo Xi, sob a liderança de Kim Jong Un, o partido e o povo norte-coreano vêm promovendo o desenvolvimento econômico e social e alcançando uma série de resultados que despertam na China “sincero deleite”.

Na mensagem, Xi foi direto ao definir a relação entre os dois países. China e Coreia do Norte, afirmou, são “vizinhos socialistas amistosos que permanecem lado a lado e compartilham alegrias e dificuldades”. O presidente chinês acrescentou que preservar, consolidar e desenvolver esses vínculos é uma política “inabalável” do Partido Comunista da China e do governo chinês.

Para Beijing, a relação com Pyongyang vai além da conjuntura internacional atual. Ela está apoiada em décadas de vínculos políticos e históricos entre os dois países. Xi também recordou sua visita de Estado à Coreia do Norte, realizada em junho. Segundo ele, o encontro com Kim Jong Un “abriu um novo capítulo” nas relações entre os dois partidos e os dois países.

O líder chinês afirmou estar disposto a trabalhar com Kim para continuar “fortalecendo a orientação estratégica” das relações, promover o desenvolvimento das respectivas causas dos dois países, melhorar o bem-estar das duas populações e aprofundar a amizade bilateral. O objetivo, acrescentou Xi, é também contribuir para “a paz, a estabilidade, o desenvolvimento e a prosperidade” na região e no mundo.

Mais do que uma mensagem protocolar de aniversário, a declaração reforça a disposição de Beijing de manter a parceria com Pyongyang e ampliar a coordenação entre os dois países.

Uma amizade forjada na guerra

Para entender o peso dessa relação para a China, é preciso voltar à Guerra da Coreia.

O conflito começou em 25 de junho de 1950, quando forças norte-coreanas atravessaram o paralelo 38 e avançaram sobre a Coreia do Sul. Os Estados Unidos intervieram em apoio a Seul e assumiram papel central nas forças organizadas sob o comando das Nações Unidas. Depois de recuperar Seul, as forças lideradas pelos Estados Unidos avançaram para o norte da península, ultrapassaram o paralelo 38, ocuparam Pyongyang e chegaram às proximidades do rio Yalu, na fronteira chinesa.

Para Beijing, o avanço representava uma ameaça direta à segurança do país. Em outubro de 1950, os Voluntários do Povo Chinês atravessaram o Yalu para apoiar a Coreia do Norte. A entrada chinesa mudou o curso da guerra e impediu que as forças lideradas pelos Estados Unidos avançassem até a fronteira chinesa. Na narrativa histórica oficial de Beijing, os combates ao lado dos norte-coreanos estão na origem de uma amizade que a diplomacia chinesa frequentemente descreve como “forjada em sangue”.

O custo humano foi elevado. Segundo dados oficiais chineses, 197.653 integrantes dos Voluntários do Povo Chinês morreram durante o conflito.

A guerra terminou em 27 de julho de 1953 com a assinatura do Armistício de Panmunjom. O acordo encerrou as hostilidades e estabeleceu a Zona Desmilitarizada, mas não resultou em um tratado de paz definitivo. Mais de sete décadas depois, a península continua formalmente sem um acordo de paz. É nesse cenário que Beijing defende o diálogo, o respeito à soberania e a criação de condições para reduzir as tensões.

65 anos de um tratado estratégico

A amizade construída durante a guerra ganhou uma base institucional em 11 de julho de 1961, quando China e Coreia do Norte assinaram o Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua. O acordo completou 65 anos em 2026 e continua sendo apresentado por Beijing como uma das bases da relação bilateral.

O aniversário do tratado ocorre em um período de intensificação dos contatos entre os dois países. Em abril, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, visitou Pyongyang. Em junho, Xi Jinping realizou sua primeira visita à Coreia do Norte em sete anos. Durante o encontro, os dois líderes reafirmaram a importância da amizade tradicional e discutiram formas de ampliar a cooperação. Xi defendeu o fortalecimento dos contatos de alto nível, da confiança política, da cooperação prática, dos intercâmbios entre os povos e da coordenação estratégica.

Os vínculos também avançaram na área de infraestrutura. Em março, o serviço ferroviário de passageiros entre Dandong e Pyongyang foi retomado depois de seis anos de suspensão. Na fronteira, avançam as obras do lado norte-coreano da Nova Ponte do Rio Yalu, que conecta Dandong, na China, a Sinuiju, na Coreia do Norte.

Com aproximadamente três quilômetros, a ponte teve o lado chinês concluído em 2014, mas permaneceu sem operação por falta das estruturas correspondentes no território norte-coreano. Em 2026, as obras foram retomadas e avançaram rapidamente, incluindo a construção de instalações de alfândega e imigração. A ponte ainda não foi inaugurada.

Já em 7 de setembro, Coreia do Norte e Rússia inauguraram sua primeira ponte rodoviária de fronteira sobre o rio Tumen. Com cerca de 1 quilômetro de extensão, a ligação conecta os dois países e deverá facilitar o transporte de mercadorias e ampliar o intercâmbio econômico bilateral.

As novas conexões se somam à retomada dos contatos de transporte e comércio da Coreia do Norte com seus dois principais vizinhos.

O comércio também voltou a crescer. As trocas entre China e Coreia do Norte chegaram a aproximadamente US$ 2,73 bilhões em 2025, aumento de 25% em relação ao ano anterior e próximo dos níveis registrados antes da pandemia. Mas a relação não se limita aos números do comércio. Para Beijing, os vínculos com Pyongyang também envolvem uma história política compartilhada e uma experiência comum de construção socialista.

Entre soberania, diálogo e pressão militar

A reafirmação chinesa acontece em meio a novas tensões militares no Leste Asiático.

Entre 7 e 11 de setembro, Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão realizam o exercício Freedom Edge, uma operação militar trilateral em águas internacionais a leste e ao sul da ilha de Jeju. Pyongyang considera esse tipo de exercício uma ameaça à sua segurança e criticou as manobras, advertindo que poderia adotar medidas mais fortes em resposta.

Para Beijing, o problema é mais amplo. A expansão dos mecanismos militares e o aumento da presença de forças externas na região podem alimentar ainda mais a confrontação na península. A diplomacia chinesa vem defendendo outra abordagem, baseada no diálogo e na redução das tensões.

Em agosto, o ministro Wang Yi afirmou que as causas fundamentais da instabilidade na península precisam ser enfrentadas e defendeu a criação de condições para a retomada do diálogo. Beijing também pediu que Washington abandone uma política hostil em relação à Coreia do Norte.

Para Beijing, a segurança da região precisa levar em conta os interesses de todos os países envolvidos, em vez de depender exclusivamente de mecanismos militares. Ao mesmo tempo, Beijing mantém canais diplomáticos com a Coreia do Sul e procura preservar seu papel como interlocutor na península.

A aproximação entre Pyongyang e Moscou também ajuda a explicar o novo cenário regional. Vladimir Putin enviou uma mensagem a Kim Jong Un pelo aniversário da RPDC, reafirmando a parceria estratégica entre os dois países.

Diante do fortalecimento das alianças militares lideradas pelos Estados Unidos na Ásia-Pacífico, China, Rússia e Coreia do Norte vêm aprofundando seus próprios mecanismos de cooperação.

A relação entre Beijing e Pyongyang, no entanto, é anterior à atual disputa geopolítica. Sua origem está nos combates da Guerra da Coreia e, desde então, passou por décadas de cooperação política, econômica e diplomática.

Setenta e oito anos depois da fundação da RPDC e 65 anos após a assinatura do tratado de amizade, Xi Jinping reafirma que essa relação continuará sendo preservada, consolidada e desenvolvida.

A mensagem enviada nesta quarta-feira deixa clara a posição de Beijing: a amizade histórica com a Coreia do Norte permanece estratégica, a coordenação entre os dois países deve ser fortalecida e a parceria é apresentada como parte dos esforços em favor da paz, da estabilidade, do desenvolvimento e da prosperidade na península, na Ásia e no mundo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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