A cantora argentina Liliana Herrero é uma das convidadas de “La Pampa Grande”, espetáculo que abre nesta quinta-feira (10) as apresentações da 33ª edição do Porto Alegre em Cena, às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto. O encontro reúne antigos e novos amigos gaúchos e argentinos em uma celebração de uma relação cultural que, há três décadas, busca derrubar o “muro invisível” que separa os dois países.
O espetáculo também marca a retomada de uma história iniciada há 30 anos, com a primeira edição do Porto Alegre em Cena em Buenos Aires, organizada por Luciano Alabarse e Carlos Villalba. Em diferentes combinações, Dolores Solá, Liliana Herrero, Carlos Villalba, Hique Gomez, Arthur de Faria, Vitor Ramil, Pedro Longes e Nina Nicolaiewsky cantam e tocam temas próprios e de alguns dos maiores compositores e compositoras brasileiros e argentinos. Eles são acompanhados pelos violonistas argentinos Diogo Rolón e Pedro Rossi e pelo percussionista brasileiro Giovanni Berti, todos com forte trânsito musical entre os dois lados da fronteira.
Para Herrero, a participação no espetáculo ocorre em um momento particularmente difícil para a Argentina. Em entrevista ao Brasil de Fato RS, ela fala sobre as relações entre as músicas dos dois países, a importância do território e da memória na canção popular e o papel da arte diante do cenário político argentino.
A cantora também critica a política econômica do governo de Javier Milei, denuncia a repressão aos protestos e defende que os partidos de oposição construam unidade e apresentem um projeto para o país. Para ela, diante do momento atual, é preciso “cantar”, mas também participar da construção de comunidades, ocupar as ruas e fortalecer vínculos de resistência.
“É muito importante poder sair da Argentina por alguns dias.”
Brasil de Fato RS: Você é uma das convidadas de “La Pampa Grande”, um encontro que acontece aqui no Brasil. O que significa participar desse encontro neste momento?
Liliana Herrero: O Porto Alegre em Cena sempre foi muito importante para a Argentina e para Porto Alegre porque é um festival que construiu uma ponte cultural, artística e musical entre os dois países, principalmente entre Buenos Aires e Porto Alegre.
Para mim, participar desse encontro, que é uma espécie de homenagem a esse festival, me parece muito saudável, muito importante.
Para nós, argentinos, também é muito feliz poder sair alguns dias da Argentina. O país está em um estado calamitoso. É extraordinariamente ruim.
Então, sair alguns dias para fazer música, compartilhar com outras pessoas e com outros músicos deste país é muito importante.
Quais são as principais semelhanças e diferenças entre as tradições musicais do Brasil e da Argentina? O que torna esse diálogo especialmente fértil?
Bom, há uma variedade de ritmos e de músicas no Brasil que sempre é absolutamente surpreendente para nós, argentinos. A tradição musical no Brasil é muito forte.
Na Argentina também, mas eu poderia dizer que são ritmos mais melancólicos. Esses ritmos brasileiros acompanham a dança, acompanham as festas. Na Argentina também, mas são muito diferentes.
Na Argentina também existe uma variedade de ritmos e melodias tradicionais e muitos músicos contemporâneos que estão fazendo outro tipo de música. Existe uma riqueza grande e importante.
Mas sempre que nos encontramos com músicos brasileiros se produz uma relação muito feliz, porque eles nos ensinam essas músicas, essa memória musical que é enorme.
E os argentinos também passamos para eles os olhares artísticos que existem na Argentina, que também são muito interessantes.
O Brasil tem uma variedade de ritmos absolutamente surpreendente
Ao longo da sua trajetória, você tem tratado a canção popular como algo que pode ser tensionado e interrogado. O que desperta seu interesse em uma canção?
Da canção popular, o que desperta fundamentalmente meu interesse é que a música de cada território tenha esse território presente, que tenha essa memória.
Porque cantar é construir um território, inclusive criticamente. Pode ser feito criticamente, e é o que eu faço. Mas as músicas pertencem a um território, e isso me parece que é preciso saber.
A voz canta um território e constrói também um território.
E quando falamos em canção de protesto?
Eu não diria “canção de protesto”. Mercedes Sosa dizia algo muito interessante: “Minhas canções não são de protesto. Não somos crianças para protestar”. Ela trocava a palavra “protesto” por “testemunho”.
São canções testemunhais, que indicam e assinalam o que acontece em um país. São canções de memória.
A importância da memória, não é? Não existe música sem memória.

Em tempos tão globalizados e tecnologizados, é mais difícil encontrar essa relação com o território e a memória, principalmente entre os jovens?
É mais difícil, é mais complexo que os jovens coloquem o acento naquilo de que estávamos falando antes. Eles estão, sobretudo, em um mundo altamente tecnologizado, caminhando em direção a esse disparate da inteligência artificial.
Isso muda muito as coisas. Mas acredito que os antigos horizontes dos países sempre retornam. Retornam de formas que não são robotizadas, que não dependem dos algoritmos nem das formas que temos de nos comunicar. Às vezes é preciso abandonar um pouco o celular.
Você mencionou Mercedes Sosa. E há também uma relação importante com Teresa Parodi, que é sua amiga. Como essas artistas e essa tradição aparecem no seu trabalho hoje?
Teresa Parodi é muito amiga minha. Mercedes também foi. Teresa acaba de editar um disco muito interessante que se chama “Hasta que amanezca”. E esse título está muito bem escolhido porque, neste momento, a Argentina está precisamente no momento da noite, não no momento do amanhecer.
Eu acabo de lançar um disco que se chama “Fuera de Lugar”. Isso não significa me retirar, não significa desertar, se essa palavra existe. Significa retirar-me para fundar outro lugar.
Você afirmou que “Fuera de Lugar” não significa “se retirar” nem “desertar”, mas “se retirar para fundar outro lugar”. O que significa para você esse “outro lugar” e o que você buscou construir com esse novo trabalho?
Sim, efetivamente, “Fuera de Lugar” não significa se retirar, não significa desertar, como está na moda agora entre alguns filósofos europeus. Não, não. Acho que se retirar é você se retirar de um lugar hostil para fundar algo, para construir outra comunidade, outro tipo de relação entre as pessoas e outra sociedade. Então, o disco traz esse chamado, é um chamado, digamos: “Daqui, vamos nos retirar e vamos construir um lugar mais feliz, solidário, comunitário, emancipado”. Essa é a ideia, digamos, não? Acho que isso é possível.
Depois deste novo disco, que outros projetos ou caminhos artísticos você gostaria de explorar?
Bom, quase simultaneamente ao disco, fiz um livro com uma companheira, uma grande amiga intelectual argentina chamada María Pía López. Fizemos um livro chamado “Desandar los días, correspondencias y conjuros”.
Esse livro está circulando, a apresentação foi muito bonita e foi uma experiência de escrita muito importante para mim. Na realidade, foi uma correspondência: nós trocamos e-mails e, com isso, conseguimos construir um livro que acaba de ser lançado. Penso que essa experiência posso continuar fazendo sozinha, com María Pía ou com quem quer que seja.
E, por outro lado, sim, estou pensando em fazer, vejam que vem outro disco, mas são todas maquetes, digamos. Ainda não tenho uma ideia completamente clara. Mas também estou na expectativa do que possa acontecer na Argentina a partir de 2027. O ano de 2026 já está terminando e, em 2027, são as eleições na Argentina. Então, espero que o clima mude e que este governo dito libertário se retire da nossa pátria.
Você atravessou diferentes momentos da história argentina e construiu uma obra profundamente vinculada à memória e à vida coletiva. Agora, sob o governo de Milei, qual é a importância da cultura e da música neste momento?
Para mim, é fundamental. Porque a música, como dizíamos antes, reflete sobre um território e sobre essa história. O território, finalmente, são tensões da história e o movimento.
É isso que eles são. Então, para mim, é fundamental porque estamos, aí sim, testemunhando o que acontece agora, no presente.
Uma coisa é a cultura e outra coisa é a arte
Você faz uma distinção entre cultura e arte. Por que considera essa diferença importante?
Para mim, é importante fazer essa distinção. Uma coisa é a cultura e outra coisa é a arte. São duas coisas diferentes.
A cultura é tudo o que um povo faz. É a estrutura secreta de tudo o que um povo faz, inclusive sua economia.
E a arte tem uma especificidade. Se eu me colocasse a pintar, seria um disparate. Mas o pintor sabe o que tem que fazer, sabe quais são as coisas que precisa fazer. E o mesmo acontece com cada uma das disciplinas artísticas.
Mas, por fora dessa distinção, que para mim é fundamental, o que considero valioso é que nos acontecimentos artísticos se produz uma comunidade.
Produz-se uma comunidade com os músicos com quem trabalhamos, ou com encontros como este. Isso me parece muito importante, porque toda comunidade deve perseguir a ideia de ser emancipada e livre. E acredito que os músicos e cada disciplina artística conseguem isso.

E como você vê o atual momento da Argentina? Há espaço para os sonhos?
Não, neste momento não. É um momento absolutamente escuro. É uma entrega escandalosa do país, do território físico, digamos, do mar, da água, da terra, do petróleo, de todos os bens que qualquer país possui. Tudo isso está sendo vendido. Então nós estamos em um problema muito, muito, muito grave. Estamos em um grave perigo.
Agora, novamente, está em disputa a questão das Malvinas. O presidente diz que quer recuperar as Malvinas. Meses atrás dizia exatamente o contrário: que as Malvinas não eram argentinas e que não eram uma preocupação dele.
Além disso, entregou a água, o lítio, o petróleo, tudo o que pôde. Porque, para este presidente argentino, a sociedade não interessa. O que interessa são os indivíduos e que cada um se arranje como puder.
Há muitos desempregados, demitidos em todos os lugares, e um desmoronamento da indústria argentina. É muito perigoso o que está acontecendo. É um momento de noite.
E há uma situação muito grave de endividamento. A quantidade de pessoas endividadas e de suicídios que estão ocorrendo hoje na Argentina é altíssima. Temos 6 milhões de pessoas endividadas por terem pedido créditos para poder comer. Não é para vir de férias ao Brasil. É para poder comer, pagar os impostos do dia, da casa, ou para pegar o transporte público.
Na Argentina o povo sai às ruas todas as semanas, mas é brutalmente reprimido
Qual é o papel do artista, do cantor e do compositor neste momento? Como a cultura e a arte podem ajudar?
Primeiro, é preciso cantar. É preciso dizer aquilo que se tem que dizer. E depois é preciso participar de toda construção de comunidade que exista fora da música ou dentro da música.
É preciso participar, ir às marchas, acompanhar. Estão reprimindo muito na Argentina. Reprimem os aposentados, as pessoas com deficiência, abandonam a educação e a saúde.
Quando um país está nessa situação, é um desmoronamento total. Então é preciso tomar partido.
Na Argentina o povo sai às ruas todas as semanas, mas é brutalmente reprimido.
Por exemplo, às quartas-feiras saem os aposentados, que são pessoas muito idosas. E mobilizam forças policiais, a Gendarmeria (Gendarmeria Nacional Argentina é uma força de segurança de natureza militar que atua sob a órbita do Ministério da Segurança da Argentina). Tanto o governo da cidade de Buenos Aires quanto o governo nacional mobilizam muitas forças de repressão.
E fazem muito mal porque jogam gás, jogam água, empurram, golpeiam. Isso está acontecendo com pessoas de 80 anos para cima. Isso está acontecendo em Buenos Aires todos os dias.
É um delírio o que estamos vivendo. É muito triste.

E como mudar isso? O que é necessário fazer?
Eu peço à oposição deste governo, aos partidos políticos que dizem ser oposição a esse governo liberal e de direita, unidade. Isso ainda não existe, e isso é perigoso.
Também gostaria de ouvir da oposição um plano. Qual é o plano? Uma vez que Milei vá embora, supondo que em 2027 não ganhe, qual é o plano? Como vamos consertar isso?
Porque a Argentina ficaria destruída, com empresas multinacionais se apropriando do território argentino.
A motosserra provocou uma profunda novidade na vida popular argentina
Como a Argentina chegou a esse ponto?
É preciso analisar isso com muito cuidado. Com muito cuidado. Acredito que Milei é um personagem que causou uma surpresa pela sua desenvoltura, e contra a casta (O conceito de “casta” é o termo que Javier Milei usa para criticar políticos tradicionais, sindicatos e elites), como ele dizia.
E, entre a população, muitas vezes as pessoas pensam que a política necessariamente rouba. Então, com essa frase: “Vou derrotar a casta, vou derrotar o roubo, vou cuidar para que a política não roube mais. Eu não sou político”.
Bom, com todas essas consignas e uma certa atitude de desenvoltura, com uma motosserra, como se fosse para cortar cabeças. Isso provocou na Argentina uma profunda novidade na vida popular.
Nunca se tinha visto um presidente tão escandalosamente alucinado. Nunca se tinha visto algo assim. Mas ele dizia coisas que as pessoas pensavam.
Por outro lado, suponho que nos governos democráticos anteriores tenham sido cometidos alguns erros. Isso também estava ali. As pessoas estavam cansadas e queriam passar a motosserra, cortar cabeças e começar tudo de novo. Foi isso que Milei prometeu: “Partamos do zero. Eu vou limpar tudo isso, esta porcaria”.
Bom, assim não se pode analisar a política, porque a política tem nuances, tem mediações. Mas, no entanto, isso teve uma aceitação enorme na vida popular argentina.
Diante desse cenário, há espaço para a utopia?
Sempre há. Na realidade, sempre deve haver. Estamos caídos, isso sim, preocupados, tristes, angustiados.
Acredito que existem alguns caminhos fundamentais que devem ser tomados. Primeiro, acredito que é preciso abandonar as redes sociais. Não ficar olhando televisão o dia inteiro nem os jornais.
É preciso sair para a rua, formar comunidade, construir laços de amizade e de resistência. É isso que acredito que precisa acontecer. Eles controlam as redes de uma maneira absolutamente eficaz. É preciso se retirar um pouco delas porque, além disso, não sabemos se aquilo que dizem é verdade. O que se diz nas redes é verdadeiro ou falso? Isso traz muitos problemas e muita confusão.
Acredito que o lugar é a comunidade, a construção da comunidade, o lugar na rua e o lugar na resistência. É isso que acredito. E pedir aos partidos políticos de oposição unidade. E um projeto.
Qual é a importância da memória e qual é o risco de seu desaparecimento?
Nós, seres humanos, estamos sempre dentro e fora da memória, dentro e fora da língua, dentro e fora da história. Não é que a memória se dissipe e se esqueça. Esquecemos, mas também lembramos ao mesmo tempo. Isso me parece.
E o povo argentino tem memória das grandes transformações que foram feitas na história da Argentina. Isso vai ser recuperado. Você pode se sentir por fora em um determinado momento, mas isso vai ser recuperado.
Por isso, o caminho é a insistência, a resistência e a construção de comunidade.
É preciso sair para a rua, formar comunidade, construir laços de amizade e de resistência
Que canção você cantaria agora para este momento?
Prefiro não nomear uma canção em particular. Diria que cantaria todas aquelas canções que retumbam na memória dos espectadores.
Porque, quando alguém consegue que o público reconheça nessa canção algo que havia esquecido, que é um texto que denuncia, que testemunha sobre alguma coisa, ou uma força no palco capaz de transmitir emoção, força e luta, acredito que cantaria qualquer canção que contribua para isso. Não apenas para o público, mas para mim também.
