Bares pela Democracia

O bar como ponto de vista da rua e o debate sobre a cidade: quem ocupa, quem governa e quem é ouvido.

Protejam os bares! O plano do Reino Unido para a música

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Samba do Cruz, na comunidade Cruz da Esperança, Zona Norte de São Paulo.
Samba do Cruz, na comunidade Cruz da Esperança, Zona Norte de São Paulo. Demolido pela Gestão Ricardo Nunes,. | Crédito: Reprodução/Cruz da Esperança

Podemos continuar no caminho do cerco, da multa e do fechamento ou aprender com quem já entendeu que a música é um bem público

Li numa discussão sobre escolas militarizadas: “Isso aí é bom pro filho do pobre, o filho do rico vai estudar música na França.”

De outro debate, dessa vez em cima de uma crítica ao financiamento de filmes via Lei Rouanet: “Chega em casa e assiste ao Canal do Boi então.”

Duas colocações que parecem distantes, mas ao mesmo tempo há um elo que as une: a arte. Por que alguém em sã consciência deixaria de estudar música para estar em uma escola militar ou trocaria uma Fernanda Montenegro por um nelore? A resposta, pelo menos do lado científico, é que não deixaria.

Existem estudos que ligam nosso amor à arte à evolução da espécie humana. É aquela famosa frase de que, antes de a criança falar, ela canta; antes de andar, ela dança; e, antes de escrever, ela pinta. Denis Dutton é um expoente dessa linha e dá uma palestra linda, ilustrada por Andrew Park, sobre o que ele chama de Teoria Darwiniana da Beleza.

Temos o lado da genética, indicando que aquele dom musical é herdado, assim como o arrepio que a gente sente ouvindo aquela poesia que toca na alma. São os genes da criatividade aflorando na pele, literalmente. A neurociência nos diz que estar diante de algo artístico ativa os nossos circuitos de recompensa e prazer e que o julgamento do que é belo se sobrepõe ao que é moral, ou seja, a estética se formou no nosso cérebro antes das leis sociais.

Outros apontam a arte como uma seleção sexual, do tipo sinais de aptidão ou a cauda de um pavão, até chegar à coesão social, em que aquela arte se desenvolve de uma forma que vira identidade, o que está conectado a andar em bandos também.

Toda a tribo vestida de uma forma para celebrar a mudança das estações, a colheita, o ano-novo, o carnaval. Esse é o conceito do que é um evento: interesses comuns de algumas pessoas, celebrados em algum lugar, por algum motivo. Esse conjunto de tradições e hábitos que viram identidade coletiva é o que chamamos de cultura.

Apesar desse discurso belo e positivo, a cultura pode muito bem servir ao mal, como a Inquisição, a escravidão e o colonialismo já foram a identidade coletiva de um povo. O interessante é entender como a arte responde à cultura opressora. 

O livro “Desobediência Civil”, de Henry David Thoreau, influenciou Martin Luther King na luta pelos direitos civis nos EUA. Dentro deste movimento, surge o Black Power como resposta crítica aos métodos pacifistas, exaltando o orgulho racial e a autonomia. Absorvendo o discurso da autodeterminação, resistência e denúncia social, o Hip-Hop vem ao mundo na década de 1970. Podemos dizer que o hip-hop é filho da desobediência civil? Não há dúvidas.

A repressão foi respondida com arte, que é a fonte da qual muitos outros movimentos beberam, da Tropicália ao Punk, do Samba ao Funk. Todos se espalharam porque a linguagem da criatividade e resistência é universal; ela brota onde a vida está, sem depender de empresa ou governo. A partir do momento em que são rejeitados e combatidos valores, regras e padrões da cultura dominante, forma-se a contracultura. 

O papel da música nisso tudo é central e, igualmente importante, são os palcos em que estes artistas se apresentam ou ensaiam. Bares, estúdios, teatros, restaurantes, centros culturais, pequenas casas de show e onde mais puder se ouvir música são parte indissociável dessa história. Não se fala de Beatles sem o The Cavern e nem de Bossa Nova sem o Beco das Garrafas.

Valorizar esse ecossistema é vital para a sociedade. Enquanto por aqui estamos debatendo a lei do silêncio e anti-Oruam, com a prefeitura de São Paulo cortando 97% do orçamento voltado à cultura, lá fora parecem já ter entendido o que está em jogo.

No Reino Unido, o governo lançou em julho de 2026 o plano “Turn It Up: Our Plan for Music”. A frase de introdução é potente: “A música é a linguagem compartilhada que nos conecta. Ela cruza fronteiras, atravessa pontes e nos ajuda a entender uns aos outros. Em uma época em que parece que muitos de nós perderam a capacidade de nos entendermos, a música importa mais do que nunca.”

A música como motor de mudança social: este é o pressuposto do programa que, de maneira geral, planeja o fortalecimento do ensino nas escolas, o apoio aos locais de cultura, à grande indústria e também ao público para que tenham acesso ao que será produzido.

O plano reconhece que a música é “um espaço cívico — tão importante quanto qualquer rua principal ou prefeitura — onde as comunidades se reúnem, onde os jovens desenvolvem confiança e criatividade e onde novas ideias florescem”. Define os espaços musicais de base, como os bares, os clubes e os estúdios, como “parte integrante de nossa herança cívica, que deve ser protegida, nutrida e defendida”.

Mais do que isso, o plano britânico encara de frente o que em outras cidades é usado como justificativa para fechar bares: as reclamações de ruído. O governo se compromete a defender a coexistência entre moradores e clubes, baseado no Agent of Change.

Este princípio determina que quem altera a ocupação de um local, como construir um prédio residencial perto de um clube já existente, deve pagar pelos custos do isolamento acústico, protegendo a vida noturna contra o fechamento por barulho. Quem chega por último paga pela adaptação e não o contrário, o que vale também para um bar que abre perto de residências que estavam ali anteriormente.

Há também a previsão de congelamento e cortes de contas para pequenos locais de música ao vivo que, assim como em São Paulo, representam quase a totalidade dos espaços em funcionamento. Adicionado aos programas governamentais já existentes de plano de negócios para pequenas empresas, apoio de crescimento e uma “Business Academy”, a intenção é fortalecer os estabelecimentos financeira e administrativamente.

Não se trata de uma visão romântica, é pragmática: a música gera £ 8 bilhões por ano diretamente na economia britânica e sustenta 220 mil empregos. O Reino Unido é o segundo maior exportador de música do mundo. O país entendeu que proteger a música não é gasto, é investimento, e que proteger os espaços onde a música nasce é proteger a própria indústria.

No Brasil, temos uma estrutura voltada à cultura como política permanente também, na qual a Lei Rouanet, tão castigada por aí, é um dos exemplos mais importantes. Na realidade, é um incentivo fiscal, o que significa que não há repasse de dinheiro público diretamente. O governo abre mão de parte do imposto de renda para que pessoas físicas e empresas invistam esse valor em projetos culturais, o que demanda uma inscrição, análise, captação e prestação de contas até a efetivação deste projeto.

Um longo caminho burocrático que depende da iniciativa de terceiros, mas que, mesmo assim, segundo estudo da FGV, movimentou R$ 25 bilhões na economia brasileira, foi responsável por 228 mil postos de trabalho e retornou R$ 7,59 a cada R$ 1 investido no ano de 2024.

Porém, o que os britânicos estão fazendo é diferente. Eles alçaram a música ao patamar de commodity, como é a soja para o agronegócio. Mapearam seus setores e projetaram diferentes formas de proteção e incentivo para cada um deles com investimento direto de dinheiro público.

Ao contrário da soja, investir na música traz impactos positivos à sociedade e ao meio ambiente, e este é o último item do programa. Social pela música ser reconhecida como um grande ativo ao bem-estar geral, ajudando na solidão, melhorando a saúde mental e unindo pessoas para compartilhar experiências.

Do lado ambiental, é entendido que, pela força cultural e pelo tamanho da indústria, a música influencia comportamentos e é um espaço de experimentação para iniciativas verdes, em especial em festivais.

Entender os aspectos imateriais e os benefícios da música é uma visão completamente oposta do que vivemos em São Paulo. O Poder Público trata donos de bares e demais trabalhadores da cultura como criminosos, basta ver como as leis vigentes são aplicadas e a permanente força policial colocada para resolver qualquer questão.

Grupos antirruído colocam os bares como os principais agressores do bem-estar da comunidade, visão estimulada nos Conselhos de Segurança (Consegs). As pessoas que trazem uma roupagem nova a esta “militância”, chamando-a agora de despoluição sonora, estão de mãos dadas com grandes fornecedores de material acústico para transformar a cidade em ilhas isoladas.

O plano (ou não-plano) é ter cada vez mais conflitos, gerar mais multas, mais processos judiciais, mais reclamações e mais barulho. É uma luta aberta contra a arte, sempre foi. Não à toa a contracultura paulistana sempre pulsou e foi o que alçou a cidade ao título de que nunca dorme. 

A arte está na nossa natureza. A neurociência mostra que ela ativa nossos circuitos de recompensa, a antropologia que ela une tribos e cria identidade, e a história conta que ela é a ferramenta mais poderosa de crítica e transformação. Negar a arte é negar a humanidade. Criminalizar a cultura é criminalizar a vida.

Os britânicos entenderam isso. O “Turn It Up” é um plano para colocar a música no centro da vida nacional. Não porque seja apenas bonito, mas porque é essencial, estratégico e, no fim das contas, um direito.

A escolha é clara: podemos continuar no caminho do cerco, da multa e do fechamento ou aprender com quem já entendeu que a música é um bem público e que os espaços onde ela nasce merecem ser protegidos.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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