Como nos alertaram os pensadores seminais do Brasil, sempre que se colocam em curso estratégias de desenvolvimento nacional e o Estado é acionado como promotor desse desenvolvimento, nossas elites reagem dentro e fora da ordem para impedir a continuidade do projeto. Resultando que, em dois terços do século 20, vivemos sob regimes autoritários e ditatoriais.
E, para quem imaginava que havíamos consolidado definitivamente a democracia no país, assistimos ao golpe do impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016. Desde então, dez anos depois, seguimos sob o signo do golpe, com a classe trabalhadora na defensiva, assistindo à retirada de direitos, retrocessos políticos e econômicos. Para interromper um ciclo de neodesenvolvimentismo iniciado em 2003, nossas elites não titubearam nem mesmo em se unificar em torno de uma candidatura neofascista, elegendo Jair Bolsonaro em 2018.
Neste marco, a vitória eleitoral de Lula em 2023 foi também uma tremenda vitória política, que nos deu a oportunidade, a depender das iniciativas que desenvolveríamos entre 2023 e 2026, de superar uma correlação de forças extremamente desfavorável para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento, democrático, soberano, solidário, sustentável, feminista e antirracista.
Passados quatro anos da última eleição presidencial, é preciso nos perguntarmos: quanto conseguimos alterar a correlação de forças a favor da classe trabalhadora e construir melhores condições para a luta política por um projeto popular?
Uma fotografia deste momento das eleições de 2026 nos dá um indicativo do tamanho do desafio. Em que pese a divisão da direita em diferentes candidaturas, é fato que parcela muito significativa do eleitorado, do empresariado, os meios de comunicação empresariais, o agronegócio e o setor de mineração seguem apostando numa candidatura de orientação neofascista.
O alinhamento dessa candidatura aos interesses neocoloniais do imperialismo estadunidense, longe de ser um elemento fora da curva, é a demonstração da atualidade do traço antinacional e golpista de nossas elites. Contra a democratização do país, que levaria à perda de privilégios, o autoritarismo é meio e fim.
É fato que as forças conservadoras, reacionárias e neofascistas se entranharam no seio da sociedade brasileira, em igrejas, famílias, forças policiais e militares, nas redes sociais e na institucionalidade, se constituindo como ator relevante nos poderes legislativos municipais, estaduais e nacional, em governos estaduais e prefeituras.
A disputa central das eleições de 2026 é, portanto, entre a possibilidade de um projeto nacional de desenvolvimento versus a subordinação dos interesses nacionais aos interesses do imperialismo estadunidense.
Nossas eleições estão inseridas no centro da disputa geopolítica mundial entre EUA e China, que tem atravessado os processos eleitorais na América Latina. Os EUA têm se dedicado especialmente a retomar o domínio sobre o continente e buscado explicitar, todos os dias, que usaram de tudo (big techs, tarifas, sanções, poder econômico e militar) para alcançar seus objetivos.
Está no centro desta disputa o domínio sobre os minerais estratégicos, dos quais o Brasil tem as maiores reservas mundiais depois da China. Ter acesso a essas reservas esteve no centro das negociações entre EUA e China, na primeira onda de tarifas, e entre EUA, Rússia e Ucrânia, por exemplo. O controle desses minerais é determinante para o desenvolvimento da indústria bélica, a transição energética e o novo ciclo tecnológico.
De outro lado, uma vitória das forças populares nessas eleições abre a possibilidade de o país se inserir nessa disputa global com alto poder de negociação, requerendo, para acesso às nossas riquezas estratégicas (minerais, terras agricultáveis, potencial hídrico, eólico, biodiversidade, parque industrial, população, mercado consumidor etc.), transferência de tecnologia de ponta e investimentos, gerando empregos de qualidade e alavancando o nosso desenvolvimento.
A depender de nossas elites, esse potencial não se desenvolverá. Uma vitória eleitoral da direita colocará a recolonização como um horizonte de longa duração. A vitória de Lula, especialmente se acompanhada da politização programática e da mobilização da sociedade em defesa desse programa, deflagrará um caminho de democratização do país sem precedentes.
O último dos governos Lula pode, deve e tende a ser um governo mais avançado que os anteriores; essa precisa ser nossa aposta e nossa cobrança.
Eleger um projeto popular nas urnas e ruas nunca foi tão decisivo para o futuro do Brasil, que segue sendo um sonho que podemos realizar.
*Frederico Santana Rick é sociólogo, militante do Movimento Brasil Popular, das pastorais sociais, fé e política, e participa da secretaria das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

