Dando sequência nesta breve série de quatro artigos, das Lições do Irã para a América Latina, abordamos o tema da lealdade nos postos-chave. Quando da revolução nacional de 1978, culminando com a proclamação da República Islâmica no ano seguinte, havia dois grandes problemas em setores chave daquela sociedade: garantir frações de elite dirigente que fossem leais aos projetos nacionais coletivos.
A queda do Xá – o monarca cuja dinastia foi inventada pelo serviço de inteligência britânico e cujo – foi acompanhada de um gesto inédito. As Forças Armadas regulares declararam a sua “neutralidade” na defesa do regime absolutista que foi fruto de um golpe de Estado comandado pela CIA, a Operação Ajax, em 1953. Logo, uma vez derrubado a ditadura que vivia em condições de luxo e gastos nababescos, não havia nenhuma garantia de que esses mesmos militares não tentariam outro golpe de Estado, dessa vez sob comando de algum general oportunista.
O Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) foi a resposta da luta nacional contra a duvidosa posição do alto comando militar que serviu ao Xá e aos EUA com tanta “lealdade” por 25 anos. Como a economia iraniana se estabelece em forma de planificação estratégica, com a presença direta ou indireta do IRGC – via fundações e empresas de capital misto – nos setores fundamentais, não houve um desmonte deste pilar da conquista da soberania e sim uma ampliação.
Hoje o alto comando iraniano é formado pelos seguintes cargos:
Comandante em Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Sub Comandante em Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.
Comandante-em-Chefe do IRGC a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e Vice-Comandante do IRGC, enquanto o contra-almirante Ali Ozamai, comandante sênior da Força Naval da IRGC.
Chefe da Organização de Mobilização dos Oprimidos (BASIJ) da IRGC.
Assim de 4 postos-chave clássicos: um por força e um geral, o Irã tem 6 postos-chave, sendo que Forças Armadas (de defesa territorial) e do IRGC tem dois comandantes, e a força naval e a mobilização interna um comando direto. O fator mobilização é a garantia de que o país inteiro pode ser tornar um cenário de guerra na defesa interna ou contra a invasão estrangeira, de forma regular ou indireta.
Ficam algumas dúvidas sinceras. Haveria tamanha unidade e mobilização se a ocupação de postos-chave fosse sinônimo de melhoria das condições materiais, privilégio e acesso ao processo decisório para beneficiar suas famílias? Ou a presença em posições de comando aumenta o risco de vida, considerando que o padrão de consumo de autoridades iranianas é modesto, a considerar pela própria residência do Líder Mártir? Seria possível mobilizar a população sem o exemplo que vem da liderança? Evidente que não.
A lição para a América Latina é a relação direta, nem que seja necessária uma invenção institucional, entre a capacidade de defesa do país com o desenvolvimento econômico e a nacionalização de cadeias de alto valor agregado. Se o emprego do orçamento de defesa nacional for voltado para gastos com compra de armamentos estrangeiros e cursos no exterior que incluem lavagem cerebral, aliciamento de oficiais de carreira e propaganda imperialista, simplesmente as forças armadas se tornam não confiáveis.
Não há possibilidade alguma de um país soberano sem uma defesa nacional à altura e esta é inviável na ausência de uma escola de formação de militares profissionais de carreira que não se identifiquem com seu povo, território, riquezas nacionais e direitos coletivos. Nada disso é possível sem instituições políticas legítimas e a percepção da maioria da população que o país não será vendido para interesses mesquinhos de frações de classe dominante.
*Bruno Lima Rocha Beaklini é jornalista da HispanTV Brasil, doutor em ciência política, tem pós-doc em economia política internacional e é professor de relações internacionais.
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***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

