Há quem acredite que o tempo corre em linha reta. Mas basta uma lembrança acender no escuro — o cheiro de uma casa antiga, uma música distante, um nome esquecido — para que o passado se curve e o presente se dissolva. É nesse instante que a memória revela sua natureza mais misteriosa: não é um arquivo, é uma viagem.
Essa viagem, silenciosa e íntima, é o ponto de partida do filósofo canadense Kourken Michaelian em Mental Time Travel: Episodic Memory and Our Knowledge of the Personal Past (MIT Press, 2016). Ele sustenta que lembrar não é recuperar o que foi, mas recriar o que resta. A memória, para ele, funciona como uma imaginação disciplinada pela realidade, um trabalho artesanal em que o cérebro mistura fragmentos de experiências, emoções e contextos para compor narrativas coerentes sobre quem fomos.
Durante séculos, a psicologia tratou a mente como um arquivo fiel, guardando cópias do passado à espera de consulta. Michaelian desmonta essa metáfora: lembrar é inventar com base em vestígios. Neurocientistas confirmam o argumento. O mesmo circuito cerebral, especialmente o hipocampo, se acende quando evocamos lembranças ou imaginamos o futuro. O que muda não é o mecanismo, mas a direção da viagem. Recordar e antecipar, diz o autor, são faces do mesmo gesto mental: deslocar-se no tempo para continuar existindo.
A consequência é profunda. Se cada lembrança é uma reconstrução, a precisão factual importa menos que a coerência emocional. A memória não é feita para dizer a verdade, mas para manter viva a continuidade do eu, uma ficção vital que garante que a história interior siga com algum sentido. Henri Bergson já intuíra algo semelhante ao afirmar que o tempo da consciência é fluxo, não sucessão. Paul Ricoeur também via na lembrança um ato narrativo, uma reinterpretação incessante do passado.
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Michaelian vai além: insere a memória no terreno da evolução. Lembrar, sugere ele, é uma habilidade adaptativa. O cérebro humano aprendeu a revisitar o passado não por nostalgia, mas por sobrevivência. Cada lembrança funciona como um ensaio, um protótipo emocional do que ainda pode acontecer.
O passado, assim, deixa de ser culto e se torna ferramenta.
Há, nesse raciocínio, uma beleza melancólica. Se o passado é sempre refeito, nunca o possuímos, apenas o narramos. Cada lembrança é uma ficção da permanência, um remendo no tecido do tempo. O que chamamos de memória talvez seja apenas a forma que o tempo encontra para continuar falando dentro de nós, dobrando-se em espirais, projetando sombras que o presente tenta decifrar.
A literatura há muito compreendeu isso. Escrever é também uma forma de viajar no tempo. O romance, o conto, o poema, todos são laboratórios da memória, tentativas de recompor o que se perdeu. Quando Marcel Proust morde a madeleine e o passado explode em sensações, ele encena a tese de Michaelian com exatidão: a lembrança como reconstrução imaginativa. O escritor não restitui o real, o reinventa, preenchendo lacunas com linguagem.
A cada leitura, repetimos esse gesto ancestral. Recriamos o que lembramos, imaginamos o que esquecemos, e seguimos em frente com a ilusão necessária de continuidade. Talvez seja essa a mais humana das viagens: a que fazemos sem sair do lugar, enquanto o tempo, paciente e invisível, se dobra dentro de nós.
*C.S. Soares é escritor e biógrafo, autor de Machado: O Filho do Inverno, obra que revela o Machado de Assis negro que o país tentou esquecer. Está nas redes sociais como @cssoaresonline.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

