Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Pisa em queda no mundo: o fracasso das avaliações

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O Pisa é um indicador educacional que pretende comparar resultados dos sistemas escolares de diferentes países | Crédito: Agência Brasil

Voltemos às lições de Paulo Freire e bel hooks

Por Natália Gil

Catástrofes naturais ao redor do planeta, movimentações fascistas por toda parte, uma sensação cada vez mais forte de que o céu vai desmoronar sobre nós a qualquer momento, mas, antes que o mundo acabe, é a qualidade do ensino mundial que está despencando! Não tenho nenhuma inclinação negacionista, mas diante do caos generalizado, em lugar de desesperar validando o anúncio do fim dos tempos, creio que é preciso cultivar a serenidade para a reflexão sobre os fatos e suas interligações.

Nesta semana, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do último Pisa (Programme for International Student Assessment), o exame padronizado que esse organismo transnacional realiza desde 2000 com a intenção de medir a qualidade da educação no mundo. 

O quadro apresentado é desolador: o desempenho caiu vertiginosamente na última década. Especialmente nos países ricos, a queda foi enorme. Dinamarca, França, Japão, entre outros, amargaram resultados muito piores do que estavam acostumados a ver.

E o que exatamente essa o Pisa avalia? Trata-se de um indicador educacional que pretende comparar resultados dos sistemas escolares de diferentes países, a partir do desempenho de uma amostra de estudantes de 15 anos de idade em provas de leitura, matemática e ciências, aplicadas a cada três anos. Por que só essas três áreas são avaliadas? Por que não tem artes, corporeidade, história ou sociabilidade? 

Porque os especialistas da OCDE consideram que os resultados naquelas três provas permitem saber se, ao final da escolarização, a população do país adquiriu os conhecimentos e as habilidades essenciais para uma plena participação nas sociedades modernas. Segundo a OCDE, “PISA counts what counts”, ou seja, essa avaliação leva em consideração apenas o que realmente importa.

E por que a OCDE é que saberia o que realmente importa em educação? Ora, porque os economistas sabem de tudo!

É justo dizer que se trata de uma linha teórica específica no campo da Economia. No entanto, uma linha hegemônica, de acordo com a qual, nas últimas décadas, a OCDE tem pretendido localizar países em que haja soluções eficazes em educação para que sirvam de modelo a outros países com características sociais e econômicas semelhantes. 

Utilizando-se de técnicas estatísticas sofisticadas, criando rankings para benchmarking, projetando as políticas do New Public Management, esses economistas têm defendido que a competição seria evidentemente salutar. Afinal, quem ia querer ficar nas piores posições do ranking? 

Ou seja, nessa tendência, independentemente de financiamento suficiente ou do provimento de condições adequadas para o bom funcionamento das escolas, a existência de ranqueamento por si só faria com que professores e gestores “se mexessem” para não ficar para trás! 

Adicionalmente, os experts da OCDE e uma variada gama de think tanks assemelhados vêm oferecendo assessoria e orientação para que os países possam implementar políticas educacionais mais efetivas, baseadas nas supostas evidências obtidas em diagnósticos tais como o Pisa. Depois de mais de vinte anos distribuindo suas excelentes orientações para o melhor encaminhamento da educação nos mais variados países do mundo, eis que o resultado é… que a educação está muito pior!! 

E se, por um momento, ousássemos aventar que os economistas não entendem de educação?

Curioso notar que faz um mês, quando saíram os resultados do Ideb, o indicador de qualidade do ensino feito no Brasil pelo Inep, os resultados apontavam que a educação brasileira melhorou. No Pisa, no entanto, o Brasil não melhorou; ficou estagnado. Pisa e Ideb seguem a mesma inspiração em teoria econômica, como nos mostra o estudo das pesquisadoras Marialuisa Villani e Dalila Oliveira. Será que os economistas “deles” são melhores que os “nossos”? Ao que parece, na verdade, uns e outros andam confusos com seus próprios instrumentos tão plenos de objetividade.

Não, eu não sei porque os resultados do Pisa despencaram nesta última edição. Mas não se preocupe: nas próximas semanas haverá um sem número de especialistas de todo tipo apresentando as mais variadas explicações para o fenômeno. A decisão de qual explicação valerá mais vai depender das credenciais e linha teórico-política de cada analista. Os grupos economicamente hegemônicos, mesmo quando apresentam as explicações mais fracas do ponto de vista teórico, tendem a prevalecer. São deles os melhores e maiores espaços na mídia para divulgar seu pensamento. Isso não significa que deles tenham as melhores e mais confiáveis explicações!

Na contramão do que tende a ganhar mais espaço, portanto, sugiro: e se ousássemos, por um momento, aventar que não há possibilidade de reduzir a avaliação do que se passa nas escolas a critérios objetivos e quantificados? Afinal, a educação é feita de seres humanos, envolve suas variadas culturas e as mais diversas subjetividades. 

Veja, isso não significa que eu esteja defendendo a impossibilidade de avaliarmos a qualidade da educação. Trouxe esse assunto aqui para a coluna não faz muito tempo. 

O que proponho é que aproveitemos o momento em que as notícias disseminam o caos em educação para deixarmos de lado o que recomendam os economistas e voltarmos às lições de Paulo Freire e bel hooks, entre outros, e lembrar que a educação precisa ser dialógica para que seja uma prática de liberdade. 

Ou seja, a qualidade do ensino melhora, queira o Pisa ou não, quando as pessoas e suas culturas ocupam a escola. E não quando os tempos e espaços escolares estão dominados por planilhas “eficientes”, rankings, bonificação por resultados, competências neoliberais, maximização do impacto das aprendizagens e outras tolices desse tipo. Aliás, pra adiar o fim do mundo, Ailton Krenak já havia nos mostrado que o caminho é outro.

Natália Gil é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeira

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