Ana Paula Fagundes*
“Minha sereia rainha do mar, não deixa meu barco virar,
não deixa meu barco virar, não deixa mamãe Iemanjá”
Foi depois de passar uma noite sonhando com uma imagem que dançava junto a um arco-íris e mostrar o desenho a uma amiga que ela me foi apresentada. Minha amiga disse que meu desenho representava Ewa. Uma orixá feminina, uma Yabá que não é tão conhecida quanto Iemanjá, Oxum, mas é de grande potência.
Então fui pesquisar e encontrei vários mitos (itan). Dentre os mitos de Ewa, um me chamou mais a atenção. Contava que Ewa, irmã de Oxumaré e filha de Nanã – a senhora da sabedoria, não queria casar e nem ter filhos. Nanã cobrava que a filha namorasse e estava sempre em busca de algum pretendente, além de querer netos.
Então na história surge um orixá masculino. Ewa se apaixona por ele, o que gera ciúmes em Oyà, orixá dos ventos e tempestades, também conhecida como Iansã. Fugindo de Oyá que está muito braba e lança fogo nas matas ao lado do rio, Ewa percorre as águas doce de Oxum, até encontrar refúgio na água salgada junto a Iemanjá que lhe dá apoio e proteção.
Nos itan que pesquisei, encontrei que Ewa se refugia no fim do arco-íris, junto ao irmão, livre do casamento. Juntos, Oxumaré e Ewa, são considerados a energia do arco-íris.
Ewa é a protetora da natureza, do arco-íris e dos raios solares, da intuição e da vidência, e dizem que utiliza o nevoeiro para se proteger daqueles que a perseguem. E ainda que, é uma Yabá linda, acrescento: livre.
Considero que este itan possibilita muitas reflexões.
Ah, linda, encantada e encantadora também é a capoeira! A capoeira bebe da matriz afro-brasileira e de seus mitos, mistérios e dos feitos daqueles que vieram trazidos de África e que, em uma mistura de etnias, se organizaram em luta e arte.
Capoeira é natureza. É o vento, é a água, é o movimento, é o encontro, são os animais, as plantas, a energia. Possui uma cosmopercepção que, pela essência, não deveria seguir ao eurocentrismo linear, “branco”, hetero cis e patriarcal. É uma expressão viva, pulsante de cultura que é resistente ao tempo, que une luta, dança e música, criada por pessoas africanas escravizadas no Brasil. Uma expressão cultural de preservação de tradições, mas também mescla de etnias, com a confluência com os povos originários e também de pessoas brancas excluídas.
Ao escutar o toque do berimbau, o corpo arrepia e algo desperta em muitas pessoas. Como um chamado… para a energia vital.
Apesar de tantas belezas, a capoeira também tem suas mazelas contaminada pelo patriarcado. É preciso escarrar, escancarar a porta pra ver se sai esta parte suja que não faz parte e não deveria estar ali. A vontade é de arrancar o machismo. Tirar pela raiz. Como se fosse algo concreto, objetivo e fácil de fazer, mas não é simples. É complexo.
Na capoeira tem momentos de sair e deixar passar. É uma arte e luta que ensina a não sucumbir. A sobreviver, a combater com garra às opressões, mas também a ser resiliente aos desafios e tombos da vida.
Aprendemos a olhar a realidade. Olhar os riscos, os perigos. Em um estado de atenção e prontidão corporal e espiritual. Estar preparadas antes do conflito. Isto nos ensina a capoeira.
Frente a uma situação em que não se vê possibilidade de mudança, pode ser necessário ir embora. Mas o meu, o nosso desejo é que não seja uma fuga que acabe em si mesma, mas uma saída para construir um outro ambiente, com outras relações. Beatriz Nascimento quando falava nos quilombos explicava sobre fugir rumo à liberdade. Quilombos como territórios de liberdade e identidade negra, acolhendo também indígenas e pessoas brancas. Em um processo de solidariedade e preservação cultural, representações de luta por autonomia e direitos.
Existe um imaginário coletivo do que é capoeira. Esta visão é construída pelos meios de comunicação, por falas repetidas na sociedade dominante, que associam capoeira a uma luta – feita por homens, à arte marcial, a um esporte. Há uma visão de masculinidade e virilidade, que é confirmada pelos grandes grupos institucionalizados de capoeira que ainda repetem opressões.
Então, algumas pessoas dizem que a capoeira é machista por natureza, o que não pode ser mudado.
Que a sociedade é machista, escutamos toda hora. Dentro desta sociedade patriarcal, onde tem relação de poder estabelecida, são inevitáveis comportamentos machistas. A capoeira, assim como outras esferas institucionais da sociedade, é atravessada pelo machismo. Podemos “nos reconstruir” depois de uma violência, “nos reinventar”, “nos acostumar”, “superar”; e fazer terapia pode ajudar. Podemos nos reconstruir, mas não podemos aceitar mais as violências como se fossem algo natural. Precisamos lutar contra a opressão machista, por cada uma de nós, por aquelas que vieram antes, pelas que estão aqui e pelas que virão.
Capoeira ensina o dever de reverência para com aqueles que vieram antes, permitindo que você esteja aqui. Versa sobre o respeito ao tempo de cada pessoa em desenvolver o seu corpo, suas habilidades, sua hora de jogar também. De acordo com cada corpo e tempo.
Entre suas múltiplas dimensões, a capoeira é um poderoso instrumento de luta. Redesenha nossos movimentos no mundo e fortifica nossos corpos, nos fazendo redescobrir que somos corpos vivos e criativos, e que também fazemos parte de um corpo coletivo. Então, este é um chamado para ocupar este corpo-território que é a capoeira, enquanto instrumento de libertação.
É lançado um convite a todas as mulheres e às feministas para conhecer o que está acontecendo, nesta pequena roda da vida que é a capoeira, que diz reproduzir a grande roda da vida. Um convite para nos unirmos em coro, vestes de luta e lutar contra as violências na capoeira e na sociedade.
No livro autoral “Tranças de Mulheres na Capoeira Angola” relatei casos que aconteceram na capoeira. De pessoas, homens, usando seu lugar de poder para abusar de outros corpos. Apesar de sermos desestimuladas a falar, a relatar, registrei para que outras pessoas saibam e para que seja cortado o ciclo das violências. No livro, não constam os nomes verdadeiros, a trama se desenrola como em uma história de ficção, porém todos os fatos são reais. Os nomes em si não são tão relevantes, quanto a análise de comportamentos que se repetem na capoeira e na sociedade e não podem mais ser perpetuados.
Há um legado a ser resgatado. O legado da luta pelas liberdades de todas as pessoas. Este é o legado da capoeira, a essência que precisa ser acordada, mantida viva, a energia vital pela qual o som do berimbau faz o corpo arrepiar.
A luta por liberdade é a essência da capoeira.
As Yabás juntas movimentam o céu e a terra, os ventos, os segredos das águas, das matas… é muita potência. É muita potência que as mulheres carregam consigo também, quando estão unidas em coro e propósito. Contamos com você que está aí do outro lado, lendo esta coluna para ler e conhecer tantos materiais que se tem produzido. Estamos em campanha permanente contra as violências na capoeira, vem com a gente!!!
*Ana Paula Fagundes, bióloga, ambientalista, mãe, capoeirista no Coletivo de Capoeira Angola Gira Ginga, integra a rede Estudos e Intervenção Feminista na Capoeira Marias Felipas
*Contribuição Christine Zonzon e Marilu Goulart
Campanha contra as violências na capoeira @capoeiracolher @mariasfelipas
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Referência:
Ewá deusa da intuição e da vidência! – Contos e histórias negras, Selma Rofino

