A esta altura da história da humanidade, em uma sociedade democrática, uma pauta como a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e a adoção de escalas de trabalho com mais dias de folga, como a escala 4×3, deveriam ser uma unanimidade. Afinal, a limitação da jornada e a busca por dignidade no trabalho são lutas, no mínimo, centenárias.
Para se ter uma idéia, a luta pela jornada de oito horas diárias de trabalho foi a motivadora de uma greve histórica de trabalhadores em Chicago/EUA, no dia 1º de maio 1886, que sofreu forte repressão da classe dominante da época. É em memória desse importante fato histórico que em todo o mundo se comemora, nessa data, o Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores.
Desde 1886, o mundo mudou muito. As formas de se produzir mercadorias, então, nem se fala. Não existe dúvida de que, com os incontáveis avanços tecnológicos, organizacionais e de treinamento produzidos desde então, um trabalhador médio no Brasil em 2026 é capaz de produzir muito mais mercadorias do que um trabalhador industrial de 1886.
Seria, portanto, lógico pensar que um trabalhador em 2026 pudesse trabalhar muito menos horas por semana para garantir seu sustento, tendo mais tempo para dedicar ao esporte, descanso, lazer, cuidados com a família e, por que não, à participação política e cidadã.
Em que pese os imensos ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia, educação e trabalho, nos vemos em 2026, no Brasil, fazendo praticamente a mesma luta que os trabalhadores de Chicago em 1886.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (22), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que proíbe a escala 6×1, mas muitos pontos da proposta ainda são motivos de embates.
A proposta tem enfrentado resistência de políticos de direita, como Nikolas Ferreira (PL) e Kim Kataguiri (União). Romeu Zema (Novo), hoje pré-candidato à Presidência da República, também já criticou a proposta publicamente. O argumento oferecido para ser contra essa medida, que conta com apoio de 72% da população, é apenas um: o impacto no bolso dos empresários e empregadores – os financiadores de suas campanhas.
Enquanto isso, os três homens mais ricos do Brasil aumentaram suas fortunas em R$ 85,3 bilhões somente no ano de 2025. Esse valor equivale a quase 53 milhões de salários mínimos, suficiente para empregar quase 4 milhões de brasileiros ao longo de um ano ou financiar o SUS para 220 milhões de brasileiros durante quatro meses.
Essa mesma fortuna acumulada vira dinheiro e poder para financiar campanhas eleitorais, esquemas de corrupção e o lobby junto a políticos sem compromisso com o povo, garantindo que seus interesses particulares prevaleçam frente aos da maioria. Assim, seguem drenando os ganhos de produtividade dos trabalhadores brasileiros para seus próprios bolsos.
A concentração de renda e riqueza nos níveis atuais é incompatível com a democracia. Contra a força do dinheiro e do poder, os trabalhadores devem apostar em suas armas: organização e luta nas ruas e nas urnas pelo direito a uma vida melhor para todos, e não para uma minoria.
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