Por Marlise Matos
No último final de semana, milhares de pessoas foram às ruas gritar um “basta” e declarar publicamente seu repúdio à escalada brutal dos feminicídios e de outras formas a Violência Contra as Mulheres (VCM).
Neste mesmo veículo, há poucas semanas atrás, trouxe uma trilogia de artigos sobre este tema, fazendo um convite à reflexão em três tempos sobre VCM no Brasil, tanto na esfera privada, quanto pública: no primeiro trouxe definições e declarações de direitos humanos e depois, na sequência, um segundo artigo tratou da VCM no espaço doméstico e o terceiro da VCM nos espaços públicos e políticos.
Pesquisadora dos direitos das mulheres há mais de 30 anos (e das suas violações), já identificava a escalada e agora quero destacar pontos que justificariam chamar de pandemia de caráter social o vivido em relação à VCM.
Para isso, vou tomar emprestado da área epidemiológica esse conceito. Pandemia é uma epidemia que se espalha por vários países e continentes. Uma epidemia ocorre quando há aumento no número de casos de uma doença em várias regiões, mas sem a escala global.
A pandemia, justamente, se caracteriza pela escalada do fenômeno – no nosso caso das mais diferenciadas formas de VCM – em escala global. Segundo ONU Mulheres há uma escalada global (da Alemanha às Ilhas Fiji): estima-se que 840 milhões de mulheres – quase uma em cada três – tenham sido submetidas a violência física ou sexual por parceiro íntimo, violência sexual por não parceiro ou ambas, pelo menos uma vez na vida (30% das mulheres com 15 anos ou mais).
Esse número, que não inclui o assédio sexual, permaneceu praticamente inalterado nas últimas duas décadas. A redução da VCM tem sido muito lenta, com redução anual de apenas 0,2%. Já a violência sexual por alguém que não seja o parceiro é generalizada e altamente subnotificada.
Globalmente, 8% ou 263 milhões de mulheres com 15 anos ou mais relatam ter sofrido violência sexual por alguém que não seja o parceiro pelo menos uma vez na vida.
Em relatório de 2021, a ONU apresentou informações sobre violência doméstica em 13 países da África, Ásia, América do Sul, Europa Oriental e Balcãs, descrevendo a escalada da VCM como uma “pandemia oculta”. Eu acrescentaria que experimentamos também o que Joanna Lewis (2025) denominou por “paradoxo da misoginia”: quanto mais se espalha a VCM, menos podemos falar sobre ela.
A misoginia, que nunca foi nova, está diretamente ligada à VCM e ao sofrimento baseado em gênero e inclui todos esses comportamentos de controle, subjugação, opressão, crueldade, abuso, violação, estupro, assédio e brutalidade. Ações que reduzem as mulheres (especialmente as negras, as pobres as trans) a algo muito inferior à sua capacidade intrínseca e destroem sua humanidade.
Uma parte dessa forma de violência é abertamente estrutural, histórica e interseccional: todas as mulheres sofrem, mas algumas têm um quinhão maior de violência para suportar.
Hoje, parte dessa violência é herança maldita dos tempos de pandemia de covid-19, quando os casos tiveram aumentos assustadores (algumas mulheres precisaram fazer o isolamento social junto com seus próprios agressores); outra parte é herança da chegada ao poder de governos deletérios de direita e extrema direita, sendo essa parte diretamente conectada à expansão e à mercantilização da misoginia nos fóruns digitais pelos mais diferentes países.
Reação
As direitas são uma reação contra os avanços promovidos pelos feminismos e, em parte, também são consequência do “sucesso” da misoginia atual, onde a política tornou-se a sua cúmplice.
Na direita global, as mulheres são apontadas como culpadas pela situação difícil dos homens, por deixá-los irritados, furiosos e com um sentimento de inadequação, por tomarem seus empregos. Apenas a reafirmação dos papéis tradicionais e mulheres submissas, dizem, restaurará a “ordem natural” das coisas, segundo a lógica neoconservadora.
Já na esquerda global, muitas vezes, os direitos das mulheres são tratados como “direitos ocidentais”, ou são práticas de “identitarismo” que desagrega e devem ser combatidos. Enquanto isso, o centro neoliberal sacrifica os direitos das mulheres por quase qualquer outro ganho, seja político, por interesses ou simplesmente por não ter que fazer nada.
E é assim que mulheres e meninas, embora não exclusivamente, se tornaram bodes expiatórios para males mais amplos. A questão que fica é: até quando?
Marlise Matos é professora do departamento de Ciência Política da UFMG, diretora da Setorial de Saúde, Acolhimento e Diversidade do APUBHUFMG+ e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM)
—
Leia outros artigos da coluna Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta, do APUBH, no Brasil de Fato
—
Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

