Por Luciene Bruno Vieira
A pós-graduação brasileira consolidou-se como um dos principais sistemas de formação científica da América Latina e constitui um componente estratégico do desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e social do país.
A expansão do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) nas últimas décadas foi expressiva: em 2024, o sistema reunia 4.631 programas de pós-graduação stricto sensu, distribuídos em 527 instituições de ensino superior, com aproximadamente 420 mil discentes.
Esse crescimento contribuiu para ampliar a formação de mestres e doutores e fortalecer a capacidade brasileira de produção de conhecimento. Entretanto, a expansão não ocorreu de maneira homogênea e ainda persistem importantes desigualdades no acesso às oportunidades de formação e pesquisa, especialmente quando consideradas as dimensões regional, socioeconômica, racial e de gênero.
A dimensão de gênero merece particular atenção. Nas últimas décadas, as mulheres ampliaram significativamente sua participação no ensino superior, na pós-graduação e na produção científica brasileira. Entretanto, essa presença ainda não se traduz de forma proporcional em posições de liderança, reconhecimento científico, financiamento, gestão acadêmica e tomada de decisões.
Desigualdade de gênero
Os dados disponíveis evidenciam essa desigualdade. Embora as mulheres já representem a maioria entre os pesquisadores vinculados aos grupos de pesquisa registrados no CNPq, 52% em 2023, em comparação com 50% em 2016, essa presença não se distribui igualmente entre áreas do conhecimento nem necessariamente se converte em posições equivalentes de liderança e reconhecimento científico.
Dados do CNPq mostram que, entre os pesquisadores líderes de grupos de pesquisa, a participação feminina é inferior à observada entre os pesquisadores em geral. A desigualdade é ainda mais evidente entre os bolsistas de produtividade em pesquisa e nos níveis mais elevados da carreira científica.
A desigualdade também se manifesta nos espaços de gestão acadêmica. Em 2022, apenas 17 das 69 universidades federais brasileiras tinham mulheres ocupando o cargo de reitora, correspondendo a aproximadamente 25% das instituições. Além disso, 23 universidades federais nunca haviam tido uma mulher como reitora.
Portanto, a presença crescente das mulheres entre estudantes de graduação, mestres, doutores e pesquisadores não tem sido acompanhada, na mesma proporção, pela ocupação dos espaços de maior poder e decisão nas instituições científicas e acadêmicas.
Esse fenômeno caracteriza um importante “teto de vidro” na ciência brasileira: as mulheres conseguem ingressar e avançar na formação acadêmica, mas encontram obstáculos adicionais para alcançar posições de maior prestígio, liderança e poder institucional.
Entre os fatores que contribuem para essa desigualdade estão a divisão ainda desigual das responsabilidades familiares e de cuidado, os impactos da maternidade sobre a trajetória acadêmica, períodos de afastamento da carreira, critérios de avaliação fortemente baseados em indicadores quantitativos de produtividade e mecanismos institucionais que podem reproduzir desigualdades históricas.
A maternidade, em particular, pode coincidir com etapas decisivas da formação e consolidação da carreira científica, como o doutorado, o pós-doutorado e os primeiros anos de atuação como pesquisadora independente. Nesse contexto, políticas de equidade precisam reconhecer a diversidade das trajetórias acadêmicas e evitar que períodos relacionados à maternidade e às responsabilidades de cuidado sejam interpretados como menor comprometimento ou menor produtividade científica.
Trajetória acadêmica e equidade
Promover equidade de gênero na pós-graduação brasileira exige, portanto, superar uma visão restrita de igualdade baseada exclusivamente no acesso. É necessário acompanhar toda a trajetória acadêmica, identificando e enfrentando os pontos em que mulheres encontram maiores barreiras para ingressar, permanecer, concluir sua formação, obter reconhecimento e alcançar posições de liderança.
Nesse sentido, políticas de equidade devem combinar ações afirmativas, apoio à maternidade e à parentalidade, valorização de diferentes trajetórias acadêmicas, prevenção e enfrentamento ao assédio, incentivo à participação feminina em áreas nas quais ainda estão sub-representadas e mecanismos de promoção da liderança e da participação das mulheres nos espaços de decisão.
Essa perspectiva deve também incorporar uma abordagem interseccional, reconhecendo que gênero não atua de forma isolada. Mulheres negras, indígenas, com deficiência e provenientes de diferentes contextos socioeconômicos e regiões do país podem enfrentar barreiras adicionais ao longo de sua trajetória acadêmica. Dessa forma, a promoção da equidade na pós-graduação requer políticas capazes de considerar a sobreposição de diferentes dimensões de desigualdade e de oferecer condições efetivamente equitativas de formação, permanência e progressão acadêmica.
Assim, reduzir desigualdades na pós-graduação brasileira significa avançar de uma concepção de igualdade baseada apenas no acesso para uma concepção de equidade ao longo de toda a trajetória acadêmica e científica. O objetivo não deve ser apenas formar mais mestres e doutores, mas assegurar que mulheres e homens, pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência, estudantes de diferentes condições socioeconômicas e pesquisadores de todas as regiões do país tenham oportunidades efetivamente equitativas de permanecer na ciência, produzir conhecimento, alcançar posições de liderança e participar das decisões que definem seus rumos.
A equidade, portanto, não deve ser compreendida como uma ação pontual, mas como uma dimensão permanente do planejamento, da autoavaliação e da avaliação da pós-graduação brasileira. Nesse sentido, excelência científica e equidade não são objetivos concorrentes: uma ciência de excelência é também uma ciência diversa, inclusiva, representativa e socialmente comprometida.
Luciene Bruno Vieira é diretora executiva do APUBHUFMG+ e professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

