Esportes Rebeldes

Esta coluna é coordenada por Michel de Paula Soares. Debatemos diferentes temas sociais a partir e por meio dos esportes, sempre com uma perspectiva crítica.

Não basta amar Bad Bunny. É preciso defender Cuba para sustentar o discurso do orgulho latino

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Cena do documentário Cerro Pelado
Cena do documentário Cerro Pelado | Crédito: Reprodução

É preciso lutar para que cada nação possa definir seu futuro e protagonismo longe da interferência estadunidense.

Passada a ressaca do Carnaval e a euforia em torno da turnê do cantor Bad Bunny no Brasil, volto a falar sobre Porto Rico e Cuba, como já fizera em outra coluna, ano passado.

Para isso, voltaremos a 1966 para contar a historia de Cerro Pelado.

Nesse ano, aconteceu a décima edição dos Jogos Centro-Americanos e do Caribe, que teve, como sede, San Juan, capital de Porto Rico. Foi o primeiro evento esportivo internacional a acontecer na ilha boricua. Participaram 18 países da América Central continental e do Caribe, com as ausências significativas de Haiti e Honduras.

A delegação cubana se dirigia para os jogos em uma embarcação, o navio Cerro Pelado. Poucos dias antes de iniciarem as competições, os cubanos foram proibidos, pelos Estados Unidos, de pisarem em solo porto-riquenho. Isso porque, como sabemos, Porto Rico nunca conquistou soberania plena e, após a Guerra Hispano-Americana, tornou-se território dos Estados Unidos. Ou seja, os Estados Unidos tentaram impedir a participação dos atletas cubanos, fato que não aconteceu somente após intensas negociações e batalhas jurídicas envolvendo organizadores do evento, estadistas de ambos os países e o próprio Comitê Olímpico Internacional.

Para nossa sorte, no mesmo navio estava um grupo cubano de jornalistas e o cineasta Santiago Álvarez, que retratou a preparação da equipe nacional em pleno convés do navio. Impedido de ancorar no país pelos Estados Unidos, os atletas continuaram sua preparação em alto mar, enquanto esperavam pela resolução, positiva, do entrave. O cineasta, dessa forma, transformou o acontecimento em metáfora para a própria luta revolucionária cubana. O documentário Cerro Pelado narra a coragem e a consequente vitória política e esportiva sobre o imperialismo: Cuba terminara os jogos em segundo lugar geral, atrás apenas do México, sendo seguida por Porto Rico e Venezuela.

Passado 60 anos de Cerro Pelado, o trumpismo, que atualiza um projeto de nação estadunidense fundado nos postulados da supremacia branca, continua a se utilizar do bloqueio econômico e da pressão internacional, inclusive armada, como uma justificativa para a dominação colonial e a exclusão de países latino-americanos do direito pleno à cidadania e a própria existência. A pressão sobre Cuba e seus aliados tem tornado difícil a vida na ilha, resultando em uma das piores crises da história recente do país.

Alguns países, como a China e o México, têm assumido a liderança no abastecimento de combustível e insumos para Cuba. Ações independentes, como as brigadas internacionais e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também aparecem dispostos a contribuir através de ajuda humanitária. Cabe a nós pressionar o governo brasileiro a assumir um compromisso real com a crise cubana. Apoiar e proteger Cuba significa defender a autodeterminação das nações latino-americanas. Em prol da valorização da latinidade, é preciso valorizar os símbolos, saberes e tradições das múltiplas culturas que formam a América colonial, mas, principalmente, lutar para que cada nação possa definir seu futuro e protagonismo longe da interferência estadunidense.

Cartaz do Jogos Centro-Americanos e do Caribe
Cartaz do Jogos Centro-Americanos e do Caribe | Crédito: Reprodução

* Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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