Entre nascentes e interesses: a disputa pela água no Distrito Federal

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Além de esgoto tratado, rio Melchior recebe efluentes do Aterro Sanitário de Brasília e de um abatedouro de aves
Além de esgoto tratado, rio Melchior recebe efluentes do Aterro Sanitário de Brasília e de um abatedouro de aves | Crédito: Ângelo Pignaton/Agência CLDF

Diante da realidade que vivemos, o Dia Mundial da Água se impõe cada vez mais como um dia de alerta, reflexão e mobilização

O Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, deveria ser um momento de celebração da vida. Mas, diante da realidade que vivemos, ele se impõe cada vez mais como um dia de alerta, reflexão e mobilização. 

No Distrito Federal, a água está no centro de uma disputa silenciosa, porém profunda. A ocupação irregular do território, a grilagem de terras e os projetos do governo avançam sobre áreas sensíveis, nascentes e zonas de recarga hídrica, comprometendo o equilíbrio de um sistema já pressionado.

A Serrinha do Paranoá, reconhecida como uma importante área produtora de água, vem sendo ameaçada por interesses que desconsideram sua função ambiental estratégica — inclusive sendo utilizada como moeda para cobrir rombos financeiros, como no caso envolvendo o BRB. Trata-se de uma inversão de prioridades: sacrifica-se o futuro hídrico para resolver problemas imediatos de gestão. 

Outros sinais de degradação estão espalhados pelo território. A Estação Ecológica de Águas Emendadas, um dos patrimônios naturais mais importantes do país — onde nascem águas que seguem para diferentes bacias hidrográficas do Brasil — já apresenta contaminação por mercúrio, resultado da poluição atmosférica associada à queima de combustíveis fósseis e pneus nas rodovias ao redor. O Ribeirão Sobradinho sofre com o despejo frequente de esgoto, enquanto o Rio Melchior recebe diariamente cargas massivas de poluição, comprometendo não apenas o meio ambiente, mas a saúde das populações que vivem ao seu redor.

A contaminação da água, no entanto, vai além do esgoto e da poluição urbana. O uso intensivo de agrotóxicos, pesticidas, desfoliantes e outros produtos químicos no combate a pragas agrícolas tem impactado diretamente rios, lagos, poços e nascentes em todo o país. Esses produtos, muitas vezes aplicados sem o devido controle, infiltram-se no solo e alcançam os lençóis freáticos, contaminando fontes essenciais para o abastecimento humano.

Esse problema se agrava com o uso crescente de drones na pulverização, ampliando o alcance desses produtos e dificultando o controle sobre as áreas atingidas. Em estados como o Maranhão, há denúncias de utilização dessas tecnologias para desfoliar e degradar áreas de preservação, abrindo caminho para ocupações irregulares e expansão desordenada. 

Como se não bastasse, o próprio arcabouço legal recente no Brasil aponta para um cenário de maior fragilidade ambiental. A Lei nº 15.190/2026 instituiu mecanismos como o autolicenciamento por adesão e compromisso, permitindo que empreendimentos avancem sem análise prévia adequada, além de prever a aprovação automática por decurso de prazo — o chamado “silêncio positivo”. Essa lógica reduz o papel técnico dos órgãos ambientais e enfraquece a prevenção de danos. 

Na mesma direção, a Lei nº 15.299/2025 flexibiliza a supressão de vegetação ao retirar o caráter de crime em determinadas situações onde não há resposta do poder público, abrindo brechas perigosas para a degradação. Já a Lei nº 14.701/2023, ainda em disputa judicial, ameaça territórios tradicionalmente protegidos, facilitando a pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis e fundamentais para a preservação dos recursos hídricos.

Crise não é isolada

Essa crise não é isolada. Em escala global, o colapso hídrico já é realidade em várias regiões do planeta. Em Teerã, o solo afunda cerca de 35 centímetros por ano devido à exploração intensiva de águas subterrâneas para irrigação agrícola, especialmente na produção de pistache. Esse fenômeno extremo revela o esgotamento de aquíferos e a incapacidade de reposição natural diante de uma demanda insustentável. 

As mudanças climáticas agravam ainda mais esse cenário. O aumento das temperaturas, a alteração nos regimes de chuva e a intensificação de eventos extremos estão desorganizando o ciclo hidrológico em escala mundial. Secas prolongadas e chuvas concentradas deixam de ser exceções e passam a ser a nova regra, afetando diretamente a disponibilidade, a qualidade e a distribuição da água.

No Brasil, país historicamente privilegiado em recursos hídricos, também já sentimos esses impactos. A má gestão, o desmatamento, a poluição, o uso indiscriminado de produtos tóxicos e a flexibilização das leis ambientais colocam em risco um patrimônio que deveria ser tratado como estratégico para o desenvolvimento e a soberania nacional. 

Diante desse cenário, não há muito o que comemorar. O Dia Mundial da Água precisa ser, acima de tudo, um chamado à ação. É urgente interromper o avanço sobre áreas de preservação, proteger nascentes, recuperar rios degradados e exigir responsabilidade dos gestores públicos. 

Mais do que nunca, é tempo de vigilância, mobilização e compromisso coletivo. Preservar o que ainda existe e recuperar o que foi destruído não é uma escolha — é uma necessidade para garantir o futuro. 

*Guilherme Jaganu é coordenador-geral do Fórum de Defesa das Águas do Clima e do Meio Ambiente do DF.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

A representação deve agora ser analisada pelo órgão de controle externo, enquanto professores temporários aguardam a regularização de seus salários, que de acordo com a secretaria só será pago em Abril.


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Editado por: Flavia Quirino

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