Querida gente leitora do Brasil de Fato Pernambuco, vocês já sabem o que penso sobre o Carnaval: não há qualquer base, seja na Bíblia seja na Tradição, para que a fé cristã lide com o prazer dos corpos pela via da culpa, veja a alegria como ameaça e, muito menos, o festivo como contrário à Graça Redentora. Diante de leituras da Quaresma ainda presas à mortificação da carne, defendo o carnavalesco como abertura desse tempo no qual deve cintilar em nós o Amor-que-tudo-criou-e-sustenta. Por isso a cinza e a purpurina não são polos inimigos, mas sinalização ritual da sacralidade dos ciclos vitais. Afinal, para quem acolhe o Bom Convite do Mestre, há algo de sacramento em se fantasiar e encarnar, como corpo brincante, a fanfarra permanente da Graça Cósmica.
A realidade pede que voltemos ao tema por outro caminho, que leva adiante aquela argumentação. Desta vez, como nos ajuda a compreender Rosilene Costa, em Família em conserva ou in natura?, não está em questão apenas a dignidade teológica da festa, do corpo e da alegria popular, mas o uso da religião como fachada, da fé transformada em embalagem moral e da família convertida em logotipo político. Minha irmã Rosilene faz um deslocamento decisivo e evangélico: para além de falsas polêmicas, o que tem destruído famílias não é a arte, mas o abandono, o descaso e a falta de políticas públicas dentro dos limites do sistema social capitalista. Assim, a imagem carnavalesca da “família em conserva” nos põe diante de uma pergunta de uma materialidade provocativa: quem fala tanto em defesa da família está, de fato, defendendo quais famílias?
Vamos aos fatos. Segundo a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, de novembro de 2025, 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por homem. Quando o levantamento recorta por religião, o dado continua duro: 30% das evangélicas e 23% das católicas disseram já ter sofrido esse tipo de violência. E a pesquisa não para aí. Entre as mulheres violentadas nos 12 meses anteriores ao estudo, 71% foram agredidas na presença de outras pessoas; em 7 de cada 10 desses casos, havia pelo menos uma criança testemunhando a cena. Não se trata, portanto, de um desvio acidental, mas de um padrão na vida familiar brasileira, de uma ferida aberta justamente onde o moralismo religioso costuma idealizar.
O mesmo documento apresenta outros dados que, por si sós, deveriam sacudir nossas comunidades cristãs. Entre as vítimas de violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa, 53% disseram ter procurado a igreja. Entre evangélicas, esse percentual sobe para 69%; entre católicas, fica em 48%. A igreja já está dentro dessa cena. Já é procurada por mulheres feridas. Já é reconhecida como lugar de socorro. E isso significa que o silêncio e a omissão não são neutros: se a comunidade de fé se cala, deixa de ser apenas espectadora e passa a participar, por omissão, da engrenagem que diz proteger a família enquanto abandona mulheres e crianças à violência.
A publicação Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, lançada em 2024 pelo IBGE, confirma o caráter estrutural desse problema. Em 2019, 72,8% dos casos reportados de violência física contra mulheres ocorreram dentro da residência, e, em mais de 85% deles, o agressor era alguém conhecido da vítima. Não estamos falando, portanto, de um mal que chega, de fora, para perturbar lares ideais. Quando falamos de violência contra as mulheres no Brasil, falamos de algo produzido em casa, nas relações íntimas heteronormatizadas, no seio das formas sociais patriarcais que a retórica religiosa cristã fundamentalista quer naturalizar como, em si, ordeiras e sagradas.
Quantas lideranças do fundamentalismo e do conservadorismo autoidentificado cristão, ou quantas integrantes da chamada bancada cristã no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais, vocês viram tratar esses números com a mesma urgência com que reagiram à alegoria carnavalesca?
Quando a Acadêmicos de Niterói levou à avenida a ala “Neoconservadores em conserva”, com a imagem da “família em conserva”, a reação pública de figuras como Damares Alves, Magno Malta, Flávio Bolsonaro e Silas Malafaia foi rápida e ruidosa, centrada na denúncia de ridicularização, preconceito religioso e ofensa à família. Mas, nessas reações noticiadas, não se viu igual disposição para correlacionar esse escândalo moral à violência que atravessa, todos os dias, as famílias de carne e osso que fazem a classe trabalhadora brasileira.
A lata feriu mais que os dados sobre violência real e ausência de condições de vida e trabalho digno: fim da escala de 6×1, mais educação, mais saúde, moradia e direitos. Lamentavelmente, esse hipócrita escândalo moral seletivo, não é um privilégio de nossos tempos, pois Jesus também precisou enfrentá-lo em seus dias. Em Mateus 23:3-4, o Mestre denuncia a dissociação entre aparência e prática religiosa de lideranças que “não praticam o que pregam” e que atam “fardos pesados” sobre os ombros das outras. No mesmo capítulo, acusa a obsessão pelo detalhe ritual enquanto se negligenciam as violências reais, desconsiderando “os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23:23).
Tal como o samba-enredo da Acadêmicos da Niterói, o Nazareno não alivia a mão nas metáforas e chama essas lideranças de “sepulcros caiados”, isto é, bonitos por fora e cheios de morte por dentro (Mt 23:27-28). O mesmo não poderia ser dito hoje sobre as “famílias em conserva”?. Em Marcos 7:6-8, a crítica reaparece na denúncia daquelas que honram a Deus com os lábios enquanto seus corações estão distantes, bem como das que devoram as casas das viúvas sob a capa da devoção (12:38-40).
Diferente de certas “lideranças cristãs” de hoje, o alvo da crítica do próprio Cristo nunca foi a fé espontânea e festiva do povo, muito menos suas orações em busca de saídas para seus sofrimentos na carne e alma. Seu alvo nítido foi sempre, em todos os textos que herdamos da Tradição, a religião de fachada, que transforma espiritualidade em mero verniz de retidão e bondade, a tradição em dispositivo de dominação e a pureza exterior em escudo contra as injustiças efetivamente praticadas. Quando olhamos para a violência contra mulheres em nossos lares cristãos no Brasil, as palavras de Jesus deveriam, como em Emaús, arder em nossos corações (Lucas 24:32).
Neste ponto, a teologia da libertação antipatriarcal se faz indispensável. Ivone Gebara nos ajuda a reconhecer que a teologia da libertação clássica foi decisiva ao ajudar a reconhecer as dimensões religiosas do empobrecimento da classe trabalhadora da América Latina (e o potencial revolucionário de sua espiritualidade!), embora não tenha enfrentado suficientemente a sexualidade nem transformado por inteiro “velhos conteúdos e velhos poderes”.
Neiva Furlin dá expressão viva a esse deslocamento ao mostrar como a teologia feminista emerge nas margens do discurso cristão hegemônico, mesmo quando (auto)crítico, e, desde esse “outro lugar”, penetra messianicamente suas próprias estruturas. Na mesma trilha, Elisabeth Schüssler Fiorenza relê Jesus em chave feminista libertadora, fazendo sua denúncia dos “sepulcros caiados” não soar como simples censura moral, mas como crítica contundente da própria ordem religiosa que tende, sempre, a fabricar respeitabilidade para encobrir dominação e violência.
Por isso mesmo Jaci Candiotto insiste na necessidade de despatriarcalizar nossa imagem de Deus, um princípio radicalizado na Teologia Queer de Marcella Althaus-Reid, para quem Deus deve ser libertado do armário do pensamento tradicional e reencontrado para além da ideologia heterossexual, dos preconceitos sexuais e coloniais e das ortodoxias que se aliaram à branquitude e ao capitalismo global.
A ação reveladora do Espírito Santo em meio aos anteriores diálogos evidencia que a “fé em conserva” nada mais é que a tentativa de disciplinamento patriarcal dos corpos, em particular os das mulheres, pelos sepulcros caiados da religião instituída. Em todo caso, a ação renovadora do Espírito faz-se ainda perceber em alguns setores da religião cristã oficial, particularmente nos comprometidos com o serviço ecumênico ao mundo, onde vemos publicados, nos últimos anos, documentos afirmando o compromisso com a justiça de gênero e tolerância zero às violências patriarcais. Vejam-se, dentre outros, os publicados pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, pelo Conselho Mundial de Igrejas e por diferentes denominações, dentre as quais a recente Política de Gênero da IEAB.
O problema, portanto, não é o cuidado real com as famílias, mas o familismo patriarcal heteronormatizado, que eleva um modelo capitalista de família, recente e fracassado, à condição de ídolo político-teológico. Jesus rompe essa absolutização ao redefinir o parentesco a partir da vontade de Deus (Marcos 3:31-35). Entre a fé em conserva e o Evangelho vivo, a escolha cristã continua sendo a mesma: justiça, misericórdia, fidelidade e amor para além da hipocrisia.
Declara-se o uso de diferentes IAG em etapas preliminares de pesquisa e redação, sob responsabilidade integral do autor (fontes, checagem e conteúdo final).

