Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Os venenos: as ameaças e a covardia

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O presidente americano Donald Trump afirmou que o controle dos Estados Unidos sobre a Venezuela, após seu governo atacar o país e capturar o presidente Nicolás Maduro, pode durar anos. | Crédito: Nacho Lemus/Telesur

Está evidenciado que 2026 será um ano muito difícil para quem tem consciência e preza a democracia

“Que venha 2026” é o que estávamos reafirmando a todo momento, desde que o Brasil democrático sustentou aquela posição em defesa da soberania e venceu desafios internos e externos que pareciam mortais, como as crises do pix, o conluio na Câmara Federal entre aquela manada raivosa e seu presidente fantoche, o escandaloso voto do Fux e as bombas do tarifaço e da Magnitsky, entre outros acontecimentos marcantes de 2025. E 2026 chegou.

Chegou chegando, e no pior estilo. Trouxe, com as atitudes impensáveis do governo norte-americano, uma onda de medos, inseguranças que renovam impulsos golpistas em toda a América Latina.

O recado, para o mundo, parece ter sido: vamos fazer o que quisermos porque somos os mais fortes e não damos a mínima, para coisa alguma além de nossos interesses. As américas “são nossas”, os incomodados que se acomodem, que se retirem, ou engulam as consequências. E, naturalmente, “quem nos apoiar será recompensado”.

Com isso, os perigos para quem vive naqueles territórios que os norte-americanos consideram seus quintais, ou de seu interesse, e não se propõem à uma vassalagem abjeta, parecem ter se agigantado. É claro que existem outros atores, que até dentro dos EUA os medos e insatisfações são crescentes, e que, portanto, nada está definido.

Mas ainda assim, está evidenciado que 2026 será um ano muito difícil para quem tem consciência, preza a democracia, não é alienado nem covarde, e quer trabalhar pautado pela verdade. E isso se estende no mínimo desde a ponta sul da Argentina até o norte da Groenlândia.

De fato, ainda é cedo para avaliar a importância da sinalização de eventos como o ataque à Venezuela, o sequestro do presidente Maduro e os anúncios de que os motivos norte americanos se relacionam explicitamente ao saque de riquezas alheias. Eles deflagraram uma espécie de conquista do Oeste, para o Sul, anunciando que o Norte também lhes interessa e que todos destes pedaços do planeta estão diretamente ameaçados. Ameaçam que farão com quem não se acomodar àqueles seus desejos, o mesmo que fizeram com os “indígenas” das terras “conquistadas” à ferro, pólvora e fogo. E sublinharam que, para eles, no momento, a ONU e os acordos internacionais não têm validade alguma.

De cara, estão se apropriando do petróleo venezuelano. Mas isso é pouco, ou é apenas o começo. Querem os territórios, com tudo que neles existe. Não estão se acanhando de usar o caso do petróleo venezuelano como uma espécie de ameaça generalizada, para explicitar que irão adiante. Que entendem ser os “novos donos”, por direito da força bruta, a dar de mão em tudo que estiver ao alcance deles. E ainda dizem que impedirão a venda de riquezas de países capturados para países que se colocarem em defesa de qualquer multilateralismo que se oponha aos desejos do império. O dinheiro do petróleo venezuelano será usado para comprar produtos norte-americanos. Simples assim.

Ok, estão em guerra indireta contra a China, a Rússia e a Índia, e para isso precisam controlar as Américas. E pretendem isso agindo desta forma. Onde o suborno, a corrupção e as revoluções coloridas se revelam insuficientes, porque demoram, os norte-americanos sinalizam que vão enfiar os dois pés na jaca da ilegalidade.  No caso, isso se ilustra pelo fato de que eles não apenas reconhecem que sua desculpa original, para o ataque militar à Venezuela não se sustenta (assumem que Maduro não é líder de grupo narcotraficante algum), como se dão ao luxo de afirmar que o dinheiro das vendas do petróleo venezuelano passará a ser usado tão somente para comprar produtos norte-americanos. E acreditam que o sequestro do Maduro garante isso. Será verdade? Por via das dúvidas, ameaçam voltar e inclusive a fazer “algo muito pior” com Delcy Rodríguez, a presidenta que acaba de assumir o governo Venezuelano.  Estão roubando navios, garantem que vão sufocar Cuba, por falta de energia e alimentos. Reafirmam o interesse em dobrar a Colômbia e em assumir controle do México e da Groenlândia, e que, ainda assim, não estão em pé de guerra. Que querem a paz no mundo.

De outro lado, já pararam de falar que seus crimes além de provisórios, são bem-intencionados e se destinam a expandir e consolidar democracias. Assumiram a postura de quem sabe o que quer, para si, e que em não sendo contido, irá adiante.

E sobre isso, há e ainda haveria muito a ser dito. Inclusive que boa parte das notícias são falsas e estão servindo para ocultar e distorcer aqueles e outros fatos.

Para o Brasil, por exemplo, isso tem ligação com o fato do Bolsonaro cair da cama  ou do ar condicionado lhe perturbar o sono, e isso virar motivo de escândalos no congresso nacional. Tem a ver com fala de desembargador, dizendo que se o imorrível morrer, a culpa será do Moraes. Movimentações reveladoras do que está em jogo, e das comoções que eles pretendem estimular para 2026. Querem enlouquecer o país, dominar também o senado, e derrubar o governo. E farão isso, com apoio do Trump, se permitirmos. O dinheiro norte-americano jogado na Argentina, no Chile, para garantir avanços da direita submissa aos interesses norte-americanos não deixam dúvidas: devemos esperar o mesmo. Neste ano de 2026 os resultados eleitorais no Brasil definirão o que acontecerá no planeta, a partir de 2027 e o que aconteceu na Venezuela é parte disso.

Tempos difíceis, até porque coisas pequenas para mundo, mas super relevantes para nós, também fazem parte do contexto, e não podem ser esquecidas. Vejam o caso dos agrotóxicos – e este seria o tema da coluna de hoje.

Em 2025 o Governo Lula anunciou o PRONARA e ao mesmo tempo autorizou a superação de todos os recordes bolsonaristas, na liberação – entre nós- de venenos proibidos em outros países. E olha que, mesmo sem isso, já usávamos mais agrotóxicos do que a China e os EUA, juntos. Até por isso, a expectativa com a aprovação do PRONARA seria de que a proteção ambiental, a produção de alimentos limpos e a agroecologia avançariam. Se esperava, no mínimo, a suspensão de uso de venenos inaceitáveis. Isso porque se colocam, em termos de roubo da saúde dos brasileiros como algo ainda mais imoral do que o saque das riquezas venezuelanas, já que aqui o lucro das empresa que gera crianças com deficiências de todo o tipo, também ocorre em favor de interesses estrangeiros, porém com o apoio do governo popular e das classes dirigentes, golpistas ou não.

Para facilitar, olhando para aquela pergunta sempre repetida nas grandes mídias, por parte de cientistas de aluguel… “que agrotóxicos deveriam ser usados em substituição a estes que vocês (os agroecologistas) querem retirar do mercado?”, nossa resposta é simples, e repito aqui:

Não faltam opções. Escolham vocês! Não é verdade que existam “pragas e doenças” atacando nossas lavouras, que exijam agrotóxicos “especiais”, produzidos para nossa realidade específica. Também não é verdade que as transnacionais tenham em algum momento produzido agrotóxicos especialmente para utilização em regiões tropicais.

Aliás, os problemas fitossanitários de nossas lavouras têm sido exacerbados exatamente pelo uso de agrotóxicos. Por exemplo, o uso de mais de 250 mil toneladas de glifosato a cada ano, está criando plantas indesejáveis tolerantes ao glifosato. Isso vem abrindo o mercado nacional não apenas para o uso crescente (em maiores dosagens) de glifosato como também para a aplicação de outros herbicidas. O mesmo aconteceu com plantas tolerantes ao Glufosinato de amônio, ao 2,4D, ao dicamba, ao isoxaflutole, à atrazina, e assim por diante.

As plantas transgênicas aceleraram isso, expandindo o uso dos venenos a elas associados, e com isso estimularam o surgimento de plantas indesejáveis, com tolerâncias múltiplas… e isso segue uma regra apontada pela agroecologia: venenos produzem seleções negativas, que geram mercado para novas formulações venenosas e novas gerações de plantas transgênicas tolerantes a diversos venenos. Já temos um milho transgênico tolerante a 5 herbicidas. Quem o cultiva acaba jogando de avião, sobre tudo e todos, uma mistura tóxica que carrega a dosagem recomendada de cada um dos herbicidas, para todos os metros quadrados da área “tratada”. Há nisso uma multiplicação por 5, no uso de ingredientes tóxicos. E o resultado, cujos impactos sobre a saúde humana e ambiental são desconhecidos (não existem estudos científicos sobre danos causados pelas misturas dos agrotóxicos), é visto como avanço da ciência, no interesse dos brasileiros. O Ministério da Saúde não o ignora, mas é impotente diante disso. E o Ministério da agricultura comemora a venda daquele milho e outras lavouras transgênicas que estimulam a venda e o uso dos agrotóxicos.  Quem ganha e quem perde com isso é mais do que óbvio.

Enfim, os recordes na autorização para comercio de “novos agrotóxicos”, diante da ausência de “novos” problemas, indica interesses numa superoferta de alternativas, com redundância no número de venenos propostos para as mesmas finalidades.

 Por isso, afirmamos que solicitar alternativas para substituição de venenos proibidos na Europa, equivale a apostar no mesmo caminho tecnológico ecocida, e não passa de conversa para boi dormir. E quem estuda minimamente o assunto sabe muito bem disso.

Bastaria proibir aqui tudo aquilo que por motivos de saúde humana e ambiental já foi proibido em países mais responsáveis, para que os agricultores brasileiros fizessem o mesmo que os europeus estão fazendo. Tomada de decisões racionais, respeitosas à saúde de seus concidadãos, levando em conta as outras alternativas.

Se os venenos mais tóxicos vierem a ser proibidos (e isso pode ser realizado utilizando a lista dos “não permitidos” na União Europeia, como critério), o agronegócio brasileiro será direcionado para adoção dos venenos que ainda são permitidos na Europa. O sucesso do Pronara depende disso.

A verdade, que sustentaria esta decisão se baseia no seguinte: inexistem inseticidas, herbicidas ou fungicidas específicos para insetos, fungos e plantas tropicais. Todos os princípios ativos de agrotóxicos que estão proibidos na União Europeia já foram de uso permitido por lá. Aliás, foram criados para serem usados lá. A redundância, o leque de alternativas para os mesmos problemas mostram tão somente que estamos usando no brasil os venenos mais baratos. E são mais baratos aqueles que foram banidos de mercados mais cautelosos em relação à saúde. Então, não precisamos recomendar venenos alternativos, basta a coragem de proibir aqueles venenos de uso moralmente inaceitável, em qualquer local do planeta.

E isso também se associa ao ano de 2026. Os financiadores da mais recente tentativa golpista incluem criminosos ligados ao agronegócio predatório. Desta forma podemos esperar que as bancadas do congresso vinculadas àquelas e outras iniquidades façam o possível para obter, neste ano, o sucesso que até aqui não alcançaram. E contarão para isso com o apoio do governo norte-americano, com a proteção do partido da mídia golpista e com instrumentos de tecnologia digital que estão fora do nosso domínio.

Não será fácil, mas cabe a nós, contê-los. E cabe ao governo Lula explicitar isso, apontando o projeto de país que poderá ser construído, com a nossa participação, se garantirmos – nas eleições de 2026- uma maioria de representantes da sociedade comprometidos com aquela visão de futuro. Precisamos eleger pessoas que demostrem por seu histórico de vida, que nos respeitam e merecem nosso respeito. A música da passagem 2025-26, no Brasil, não poderia deixar de ser uma paródia bem humorada, sobre a tragédia que por pouco não aconteceu por aqui. Que tal esta, de Edino Krieger:

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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