mariam pessah

ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora. Autora dA saliva que umedece, poemariam – um tratado sobre línguas, 2025; Meu último poema 2023; Em breve tudo se desacomodará, 2022; entre outros. Organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre, desde 2017, e coordenadora da Oficina de escrita e escuta feminiSta. Curadora da FestiPoa literária.

Entre memórias e reflexões

No audio source provided.
Entre memórias e reflexões
Entre memórias e reflexões | Crédito: mariam pessah

Evidentemente, a vida é uma reflexão continua

Queridas leitoraxs* e possíveis leitores:

Tenho recebido algumas mensagens me perguntando por onde ando, se estou bem. Estou, sim, obrigadax.

Estou sumidax, né? Compreendo as entrelinhas.

Nestas duas semanas não escrevi a coluna, obrigadax gente por perguntar, acontece que além de ser fevereiro, o que nos permite estar em modo mais relaxado que durante o ano, eu estou imersax na escrita. Finalmente, dedicando o maior tempo possível a um antigo projeto sobre memórias e reflexões. Faz uns dez anos comecei a construir e costurar na cabeça um possível livro com pequenos textos, assim como antigamente tínhamos em nossas mãos um álbum de fotos, e podíamos ir passando as páginas e ir vendo diferentes situações e lugares. Pensava, então, em um álbum de palavras que narrassem situações e falassem de lugares. Acabei me estendendo nas imagens, e me aprofundando nos lugares, e acho que passou de foto para filme e a proposta se firmou nas memórias e reflexões.  

Então, estou imersa nas minhas memórias, em textos que falem sobre elas, mas também nas leituras e releituras do que venho escrevendo e sempre tentadax em escrever mais. Cheiax de folhas soltas ao meu redor.

Aí, eu me pergunto se pode a eu de hoje mexer no texto da eu de ontem. Mexer não no sentido de estilo, isso sim, mas mexer no sentido de acrescentar e ou tirar palavras. Com o tempo eu fui virando outrax e fui tomando consciência de fatos que na época não enxergava. Por exemplo aqui :

“Em toda família há alguém que um dia foi embora. Alguém que um dia viajou e nunca mais voltou”. Essa sou eu, pensei ao ouvir as palavras da escritora Maria Valéria Rezende, em uma palestra. Cito entre aspas, mas escrevo com a memória. Isto aconteceu em 2018 e gerou muitas páginas e muitas reflexões como poderão imaginar. Pois eu sou aquela que um dia deixou seu país, sua língua, a família sanguínea ….  Por isso quando as pessoas dizem que eu sou argentina, eu me pergunto, serei mesmo? O que é ser de algum lugar? O que nos faz sermos daquela terra, o documento e o registro de ter nascido ali?

O que são essas nações criadas à força? Como eu disse várias vezes, questionamos muito, e precisamos continuar questionando o estado genocida de Israel, mas e nós, aqui, em Abya Yala (o nome que tinha o nosso continente 500 anos atrás, antes de que os colonizadores europeus o renomeassem de América), não seria igual? O que implica carregar uma bandeira de um país? Uma nacionalidade? O que eram os bandeirantes que matavam e torturavam e penduravam as orelhas dos povos originários nos próprios pescoços. Vejam como essas nações já nascem com a violência. E as mulheridades sempre levam a pior parte, pois, como sabemos, o estupro é uma arma de guerra. E assim vão se formando as nações.  Carregar uma bandeira implica levar junto esse passado, essa matriz de violência. Não estou dizendo que todas as pessoas que defendem as bandeiras concordem com essa violência, mas eu prefiro levantar só bandeiras de luta, do que bandeiras que demarquem fronteiras. Quando a gente não tinha nem sido concebida, os feminicídios já estavam nas nossas sociedades. E a cada dia crescem mais.

Muitos anos atrás, tínhamos aqui em Porto Alegre, um grupo chamado Mulheres Rebeldes, dentre muitas atividades que fazíamos, uma delas, era um espaço de leituras e reflexões feminiStas. Em várias oportunidades lemos um texto, que eu amo! de Jurema Werneck : De Ialodês e feministas. (E por falar em memórias e fazer memória, o link que traz o texto da pensadora negra, é um blog, ou bloga, como dizíamos tantos anos atrás, para nos referirmos a uma página feminiSta que eu não imaginava que ainda estivesse ON.) Este texto não perde vigência com os anos, pelo contrário, só ganha. No início, Jurema vai citar a um ativista indígena para se referir à perspectiva de anterioridade. Ele está respondendo a uma pergunta feita por um/a/x jornalista, próximo a cumprir-se 500 anos que os invasores europeus chegaram a estas terras.  “500 anos? Meu povo já estava aqui quando eles chegaram… Eu sou capaz de contar a história deste rio que estamos vendo em até 5 mil anos…O que eu posso dizer sobre 500 anos?

Penso na história desse rio e viajo, me transporto e penso em outros rios. Se Virginia Woolf não tivesse começado sentando a beira do rio a pensar, se já não houvesse um rio, talvez não houvesse nem Virginia nem Um teto todo seu. Sobre ela escrevi aqui. Aproveito em mencionar e trazer a importância do Tapajós — tão presente nestes dias — e a luta que os povos originários (ou seja, quem já estava aqui antes que as pessoas brancas chegassem/chegássemos), estão levando.

Evidentemente, a vida é uma reflexão continua. Antes de terminar, quero dizer vejam a campanha que nosso Presidente está fazendo para criar consciência dessas violências contra as mulheridades que acabam em feminicídios, mas que estão em toda parte, entre nós. Uma vida para ouvir que a culpa não é das mulheres, mas do agressor. E dito por um homem! Pelo Presidente do Brasil! Isto merece atenção!

Para quem estiver em Porto Alegre, deixo um convite. Quinta-feira 12, às 19 horas, teremos  ENCONTROS LITERÁRIOS. A proposta é fazer conversas na mesa do bar. O que estamos lendo? O que estamos escrevendo? Bora ler algum trecho e comentar? Aconteceu algo importante no mundo literário? Aberto a todas as pessoas dispostas a conversar, ouvir, circular a palavra e dar muitas risadas. No Maria Maria, Fernando Machado, 464, Porto Alegre.

*Escrevo ax em lugar de marcar o gênero. A letra a  visibiliza às mulheridades, mas também a luta de nossas ancestrais que vieram antes, e o x representa a pluralidade das dissidências, assim como a não binariedade e meu lugar de pessoa não CIS. Também a incógnita de porquê a sociedade deve estar separada entre sexos e gêneros. Desta forma, cada palavra terá a força de estarmos juntaxs. Este texto não é sobre dissidências, mas são as dissidências e o feminiSmo que atravessam minha vida.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

|

Newsletter