Queria que minha coluna desta semana fosse a partir de um livro sapatão, celebrando a data do Orgulho lésbiko (19/8) e da Visibilidade lésbika (29/8).
Tenho muitos livros que poderiam ser contemplados, e muitos que ainda não li e me aguardam nas estantes. Fui abrindo páginas e páginas sem dar com o que queria ler, porque como escrevi aqui : “os livros são sábios e sabem quando chegar a nós”.
Durante a Flip — escrevi sobre ela aqui — dei com o livro Marielle e Monica, uma história de amor e luta, de Monica Benicio que, desde sua publicação eu queria MUITO ler. Comprei na hora. Não sei por que é um livro que não vejo (sem procurar) nas livrarias de Porto Alegre. Foi abri-lo e submergir nele.
Chorei as 239 páginas.
Está muito bem escrito e a autora nos abre as portas da sua casa-corpo-coração-cabeça-sentimentos-sensações-tristezas-desgarros-luta-sonhos. Obrigadax Monica por esta experiência que eu sei, tu a fez para poder encerrar um ciclo, mas nós sabemos que todo ato das nossas vidas é político e, disso se trata, todo amor e toda luta também são políticos. Ou, polítikos, como eu prefiro dizer, marcando o K que vai nos lembrar que nada é dado nem natural.
Refiro-me a encerrar um ciclo e penso nas portas que se fecharam do elevador, no 14 de março de 2018, marcando a última vez que Monica e Marielle se viram. Quantas metáforas ali.
Uma porta que se fechou, estando uma frente à outra, no eleva-dor.
Poderíamos dizer que o livro é desses que se leem bem rápido. Contudo, não foi assim que aconteceu comigo. Eu gosto de parar. Levantar os olhos, caminhar e estar com elas, sentindo a tamanha emoção de quando se conheceram num encontro da igreja. Foi uma paixão imediata, porém de duas mulheres que nunca tinham parado para pensar na possibilidade do lesbianismo. (Gosto do ismo de luta social e polítika, como feminiSmo e socialismo.)
Era o ano de 2004. Monica tinha 18 anos e Marielle 24, e uma filha de 5. “Foi no primeiro olhar, no sorriso largo, até na blusa verde-água que eu fui apresentada ao amor”. Se conheceram antes de uma viagem que um grupo de amigas faria para passar o carnaval. Eram todas da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, na Maré.
Monica e Marielle, tornaram-se grandes e inseparáveis amigas, mas sempre desejando algo mais, sem ser conscientes, pois era algo proibido, e, em consequência, nunca cogitado. Como são as emoções novas das quais não temos conhecimento de sua existência? Não havia muitas referências públicas, lésbicas, e elas, embora morassem no Rio de Janeiro, elas não eram de Copacabana, mas da favela e da igreja. Lembrando que esta é um dos grandes pilares de opressão da felicidade e das sexualidades, sobretudo, das dissidentes.
Em uma das vezes que me detenho é porque não posso deixar de pensar que em 2004 foi o mesmo ano que conheci a Clarisse. Eu já era ativista lésbika-feminiSta havia uma década (com certas idas e voltas). Fomos apresentadas por uma amiga que insistia Tu tens que conhecer a Clarisse, tu tens que. E com ela acontecia igual. Tempo depois, chegamos à conclusão que Carla queria nos apresentar porque na época não era comum ter duas amigas lésbikas, ou, o que não seria comum é que ambas estivéssemos fora do armário.
(Namoramos durante 10 anos, depois, ressignificamos nosso amor e continuamos morando juntas até hoje. Não somos mais namoradas, mas seguimos sendo companheiras de vida.)
Mais um dado que me ocorre situar: em 2003, durante o III Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, fizemos o Planeta Arco-íris. Frente à invisibilidade que vivíamos, tive a ideia de dar o nome de Visibilidade lésbica a uma mesa que fizemos, termo que depois iria crescendo.
A ideia era, de manhã, conversar sobre nossas lutas e, de tarde, partir para a ação. Estivemos presentes na mesa : Miriam Weber, ativista de Porto Alegre, María Luisa Peralta, ativista argentina, e eu. Não lembro quem mais. Fui consultar meu álbum das lembranças, mas na única foto que tenho desse momento, estamos nós três. Se alguém tiver outro dado, gostaria muito de saber se havia mais alguém esse dia na mesa conosco. De tarde criamos a Liga Brasileira de Lésbicas e a bandeira que tem as cores do arco-íris e está escrito Lesbianas e em baixo lésbicas, mostrando a integração latino-americana. Nesse momento também estava Fabi Tron, ativista argentina, além de muitas ativistas brasileiras.
No seu livro, Monica conta a luta que travou Marielle para aprovar o Dia da Visibilidade Lésbica na cidade do Rio. Não conseguiu. Foi seu único projeto rejeitado por apenas dois votos. Ela escreve sobre a dor que sentiu a vereadora, quem, chorando desconsolada, ligou para sua companheira, desde o banheiro da Câmara.
Quem de nós não se reconhece em um momento como esse? Nós entendemos de rejeições.
“Uma das coisas que me impus como primeira tarefa, assim que me tornei vereadora no Rio, foi tornar lei o Dia da Visibilidade Lésbica no calendário do município.” Em 2022 “Essa vitória foi muito significativa porque gerou longas sessões de debate que o parlamento carioca se recusava a discutir. A visibilidade de fato ocorreu durante a luta (…) Vencemos (…) A visibilidade protege, confere cidadania e um sentimento que é o oposto a solidão”.
Passaram-se doze anos do lesbocídio de Marielle Franco. Já temos nomes dos assassinos, dos mandantes e estão todos presos.
Leio o que acabei de escrever e suspiro.
Mas a luta está longe de acabar.
No fim de semana fui convidadax a participar do III Encontro Internacional do Leitor Quindim, em uma mesa de autorias dissidentes sexuais e de gênero. Levei minha camiseta que diz Sapatão contra toda opressão, com a que teria gostado de estar participando da mesa. A frase foi criada para uma faixa que fizemos no Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, com meu grupo das Mulheres Rebeldes, há uns 15 anos e, a camiseta foi feita ano passado pela Jornada lésbicafeminista antirracista em um ato de memória. Fiquei muito triste e, até, com raiva por não ter me animado a vesti-la. Pensando melhor. O dia anterior se apresentou no Encontro um vereador do MBL, armando de violência e ameaçando algumas pessoas, ao ponto de ter que chamar a polícia. A pessoa do mal foi ao encontro porque lá estava nossa kerida Marcia Tiburi e também tinha sido convidado o Peninha. Personalidade também de esquerda que ano passado foi cancelado por algumas falas.
Na real, eu não vesti a camiseta que teria gostado de pôr, por medo e por cuidado.
O tempo passa e nós continuamos sendo ameaçadas pela ultradireita e essa, com certeza, é uma frase da qual eles não teriam gostado.
Penso nisto tudo e imagino a Monica Benicio senadora do Rio de Janeiro. Que sonho bonito! Como diz o slogan da Manu, termos uma de nós, lá. E, mais ainda, imaginemos a turma toda de Monica, junto com Manuela, com Marina, com Simone, com Benedita! Insisto, que sonho bonito!
Monica conta no livro que uma vez participou de uma atividade do MST. Lá conheceu uma frase que a marcaria: que teus sonhos sejam tarefas a serem cumpridas. Nós, mulheridades, lésbikas, pessoas negras, indígenas, nunca podemos relaxar porque eles, os fascistas de turno estão aí, sempre atentos.
E Monica e xs compas do MST também estão e estarão lembrando que os sonhos são tarefas a cumprir. Bora lutar com muito amor pelos nossos sonhos que, embora a gente saiba que nem todos cabem nas urnas (mas os pesadelos cabem todinhos) a luta nos espera.
Sapatão contra toda opressão!
Aqui algumas das atividades que vão acontecer em Porto Alegre :
Jornada Lésbica Feminista Antirracista e Antitransfóbica de Porto Alegre. Durante todo o mês de agosto.
Aula aberta sobre literatura e diversidades com mariam pessah – 19 de agosto
Festa de literatura nordestina e visibilidade lésbica, no Venê – sábado 22
Ocupa sapatão sábado 29 de agosto – desde às 14:00 haverá artistas e bancas. Estarei lá com meus livros.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

