Nina Fideles

Nina Fideles é jornalista e diretora-executiva do Brasil de Fato desde 2021. Fez parte da comunicação do MST, fundou a Radioagência NP e editou o Jornal Sem Terra e a Revista Caros Amigos. Graduada em Jornalismo pelo UniCeub e pós-graduada em Teorias Sociais e Produção do Conhecimento pela UFRJ em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes, escreve sobre geopolítica, imperialismo e disputas de narrativa a partir da perspectiva da classe trabalhadora e dos povos do Sul Global.

O nadar contra a corrente na era da Inteligência Artificial

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A expansão acelerada da Inteligência Artificial no mundo do trabalho
A expansão acelerada da Inteligência Artificial no mundo do trabalho | Crédito: Freepik/Imagem ilustrativa

Aplicar IA no cotidiano exige treinamento, debate e análise constante de cada aplicação, para que o conteúdo produzido seja melhor

Ao longo da história, revoluções sociais e tecnológicas moldaram nosso tempo e redefiniram nossas relações com a terra, com o outro, com o trabalho, com a arte, com a informação, com o mundo para além das fronteiras e com as próprias fronteiras. Da Revolução Agrícola ao surgimento da escrita, à metalurgia, à invenção da imprensa, às revoluções industriais, dos transportes e das comunicações. E hoje vivemos a reformulação da sociedade em torno do uso da inteligência artificial.

Em cada um desses saltos, a relação de poder entre quem produz e quem se apropria do que é produzido também foi reformulada e forjada em novos termos. Quando se tornou possível obter excedente de alimentos, a tecnologia deixou de ser apenas instrumento de sobrevivência e passou a ser também instrumento de dominação e acumulação. E, a partir da Revolução Industrial, ganhou dimensões nunca antes exploradas.

É exatamente nesse fio histórico que devemos compreender o avanço acelerado da inteligência artificial hoje como a nova roupagem de uma lógica muito antiga, em que a tecnologia desenvolvida por quem detém o capital serve aos interesses de quem detém o capital. Cada decisão técnica, do que priorizar ao que ignorar, carrega um viés social. O que implica dizer que as escolhas poderiam ser outras e abre espaços para alternativas.

Nas fábricas, a implementação de máquinas permitiu aos donos dos meios de produção aumentar a produtividade, mas esse ganho não se traduziu em mais tempo livre aos trabalhadores. Traduziu-se em maior exploração do trabalho e extração de mais-valia. Mais do que isso, a máquina também distanciou o trabalhador do próprio ofício. O conhecimento concentrado em quem executava o trabalho foi fragmentado, ocasionando um distanciamento do trabalhador do seu próprio ofício, tornando-o dependente de um processo que deveria estar sob seu controle.

A corrida bilionária

A inteligência artificial exige um patamar de capital que poucos atores no planeta conseguem reunir, como centros de dados gigantescos, consumo elevadíssimo de energia, chips especializados caríssimos e as equipes de pesquisa mais bem pagas do mercado global. Tudo isso ainda não garante a hegemonia da ferramenta. Garante, por enquanto, apenas um lugar na disputa pelo domínio do mercado.

Pela própria estrutura de custos, ela se concentra nas mãos de poucas corporações privadas e de Estados-nação com capacidade e vontade política de mobilizar recursos em escala parecida. A disputa entre China e EUA, por exemplo, está sendo travada com restrições à exportação de semicondutores, disputa por terras raras e políticas industriais bilionárias, e expõe dois projetos distintos de desenvolvimento da inteligência artificial.

Em julho de 2026, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em IA (WAICO), sediada em Xangai, com um pacote de compromissos ao Sul Global. Entre eles, vagas de formação, centros de cooperação com blocos como BRICS e União Africana, acesso a sistemas de alerta climático. “A IA não deve ser solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional”, discursou Xi Jinping na ocasião. É uma proposta que abre uma brecha real de cooperação Sul-Sul, historicamente negada pelos países centrais.

Essa disputa em escala planetária não fica restrita aos laboratórios e às cúpulas de governo. Ela desce até o cotidiano de quem usa a ferramenta, muitas vezes sem perceber a que lógica essas respostas servem.

O uso cada vez mais cotidiano da inteligência artificial, do trabalho aos estudos e às perguntas básicas do dia a dia, não muda essa lógica. A falsa ideia de democratização que acompanhou a chegada das redes sociais já é bastante conhecida nas reflexões sobre comunicação. O controle sobre o pensamento de grande parte da população pela manipulação de dados, sentimentos e algoritmos virou ciência bem apropriada para tentar definir eleições e rumos políticos. O campo definitivamente não é neutro, tampouco democrático.

Nem destino, nem milagre

E nos resta observar esse tabuleiro e recusar duas armadilhas de leitura. A primeira é o determinismo tecnológico, que trata o avanço da inteligência artificial como uma força autônoma, movida por lógica própria, que ninguém decide e ninguém pode deter. A segunda é o solucionismo tecnológico, que acredita que essa mesma ferramenta resolve, sozinha, problemas que são de natureza social e política. As duas armadilhas, por caminhos distintos, ignoram as contradições materiais mais complexas da humanidade, e é justamente isso que impede a construção de soluções e alternativas a partir da apropriação coletiva dessas ferramentas.

Só existe inteligência artificial com inteligência humana. Existem brechas e contradições possíveis, que passam pelo uso por dentro da ferramenta, pela testagem constante, pela qualificação das maiores capacidades humanas na apropriação da tecnologia, pela leitura crítica e política do mundo e pela construção de alternativas a partir dela, sempre do ponto de vista da classe trabalhadora. Entendendo que a tecnologia jamais substituirá a política.

Sem isso, o que se constrói vira fumaça, pura performance. Não entender esse cenário vai agudizar os abismos entre quem controla a tecnologia e quem a usa na ponta, entre a promessa e o resultado, nos empurrando para um uso cego e passivo dessa ferramenta poderosa. O que ela pede é justamente o oposto: atenção crítica e um cuidado cada vez mais necessário diante de algo tratado como natural, a apropriação do conhecimento da humanidade em nome do lucro.

No jornalismo, essa é a discussão que o Brasil de Fato vem consolidando, a partir da própria experiência e da observação de outras redações, para construir uma política de uso de inteligência artificial que carregue a mesma responsabilidade que já temos como veículo de esquerda.

Isso exige atenção redobrada com o que publicamos e controle humano rigoroso em cada etapa do processo. Fazer dela o melhor uso possível, para qualificar nosso jornalismo, otimizar tempo e potencializar os trabalhadores no próprio ofício, ao contrário do que a máquina fez historicamente sob o comando do capital.

Muitas empresas já adotaram o mau uso da inteligência artificial, e as consequências disso para o mundo do trabalho ainda não se apresentam em toda a sua extensão. Aplicá-la no cotidiano exige treinamento, debate e análise constante de cada aplicação, para que o conteúdo produzido seja melhor, sempre alinhado à nossa missão como veículo de comunicação popular. Nademos contra a corrente.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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