Na primeira coluna que escrevi aqui no Brasil de Fato DF, falei de cuidado, ou melhor, da Política Nacional de Cuidados, e da sua relação com a luta pelo fim da escala 6×1. O tempo do cuidado é um tema no qual tenho pensado bastante. Não só porque sou feminista, mas porque, como uma cientista política que está há muitos anos trabalhando com políticas públicas, estou vendo um verdadeiro tsunami vindo, mas parece que não estamos dando a devida atenção a ele.
Ainda bem que o Brasil não tem histórico de tsunamis de verdade, embora tenha outras tragédias. Mas aqui estou me referindo ao que algumas pesquisadoras chamam de crise do cuidado.
No texto Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida, publicado na Revista Latinoamericana de Población (Relap) no ano passado, três pesquisadoras brasileiras analisaram os dados do IBGE de 2015 e enfatizam o quão alarmantes são as estatísticas do nosso país.
As mulheres são responsáveis por 79,7% de todo o trabalho de cuidado não remunerado realizado, sendo que as mulheres negras concentram 44,2% da produção de cuidado — embora representem apenas 24,1% da população total. Além disso, a pressão do cuidado é mais intensa em idades associadas à presença de crianças pequenas e à necessidade de apoio aos mais velhos.
Ou seja, enquanto os mais ricos podem dispor da sua juventude para estudar, construir carreiras, viver suas experiências, meninas e mulheres jovens negras estão cuidando de outras pessoas, em um ciclo que as prende em dinâmicas de cuidado e trabalho precarizado.
O trabalho de cuidado, majoritariamente exercido pelas mulheres, sempre foi necessário para a acumulação de riquezas no mundo, desde que o capitalismo existe. Nas últimas décadas, no entanto, atividades como o nascimento e a criação de filhos, o cuidado com idosos e a manutenção de lares e comunidades, estão sendo ainda mais esmagadas por pressões econômicas, resultando em um fenômeno de exaustão social e carência de tempo. Tudo isso em meio a uma precariedade crescente das relações de trabalho, a queda significativa das taxas de fecundidade, uma maior longevidade da população, além da tão desesperadora crise climática.
As transformações no papel das mulheres na sociedade das últimas décadas tiveram consequências racialmente desiguais. Enquanto mulheres brancas das classes médias e altas assumem cada vez mais cargos e posições de liderança, mulheres negras e/ou migrantes seguem sendo maioria das que se dedicam às tarefas domésticas e de cuidado, de forma não ou mal remunerada.
Considerando que o investimento estatal em políticas sociais só cai, isso significa que os governos do mundo todo estão fazendo uma conta cruel considerando a exploração de mulheres.
Em resposta a essa crise, perspectivas feministas propõem uma “sociedade do cuidado”, que coloque a sustentabilidade da vida e da natureza no centro da economia, superando a lógica de mercantilização e exploração voraz. A proposta ecoa a reivindicação dos povos da América Latina, pelo bien vivir, inspirado nas práticas ancestrais e resistência no continente.
É um grito urgente pela vida comum no planeta, antes que a crise leve a morte de milhares de pessoas.
*Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.
**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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