Foi divulgada a lista oficial dos indicados e a data da cerimônia do Oscar. O Agente Secreto recebeu quatro indicações, e a torcida em torno do filme é também uma torcida coletiva, já que entre os indicados há uma pessoa associada à Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), além de mais um brasileiro concorrendo. A edição deste ano também entra para a história com Sinner, que alcança o recorde de 16 indicações e se torna o primeiro filme dirigido por uma pessoa negra, a partir de uma perspectiva negra, a atingir esse feito. Mas este texto é, sobretudo, sobre o cinema brasileiro e sobre o que essa celebração em torno de O Agente Secreto revela, num momento em que, pela segunda vez, o Brasil tem um filme indicado ao Oscar.
Um Brasil que cresceu com o Leblon de Manoel Carlos precisa saber mais sobre a Vila Santo Antônio ou a Praça Chora Menino. Um país que se quer soberano precisa de um cinema que dê conta do seu tamanho e precisa acessar as múltiplas camadas de nossa memória coletiva. Precisa ver mais filmes com a Perna Cabeluda, para entender a violência autoritária de um período terrível da nossa história e, sobretudo, a sagacidade das estratégias que driblaram, gingaram com linguagem e imaginário para dar a ver aqueles horrores dos anos de Ditadura Civil-Militar.
O Agente Secreto traz parte da história brasileira mergulhada no universo reiterado pelo seu diretor: um cineasta independente que faz filmes, de maneira obstinada, com sua cidade, com seu estado-país Pernambuco. E isso é importante demais. Ao atravessar as barreiras que ainda impedem o cinema brasileiro de chegar aos vários Brasis, o filme nutre nosso imaginário coletivo com imagens, com referências outras, ampliando a nossa percepção sobre nós mesmos.
O conjunto de filmes já feitos e por fazer do Cinema Independente Brasileiro nos traz a imensidão deste país. Por ano, são centenas de longas-metragens que poderiam povoar nosso imaginário coletivo com nossas belezas, riquezas, complexidades e contradições. Mas, como fazer frente à agressiva e histórica presença do cinema dos EUA que, com a ajuda do governo de lá, quer seguir impondo sua cultura? E, principalmente para nós, da Apan: como ampliar os espaços para a presença e permanência das narrativas, profissionais e empresas negras no que conhecemos como cinema brasileiro?
Cota de Tela X Streaming
No final do ano passado, tivemos um avanço importante com o decreto da Cota de Tela assinado pelo presidente Lula e a ministra da Cultura, Margareth Menezes. A lei 14.814, que determina uma quantidade mínima de filmes brasileiros para exibição em salas de cinema no país, havia sido renovada em 2024 com validade até 2033. De acordo com a divulgação oficial do governo, o decreto de dezembro de 2025, válido para este ano, “define as regras que deverão ser observadas pelos exibidores ao longo de 2026, com o objetivo de assegurar espaço contínuo e diversificado para o cinema brasileiro no circuito comercial”. O texto detalha um conjunto de regras e pode evitar alguns problemas, já vistos em anos anteriores. Um deles, por exemplo, era o cumprimento da cota com a concentração de sessões em um número reduzido de filmes por sala. O novo texto prevê “critérios específicos para a contagem das sessões e para a rotatividade das obras exibidas, de modo a ampliar o acesso do público a diferentes gêneros, estilos e narrativas do audiovisual nacional”. O detalhamento dos parâmetros técnicos e a fiscalização ficam a cargo da Ancine (Agência Nacional de Cinema). O decreto presidencial, porém, não contempla as grandes plataformas de streaming, que seguem sem regulação.
Um dos imensos desafios que seguem neste 2026 é a aprovação — pelo Congresso — de uma lei que estabelece os critérios para a atuação dessas plataformas no país. Os atuais projetos de lei em discussão – 8889/17 na Câmara e 2331/22 no Senado – ainda são extremamente favoráveis às plataformas estrangeiras em detrimento da produção independente brasileira, do desenvolvimento econômico nos diferentes territórios e da soberania nacional. E nenhum deles traz uma linha sequer sobre políticas afirmativas.
Num momento de tanta celebração em torno do cinema brasileiro, é preciso lembrar que, segundo dados do Observatório do Cinema e Audiovisual da Ancine, há uma brutal desigualdade no nosso setor, com uma hiper concentração territorial, racial e de gênero. Não podemos deixar de repetir que o cinema brasileiro ainda é identitário: majoritariamente branco, cisgênero, masculino e sudestino. E, se não houver uma política de Estado, com uma legislação consciente dessa brutal desigualdade, a tendência é que tanto a política quanto o financiamento público favoreçam a exclusão. A ampliação das ações afirmativas para agentes econômicos, na regulação do streaming e em outras áreas, com a inclusão de empresas vocacionadas para a reparação histórica, é fundamental nesse contexto.
Industrialização com formação de público
Em 2025, também avançamos na presença do audiovisual nas discussões da Nova Indústria Brasil (NIB), uma política que visa a neoindustrialização do país. O reconhecimento do nosso setor como uma atividade econômica relevante, que movimenta bilhões de reais anualmente e com grande potencial de crescimento é fundamental. Mas é preciso que esse avanço esteja em sintonia com o planejamento e as consequências do conjunto de políticas para o setor.
Uma delas diz respeito a uma atividade fundamental para qualquer processo de desenvolvimento – seja econômico, territorial ou social – no audiovisual como um todo: a formação de público. Sem um trabalho consistente junto às novas gerações, corre-se o risco de investirmos tempo – e muito dinheiro – na produção e exibição de filmes e outros conteúdos que seguirão sem ser vistos. E isso é uma questão, também, de cidadania e liberdade.
*Tatiana Carvalho é presidente Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), professora e pesquisadora. Doutoranda no PPGCOM/UFMG e professora no Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte, onde coordena o projeto de extensão Pretança.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

