Rede de Sementes do Cerrado (RSC)

A Rede de Sementes do Cerrado (RSC) é uma associação civil, sem fins lucrativos, cuja missão é conectar os elos da restauração ecológica, com protagonismo das comunidades na conservação do Cerrado.

Exemplo para o mundo: na Década da Restauração, ONU reconhece o Cerrado como Referência Mundial

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ONU reconhece Rede Araticum como referência mundial em restauração
Rede Araticum, representada pela coordenadora Fabrícia Santarém, recebeu na COP17 prêmio de restauração mundial | Crédito: FAO Mongolia

Brasil tornou-se o único país até o momento a receber dois títulos de Referência Mundial da Restauração

“Batam palmas para o Cerrado e para as pessoas que trabalham para conservá-lo”. “Mundo, siga este exemplo”. Essas são mensagens vindas da conferência que mobiliza o mundo para enfrentar a degradação de solos, a desertificação e as secas severas.

A Rede Araticum (Articulação pela Restauração do Cerrado), da qual a Rede de Sementes do Cerrado (RSC) é uma das coordenadoras, foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma Iniciativa de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship). O anúncio oficial ocorreu durante a 17ª sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD), em Ulaanbaatar, capital da Mongólia.

Concedidos pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no âmbito da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas, os prêmios reconhecem as iniciativas de restauração mais ambiciosas e impactantes do planeta. Com a conquista da Araticum, são 30, ao todo.

Juntas, essas redes já somam quase 20 milhões de hectares sob restauração e possuem compromissos para recuperar 75 milhões de hectares até 2030, gerando mais de 800 mil empregos socioambientais no mundo.

O reconhecimento é uma vitória brasileira. O Brasil tornou-se o único país até o momento a receber dois títulos de Referência Mundial da Restauração — o anterior foi concedido ao Pacto pela Restauração da Mata Atlântica. E é uma vitória, sobretudo, dos povos indígenas, quilombolas, produtores rurais, iniciativa privada, pesquisadores, sociedade civil e instituições governamentais que estão unidos pela conservação da savana tropical mais biodiversa do planeta.

São mais de dois milhões de quilômetros quadrados. Oito das doze bacias hidrográficas brasileiras nascem no Cerrado. Mas, mesmo diante de tamanha importância, o bioma perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, em grande parte devido à conversão de terras em grande escala.

A Araticum foi criada, em 2020, para combater essa verdadeira emergência socioambiental e com uma meta ambiciosa: promover a restauração de dois milhões de hectares do bioma até 2030, contribuindo para o compromisso nacional do Brasil de restaurar 12 milhões de hectares. Desde sempre se soube que a concretização desse objetivo exigiria a união de esforços e, mais do que isso, a liderança de quem vive no Cerrado, tira dele o seu sustento e o protege todos os dias.

Por isso, o pilar central da atuação da Araticum é, desde o princípio, o conceito de Restauração Inclusiva: um modelo transdisciplinar que une a ciência e conhecimento técnico aos saberes tradicionais. A abordagem integra as dimensões ecológica, social e econômica para combater a exclusão socioambiental em territórios vulneráveis e assegurar uma transição justa no campo, promovendo a regeneração natural. A conservação do Cerrado, a restauração por semeadura direta (muvuca de sementes) e inovações como os Sistemas Agrocerratenses (SACEs) têm sido diferenciais fortalecidos pela Araticum.

Reconhecimento

Em seis anos de atuação, já são mais de 180 organizações da sociedade civil, comunidades tradicionais, governos e empresas privadas articuladas. Mais de 27 mil hectares mapeados e ativamente monitorados em processo de restauração por meio de plataforma própria. Sementes de mais de 150 espécies nativas coletadas, estruturando uma cadeia produtiva justa que gera trabalho e renda para coletores locais, viveiristas e técnicos de restauração.

Reconhecer o Cerrado como Referência Mundial da Restauração é reconhecer pessoas. A foto do recebimento do prêmio por Fabrícia Santarém, mulher, negra, geraizeira, coletora de sementes e coordenadora da Rede Araticum, é uma afirmação: os povos e comunidades tradicionais que cuidam desse bioma todos os dias deixaram de ser apenas um indicador e passaram a ser os verdadeiros protagonistas do processo.

Como uma das organizações fundadoras da Araticum e pioneira na Restauração Inclusiva no Brasil, a Rede de Sementes do Cerrado tem muito orgulho em construir essa história a muitas mãos. Participamos da elaboração das diretrizes da Araticum, aplicamos na prática, avaliamos, devolvemos aprendizados e construímos conjuntamente. Ver este modelo ser reconhecido mundialmente é ver um sonho realizado. Um sonho de futuro. Que agora, ainda mais fortes, continuaremos tornando realidade diariamente.

*Taíssa Dias é jornalista e mestra em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Atualmente, atua como gestora  de comunicação da Rede de Sementes do Cerrado (RSC).

**Anabele Gomes é bióloga, mestre e doutora em botânica, servidora do Departamento de Botânica da Universidade de Brasília, presidente da Rede de Sementes do Cerrado e coordenadora da Rede Araticum.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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