Samilly Alexandre

Samilly Alexandre é mestre em serviço social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e militante do Movimento Brasil Popular.

Òǹkọ̀wé: água de maré e as mulheres que ousam amar outras mulheres

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Livro sendo segurado por duas mãos
Segundo a autora, o título do romance, “Água de maré”, pode ser lido como metáfora de movimento: alusão imediata à dança lunar, ao ritmo de esvaziar>encher>esvaziar de novo que têm as marés | Crédito: Redes Sociais/Tatiana Nascimento

Convoca-nos, sobretudo, a dar visibilidade e respeito às mulheres que ousam amar outras mulheres.

Quem acompanha esta série já sabe: òǹkọ̀wé é a palavra iorubá para aquela que escreve, que conta e reinventa o mundo pela via da narrativa. Foi com ela que me propus a reunir vozes de mulheres que contam o Brasil a partir de seus escritos literários.

O livro que escolhi para este texto é Água de maré, de Tatiana Nascimento. Um daqueles textos que não dá pra ler com pressa, que exige de nós calma, paciência, observação, aquela atenção mínima que destinamos às marés quando queremos entrar no mar.

Tatiana convoca o mar, a ancestralidade, a realidade das mulheres pretas, pobres e periféricas do nosso país. Convoca-nos, sobretudo, a dar visibilidade e respeito às mulheres que ousam amar outras mulheres.

Convoca Exu, não como diabo, mas como amigo que dá caminho, movimento, dinamicidade e sagacidade. Convoca Iemanjá, não no arquétipo superficial que comumente vemos nas redes sociais, o de uma mulher branca, magra, sereia, mãe de todos e todas que gostam do mar, mas como mulher preta, ancestral, poderosa, sanguinária quando preciso, cuidadora do nosso Ori.

O romance percorre a vida de duas irmãs, Antônia e Nereci, corpos negros e lésbicos da periferia de Salvador. Duas encruzilhadas de uma mesma história, que a obra costura na imagem que lhe dá título: a das marés. Como a água que enche e vaza, avança e recua, as trajetórias das irmãs se movem entre prisão e liberdade, ausência e presença, entre o alvoroço e a calmaria, sem que um polo anule o outro. É esse ritmo de ondulação que organiza o livro, na cadência de quem vive ao sabor do que arrasta e do que acolhe. A maré, aqui, é força ambivalente: a água que puxa é também a que sustenta, a que carrega a memória e a ancestralidade das personagens.

Entre as irmãs, uma avó benzedeira, dona Tonha, que receita garrafadas e conta histórias de Orixás; e, no fundo da memória familiar, a tia Luzia, internada num hospício por amar mulheres, e a mãe, que precisou abandonar a casa e as filhas para viver seu amor. É por essas fissuras que a lesbofobia entra na narrativa: não como acontecimento isolado, mas como herança, como pedagogia do medo que se transmite de geração em geração.

Enquanto escrevo este texto, escuto um episódio jornalístico sobre o Pix da pensão alimentícia e, coincidência ou não, o livro de tatiana é um vislumbre da realidade de milhares de mulheres no Brasil que criam seus filhos e netos sem a presença dos genitores, assim como no romance, em que os homens são apenas sinônimo de violência e ausência.

E aqui está o Brasil que o livro escancara: um país patriarcal que ainda pune o amor entre mulheres com o manicômio, com a expulsão de casa, com a “cura” que é castigo, e que, ao mesmo tempo, naturaliza o abandono dos genitores, sobrecarregando mulheres. Uma violência que se agrava quando esses corpos são também negros e pobres, empurrados para o subemprego, para o cárcere, para “o corre”.

Mas seria pouco ler Água de maré apenas pela dor. Porque o que pulsa em suas páginas é, sobretudo, o amor: de mãe, de irmã, de filha, de avó, de amante. Nas palavras de tatiana nascimento, “amor sapatão, amor preto, amor de Orixá”. É um amor sustentado pela ancestralidade, pela epistemologia dos Orixás que a avó transmite como quem transmite sobrevivência. As mulheres deste livro se protegem entre si porque aprenderam que, num país que as descarta, a defesa da própria vida depende delas mesmas. É nisso que reside a busca por poder que atravessa a obra: não o poder das armas ou do Estado, mas o poder de reger o próprio corpo, o próprio desejo e o próprio destino.

É por isso que a autora recusa a fórmula que espera da literatura negra apenas o registro do sofrimento. Água de maré é, a um só tempo, desejo de vida em abundância e denúncia da sede. Denuncia a fome, o racismo colonial que opera como veneno, a lesbofobia estrutural e, ao mesmo tempo, reinventa uma Salvador da saudade, faz do afeto entre mulheres um território de fuga e de futuro, remitologiza a resistência como parte da nossa mais antiga ancestralidade.

Ler este romance é entender que a formação social do Brasil não se conta sem essas vidas. Que há um país inteiro organizado para negar humanidade às mulheres negras, às sapatonas, às travestis e transexuais, e que há, na mesma medida, uma insurgência que se organiza para seguir amando, benzendo, escrevendo e existindo. Quando o Brasil é narrado por quem vive em suas margens mais fundas, ele se revela outro: mais duro, sim, mas também mais capaz de invenção.

Que possamos, enfim, imaginar um país onde o amor entre mulheres não custe a liberdade, a sanidade ou a vida. Onde a maré, em vez de afogar, embale. tatiana nascimento é uma òǹkọ̀wé que escreveu esse desejo em forma de romance e nos entrega, com ele, mais um pedaço do Brasil que ainda não soubemos ser.

Samilly Alexandre é mulher de terreiro; assistente Social; mestre em serviço social, trabalho e questão Social; militante do Movimento Brasil Popular.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Camila Garcia

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