Em homenagem às agricultoras e agricultoras familiares no seu dia, 25 de julho.
Vovó Gertrudes, papai Léo, mamãe Lúcia e tia Leonida, agricultoras e agricultores familiares na Linha Santa Emília, Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, me ensinaram quase tudo na vida.
Ontem, e ainda hoje, o que era ser filho de agricultoras e agricultores familiares na Linha Santa Emília, Venâncio Aires, RS, nos anos 1950, 1960?
Ser filho de colono é: amar a natureza.
Valorizar o que é produzido nas terras da família: comer frutas, verduras, legumes e alimentos em geral, plantados e colhidos por suas mãos, todos os dias.
Amar a família sempre.
É comer doces, cucas, tortas das boas, feitas em casa com todo amor do mundo.
É esquentar pés e mãos sentado ao lado do fogão a lenha no duro inverno gaúcho.
Comer pinhões tri bons cozinhados na chapa do fogão a lenha.
Fazer e comer churrasco na churrasqueira de casa, depois de uma boa caipirinha.
É jogar futebol no potreiro de casa, rodeado de bois, vacas e terneiros, acompanhado pelos muitos primos e primas e filhas e filhos de vizinhos.
É participar e valorizar a comunidade em todos os espaços e todos os dias da vida.
É conviver com cachorros o ano inteiro, hoje o Max, ontem o Fiel e muitos outros mais ao longo do tempo.
Ouvir os pássaros voando e cantando dia e noite.
É pegar laranjas, bergamotas, goiabas, bananas direto do pé e saciar a fome de pão e de beleza.
Estudar, e aprender a ler a Bíblia em alemão gótico.
É ajudar a fundar e ser sócio do sindicato das trabalhadoras e trabalhadores rurais, como fez papai Léo, e estar presente em todas as suas boas lutas.
É tomar um bom chimarrão quatro vezes ao dia, sempre acompanhado da família: de manhã bem cedo, depois de tirar leite das vacas e antes de ir para a roça; depois do trabalho da manhã, antes do almoço; antes de voltar para a roça no início da tarde; e, terminado o dia, ao anoitecer, para diminuir o cansaço.
É rezar todos os dias antes das refeições e rezar o terço várias vezes na semana.
Tomar um vinho feito com as uvas dos parreirais ao lado de casa.
É ir na floresta, no fundo da roça, com mato virgem de enormes e centenárias árvores.
É tirar uma gostosa soneca depois do meio-dia, como papai Léo fazia religiosamente todos os dias.
Comer um milho assado em cima da chapa do fogão a lenha.
É as crianças fazerem piquenique no matinho a 50 metros de casa, como se fosse em lugar estranho e distante.
É tomar um gostoso banho no riacho existente no início da propriedade.
Saber ´ler´ as nuvens e dizer se e quando vai chover.
Cuidar, sendo o mais velho da família, dos oito irmãos, sem vacilar nunca.
Ser amigo sempre de vizinhos e parentes, e conhecer suas casas por dentro.
É reconhecer o mundo e a vida a partir das boas vivências do cotidiano.
Hoje, anos 2020, na Vila Santa Emília, Venâncio Aires, RS, as famílias em geral são muito menores, mas a comida continua tri boa, os matinhos seguem convidativos, a vida de comunidade segue ativa, os irmãos mais novos continuam plantando e alimentando o mundo.
E, para alegria geral, o Brasil voltou a sair, segundo a FAO, do Mapa da Fome, com a participação decisiva de agricultoras e agricultores familiares, que garantem a comida, com alimentos saudáveis e cada vez mais agroecológicos, às brasileiras e aos brasileiros.
Ser filho de colono, por tudo isso e muito mais, é uma bênção. É comer do bom e do melhor feito em casa, é celebrar a vida, a natureza, é continuar cuidando da Casa Comum.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

