Valerio Arcary

Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol, e autor de O Martelo da história, entre outros livros.

Alerta vermelho vem da Colômbia

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Lula e Petro
Lula e Petro em encontro regional: presidentes do Brasil e da Colômbia lideram os principais governos progressistas da América do Sul em um ano marcado por ofensivas da direita no continente | Crédito: RAUL ARBOLEDA / AFP

A aprovação do fim da jornada 6x1 foi uma vitória grande do governo Lula, e uma fragorosa derrota da extrema direita.

Mais vale cautela que arrependimento

Provérbio popular português

  1. O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia acende um alerta vermelho, também, para as eleições de outubro no Brasil. Iván Cepeda, candidato pelo Polo Patriótico com o apoio de Gustavo Petro, esteve nas pesquisas em primeiro lugar durante meses, até além das margens de erro, mas terminou com 40,9% e foi ultrapassado por Abelardo de la Espriella, de extrema direita, com 43,7%. A soma dos votos de Abelardo e Paloma Valencia, que foi apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, totaliza 50,7%. O segundo turno acontecerá já em 21 de junho, em três semanas, sinalizando, portanto, um cenário muito difícil. A maioria das pesquisas errou a previsão do desenlace na Colômbia. Elas não captaram a explosão na reta final de Abelardo de la Espriella, um fenômeno de subestimação da extrema direita que já aconteceu antes, inclusive no Brasil, recentemente, com Pablo Marçal, sugerindo erros metodológicos na aferição. Além disso, houve a mudança inesperada de milhares de locais de votação horas antes das eleições e supressão de votos em áreas populares. Mas as razões de um desfecho, por enquanto, desfavorável repousam numa avaliação mais complexa sobre os limites da experiência dos governos progressistas que somente a esquerda colombiana poderá fazer plenamente. Nosso papel é apoiar uma luta que não se encerrou.
  1. Isto posto, parece incontornável, depois da derrota do peronismo na Argentina diante de Milei, do Movimento ao Socialismo (MAS) na Bolívia, e de Boric no Chile, que há um padrão do qual devemos retirar lições. Um pouco de perspectiva é necessário. Além da reeleição de Bukele em El Salvador e da vitória de Milei nas eleições do segundo semestre de 2025 na Argentina; no Equador, Daniel Noboa — reeleito em abril de 2025, derrotando Luísa González, liderança herdeira de Rafael Correa, que governou entre 2007/17 — consolida um regime autoritário. No Chile, Kast que venceu as eleições defendendo o legado de Pinochet, governa desde março deste ano. No Peru, Keiko Fujimori chegou ao segundo turno das presidenciais no próximo domingo, 7 de junho, em primeiro lugar, e tem vantagem nas pesquisas: 39,8% contra Roberto Sánchez, 35,9%Mas a dinâmica político-histórica é muito mais grave, se considerarmos a correlação de forças que se abriu em janeiro com a ofensiva de Trump contra a Venezuela e a iminência de uma agressão contra Cuba. A força da resistência popular na Bolívia contra o governo de Rodrigo Paz, um aliado de Trump eleito em novembro do ano passado, é animadora, mas não deve nos iludir. O fortalecimento da extrema direita na América Latina, inclusive com acento neofascista, não foi interrompido e pode não ter atingido o seu ápice. Nesse marco, as eleições brasileiras serão uma encruzilhada decisiva. Mas o seu desfecho permanece imprevisível. Assim como na Colômbia, a intervenção de Washington será inevitável, como já constatamos pela decisão de decretar que o PCC e o Comando Vermelho seriam organizações terroristas, e vem muito mais por aí.
  1. Confirmou-se um novo e mais favorável momento na conjuntura brasileira. Assim como no quadro de uma situação política ocorrem distintas conjunturas, também oscilam diferentes momentos no contexto da mesma conjuntura. A correlação política de forças não permanece estática em um país como o Brasil. Prevaleceu nas últimas três semanas um desgaste que deixou Flávio Bolsonaro na defensiva, abrindo uma crise na estratégia da extrema direita. Simultaneamente, ocorreu uma recuperação da aprovação de Lula e uma inversão da tendência. Mas estes movimentos foram somente “quantitativos”, e tudo continua incerto. Devemos considerar o impacto de cinco acontecimentos: (a) a denúncia da relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro enfraqueceu o bolsonarismo, apesar da operação de redução de danos, porque ficou revelada uma manobra indefensável de caixa dois, mas ele deve escapar de uma denúncia de crime eleitoral; (b) a aprovação do fim da jornada 6×1 foi uma grande vitória do governo Lula, e uma fragorosa derrota da extrema direita, apesar da ridícula manobra “ginástica” do bolsonarismo com a defesa da 4×3 no Congresso Nacional; (c) Flávio Bolsonaro não derreteu e não vai se retirar, mas a confirmação de uma queda em sucessivas pesquisas, além da margem de erro, revelou que sua audiência não é inexpugnável; (d) o perigo “atômico” das relações perigosas com Ciro Nogueira, Ibaneis, e Cláudio Castro ainda está longe de ter sido superado, mas a Terceira Via não tem tração porque lhe falta um mínimo de implantação social, mesmo que Caiado retire para apoiar Zema, e todos estarão juntos contra Lula; (e) em compensação, a visita a Trump e, na sequência, o anúncio de que PCC e CV serão consideradas organizações terroristas, não anulou mas diminuiu o impacto dos quatro fatores anteriores, e confirmou capacidade de reação do bolsonarismo sob pressão intensa. Mas este momento é transitório e vai passar.
  1. Se alguém tinha alguma dúvida, parece evidente que a campanha eleitoral já começou. Ainda que cinco meses nos separem do primeiro turno, e mesmo considerando que um provável frenesi de atenção será despertado pela Copa. É verdade que um pouco mais da metade da população não acompanha muito as notícias, seja pela mídia comercial ou mesmo pelas redes sociais, mas a intensidade da luta política mudou de patamar. A “hipnose” das pesquisas pode alimentar um excesso de otimismo sobre a reeleição de Lula, e parece ser neste momento um perigo real e imediato que ameaça alimentar erros irreparáveis de linha política no comando da campanha. A eleição permanece indefinida. O argumento de que a sociedade está dividida em três blocos — um que segue o bolsonarismo, outro que sustenta o lulismo e um terceiro que está indefinido — tem um grão de verdade. Mas induz ao erro, porque é “fotografia” de pesquisa e a luta política é um “filme”. Os três blocos têm forças de gravidade distintas ou densidades diferentes. A realidade é que metade da população, pelo menos, não tem definição política. A esquerda tem influência sobre um quinto da população, muito concentrada nas vinte regiões metropolitanas com um milhão ou mais de habitantes. O lulismo é uma corrente eleitoral maior que a esquerda e influencia um terço do povo. Já o bolsonarismo arrasta outro terço, mas é um movimento político-ideológico mais militante. A esquerda tem uma coluna vertebral na implantação histórica do PT no movimento sindical, do PCdoB no estudantil, e do PSol no feminista, negro, LGBT e ambiental. Mas a extrema direita conquistou uma capilaridade de implantação incomparavelmente superior, que não deve ser reduzida ao papel das igrejas pentecostais. O que vai definir o desfecho eleitoral é a linha política da campanha.  
  1. Uma linha somente de defesa do legado do governo Lula não será suficiente para derrotar o bolsonarismo por, pelo menos, três razões fundamentais: (a) a relação social de forças ainda é defensiva, essencialmente, porque a classe trabalhadora está dividida, e o apoio de Lula se concentra entre os mais pobres, enquanto o bolsonarismo conquistou audiência resiliente entre a parcela remediada dos assalariados que ganham acima do salário médio nacional; (b) se consolidou na classe dominante um bloco político-social amplamente majoritário, com pouquíssimas e raras dissidências, que irá apoiar qualquer candidatura de oposição, até mesmo Flávio Bolsonaro, mesmo com o superfaturamento de caixa dois do filme “Dark Horse”, mesmo com Vorcaro, com “tudo”, e vai arrastar a maioria da classe média acomodada; (c) os resultados econômico-sociais positivos da gestão do governo Lula não diminuem a taxa de rejeição em função da “muralha” de radicalização ideológica da base social da extrema direita. Diante deste cenário, um giro para o centro teria consequências devastadoras. O que se torna imperativo é um giro corajoso para a luta ideológica, a disputa de valores, a defesa de uma visão de mundo, o compromisso emocional com o que é justo e, sobretudo, uma aposta com o que virá e pode ser. Um giro à esquerda deve ser compreendido como um programa de audácia diante do futuro, anunciando compromissos simples, claros e cristalinos com o que virá. Brasil soberano face a Trump, reforma política com o fim das emendas parlamentares, imposto sobre as grandes fortunas, passe livre, defesa da Amazônia, reversão de privatizações, segurança pública com estrangulamento financeiro das quadrilhas, e por aí vai.

*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de “Ninguém disse que seria fácil” (Boitempo).

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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