Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

El Niño vem aí, estamos preparados?

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Fenômenos como El Niño e La Niña passaram a ser ampliados em decorrência do sobreaquecimento planetário
Fenômenos como El Niño e La Niña passaram a ser ampliados em decorrência do sobreaquecimento planetário | Crédito: Stock

El Niño vem aí e poderá ser muito forte, com duras consequências

Há alguns anos, fenômenos como El Niño e La Niña provocavam alterações no clima, gerando repercussões. Quem se precavesse razoavelmente podia absorver estas alterações.

Agora temos tido eventos climáticos extremos em algum lugar do planeta todo o dia. Atualmente é o caso do calor extremo, ainda maiores, causando mortes na Europa, que já ultrapassam 3.700 pessoas. A Europa está bem preparada para o frio extremo e, mesmo sofrendo há vários anos com mortes durante o verão, ainda não se preparou para esta situação. 

Também temos temperaturas extremas, além do usual, nos países onde está se realizando a Copa do Mundo, principalmente nos Estados Unidos (EUA), não raro interrompendo jogos para prevenir-se de possíveis temporais. A Copa somente está sendo realizada lá, nestas condições, por imposição da Fifa e de Trump.

O El Niño não está relacionado com estes eventos. 

Em 2024 conhecemos um El Niño já ampliado, com grandes cheias no RS e duras secas na Amazônia.

Na crise climática de 2024, chuvas acumuladas e concentradas ocasionaram inundações e deslizamentos em várias regiões do RS
Na crise climática de 2024, chuvas acumuladas e concentradas ocasionaram inundações e deslizamentos em várias regiões do RS | Crédito: Mauricio Tonetto/ Secom-RS

No entanto, os eventos extremos de 2024, inundações no RS e secas no Nordeste e no Norte, muito fortemente na Amazônia, estiveram relacionados com o El Niño.

Todos os meteorologistas têm alertado que o El Niño deste ano poderá ser muito forte. 

A importante agência meteorológica dos EUA, NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) é incisiva em afirmar que há possibilidade de 63% em ocorrer um El Niño “muito forte” durante a primavera e o verão, podendo inclusive ser um dos recordes desde 1950, quando iniciaram os seus registros. Publicou comunicado formal sobre a elevação da temperatura no Oceano Pacífico Equatorial, origem do EL Niño, alertando para as possíveis consequências na América do Sul, com destaque para o Brasil, e outras regiões do planeta. 

Escassez hídrica em bacias hidrográficas
Mudança no padrão de chuvas tem provocado escassez de água em bacias hidrográficas | Crédito: Adriane Gambarini/WWF Brasil

A ONU também informou que o El Niño poderá intensificar-se até setembro, podendo ter repercussões em várias regiões do planeta até 2027.

Carlos Nobre, nosso principal cientista em climatologia, especialista no bioma Amazônia, alerta para os desastres climáticos que poderão vir com o El Niño e chama a atenção de que RS precisa de atenção redobrada. Alerta ainda que na Amazônia, o El Niño mais ampliado ainda pelas queimadas, poderá levar a “pontos de não retorno” em trechos de nossa importante mata tropical.

É o aquecimento Global que torna o El Niño mais frequente e intenso, diz Carlos Nobre.

Sejam os desastres climáticos cotidianos, sejam os relacionados  com o El Niño ampliado, que já aconteceram e que ainda poderão vir, são consequência do aquecimento global, ou seja, do excesso de gases de efeito estufa – GEEs – emitidos pelas nossas atividades, que lamentavelmente ainda estão aumentando.

Mais calor gera mais nuvens, chuva, e ventanias, tempestades.

No caso do El Niño, como ele se forma e como está sendo ampliado?

Atuação do El Niño – Stock

A formação das nuvens, no ciclo da água, ocorre em sua maior parte nos mares e oceanos, que são 71% da superfície do planeta. Aí também são formados os principais ventos pelas diferenças de temperaturas. 

Com o sobreaquecimento há mais formação de nuvens e ventos, ou seja, teremos mais chuvas e tempestades.

No Pacífico, em condições normais, os ventos alísios (ventos que sopram da região do Equador, do leste para oeste) levam as águas superficiais aquecidas para a Ásia e Oceania.

Quando o aquecimento se torna superior a 0,5ºC, os ventos alísios enfraquecem, as águas aquecidas retornam do oeste e acumulam-se mais aquecidas em direção à América do Sul, provocando alteração na atmosfera, com interferência nas chuvas e temperaturas do planeta. Este é o El Niño.

Segundo NOAA, a temperatura média já subiu a 0.7ºC, podendo subir em 2,0ºC, no centro do Pacífico.

O La Niña é o processo inverso, em que as águas quentes ficam junto à Ásia e Austrália e as águas frias atuam sobre a América do Sul, igualmente provocando alterações no planeta, só que com o inverso dos efeitos.

Tanto um fenômeno como outro podem ocorrer entre períodos de 2 a 7 anos, inclusive podem ocorrer num mesmo ano. Esta possibilidade não está prevista para 2026.

Os anos em que não acontece nenhum dos fenômenos são chamados neutros.

As chuvas não se distribuem como usualmente, atingem intensivamente determinadas regiões, provocando secas noutra regiões.

O excesso de chuvas, geralmente acompanhados de tempestades de ventanias, não se distribuem como usualmente. Com a mudança dos ventos, são dirigidas a regiões específicas, causando duras secas noutras regiões.

A nível global estão previstas as seguintes possíveis consequências:

– África – grandes secas na região central, agravando a já difícil situação e excesso de chuvas no leste, prejudicando colheitas;

– Austrália e Sudeste Asiático – grandes secas com perda de plantações, possibilidade de incêndios e prejuízo a criação de animais, podendo gerar fome;

– Europa – Ondas de calor trágicas e incêndios. Crise na geração energética e produção de alimentos;

– Estados Unidos e Canadá – Invernos mais quentes no Norte. Chuvas fortes e nevascas, com enchentes, no Sul e no Sudoeste dos Estados Unidos;

– América Central e Caribe – Muito calor acompanhado de fortes secas, podendo gerar falta de água e produção de alimentos;

Aquecimento acelerado do Pacífico na costa do Peru e Equador – Metsul

– Costa Oeste da América do Sul, especialmente Peru e Equador – Grandeschuvas torrenciais, provocando enchentes e deslizamentos de terra, além de afastamento dos peixes da costa, reduzindo a pesca local;

No Brasil, teremos como possíveis consequências:

– Sul e Sudeste, especialmente RS e SC – Excesso de chuvas e tempestades, provocando alagamentos, inundações e prejuízos agropastoris como o atraso do plantio de soja e colheita de milho. Como já sabemos, poderemos novamente ter fortes prejuízos, entre outros, na habitação, saúde e produção;

– Centro-Oeste – Aumento de calor e tempestades;

– Nordeste e Norteincluindo a Amazônia – Muito calor e secas, atingindo os meios urbanos e nossos biomas fundamentais. Perda de produtividade na agricultura.

Como podemos deduzir, teremos prejuízos enormes, atingindo as vidas de todos nós, principalmente os mais desprotegidos, certamente intensificando as diferenças sociais mais ainda.

Tivemos um El Niño há dois anos, em 2024. Estamos agora preparados para o próximo?

Vamos analisar na próxima edição?

Editado por: Vivian Virissimo

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