Considerando 43 indicadores entre os quais raça, renda, gênero e território, foi lançado nesta quarta-feira (27), em Brasília, o Relatório 2025 do Observatório Brasileiro das Desigualdades. O documento demonstra que o país avançou nos últimos dois anos com a redução da pobreza, mas ainda enfrenta uma série de desafios, como o aumento do feminicídio.
A pesquisa avaliou índices de violência, acesso a direitos básicos, infraestrutura, salários, educação, entre outros. 25 registraram avanço, em especial os relacionados ao meio ambiente e ao trabalho. Três indicadores, porém, mostram retrocessos, principalmente na saúde e nas condições de moradia.
As diferenças regionais também chamam a atenção, como explica Renata Boulos, uma das organizadoras do relatório e coordenadora da Ação Brasileira de Combate às Desigualdades.
“Estamos caminhando para a redução das desigualdades, mas em passos de formiguinhas. Temos 500 anos de exploração e desigualdades. Em 2024, 1% da população brasileira ganhou em média 30,5% a mais do que 50% do país. Isso é inaceitável, porque quando falamos de desigualdade, falamos de injustiça. Não adianta aumentar o acesso à creche em São Paulo se não há acesso para mulheres negras no interior do Pará”, analisa, em entrevista ao Conversa Bem Viver.
Leia a entrevista completa:
Qual deve ser o nosso olhar para o resultado do relatório?
Renata Boulos – A boa notícia é que estamos caminhando para a redução das desigualdades, mas diria que em passos de formiguinhas. Esses últimos dois anos trouxeram melhoras expressivas, mas temos 500 anos de exploração e desigualdades socialmente construídas. Elas podem e devem ser desconstruídas por políticas públicas e pelo trabalho conjunto da sociedade.
Quando criamos o Observatório Brasileiro das Desigualdades, foi para mostrar que não adianta melhorar os números e dizer que o país está crescendo se esses dados não olham para as desigualdades existentes. Não adianta aumentar o acesso à creche em São Paulo se não há acesso para mulheres negras no interior do Pará. Políticas públicas precisam ser direcionadas para combater desigualdades de território, renda, raça e gênero.
Nesses dois anos, as notícias são boas, mas a desigualdade de renda persiste. Em 2024, 1% da população brasileira ganhou em média 30,5% a mais do que 50% do país. Isso é inaceitável, porque quando falamos de desigualdade, falamos de injustiça. Houve melhora, mas ainda são passos pequenos.
Analisamos esses 43 indicadores há dois anos, tendo um olhar transversal para raça, gênero, renda e desigualdades territoriais. Trabalhamos em vários outros temas, como segurança alimentar, segurança pública, saúde e educação.
Não é só o Executivo, mas também o Legislativo e o Judiciário precisam atuar. Há desigualdade de cargos entre mulheres e negras no Judiciário. Está em todas as instâncias. A reforma tributária pode fazer diferença, mas ainda há privilégios sendo defendidos.
Outro dado inaceitável é o aumento do feminicídio. As maiores vítimas são mulheres negras e pobres. Então, não tem como não falar de desigualdades. Os dados regionais mostram diferenças gritantes entre estados do Norte e do Sul. Precisamos de políticas específicas para territórios e grupos.
Os indicadores que usamos foram selecionados por diversas organizações que trabalham com dados e têm experiência em diversas áreas. Não é perfeito porque, óbvio, sempre vamos esquecer de medir uma coisa ou outra, e selecionar 43 indicadores é não selecionar outras centenas.
Mas os dados de segurança estão muito bem atualizados, porque acabou de sair o último anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. É muito gritante, porque ao mesmo tempo que tem uma notícia muito boa, a diminuição da violência letal contra jovens, há o aumento do feminicídio.
Em todas as áreas existem melhoras, mas onde menos tem melhorado? Na vida das mulheres negras. A cor da sua pele, onde você nasceu, se é do Norte ou do Nordeste, tem muita diferença. A distância entre os dados do estado de Roraima de saúde, por exemplo, comparado com um estado do Sul do Brasil, é gritante.
Então quando você olha para o território todo, você vê boas notícias, mas você vê também uma preocupação de pensar em políticas públicas específicas para esses locais, pessoas e grupos que convivem com a desigualdade.
A proporção de pobres reduziu em 23,4% em 2024, segundo o critério do Bolsa Família. Isso mostra como políticas públicas são capazes de atacar as desigualdades. O que você acha da proposta de isenção do imposto de renda para quem recebe até R$ 5 mil?
Nosso relatório não é uma crítica, mas um alerta para olhar o bom e o ruim. Há políticas que estão funcionando, mas precisamos avançar. A reforma tributária e a taxação dos super-ricos são medidas urgentes. Quem está na classe média paga proporcionalmente mais impostos do que os super-ricos. Isso é injusto. Estamos agora nesse momento de votação no Congresso e esperamos que seja aprovada a isenção, mas ainda não está certo, precisamos da taxação dos super-ricos também para corrigir as disparidades. Quais são os interesses que estão sendo defendidos hoje?
O Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades tem trabalhado com propostas no Congresso. Trouxemos um café da manhã no Congresso no mês passado justamente com uma proposta de uma emenda global para taxação dos super-ricos. Estamos batendo muito nessa tecla de que temos como diminuir essas injustiças e desigualdades. E, volto a dizer, isso é um trabalho que depende não é só do Executivo.
Também vimos melhora no rendimento médio, especialmente entre mulheres negras, que cresceram acima da média nacional. Estão sendo feitas políticas. Houve redução do desmatamento e da emissão de CO2, mas ao mesmo tempo existe o PL da Devastação. Se não encontrarmos equilíbrio, não vamos conseguir reduzir as desigualdades.
Quando falamos de desigualdade, falamos de injustiça. Não tem como achar ok as disparidades de renda ou um trabalhador informal se matando para poder comer. Durante a pandemia, voltamos ao mapa da fome. Agora conseguimos sair, mas ainda temos pessoas sem três refeições por dia. Enquanto isso, há pessoas ganhando milhões por mês. Como vivemos como se isso não acontecesse? Isso não é socialmente aceitável. Precisamos pressionar o Legislativo e o Executivo e votar com consciência.
O relatório mostra que 97% do desmatamento entre 2009 e 2024 ocorreu por pressão do setor agropecuário. Qual é a importância da reforma agrária nesse cenário?
Por mais que tenhamos boas notícias como a redução do desmatamento, não são suficientes nem para cumprir o Acordo de Paris. O agronegócio é responsável por grande parte desse caos. Temos ao mesmo tempo pessoas indígenas lutando por seus territórios e por questões básicas, enquanto temos o capitalismo como inimigo.
Se continuarmos nesse ritmo, o que vejo são mais notícias ruins, mais secas e desastres. As pessoas mais afetadas são as negras, pobres, quilombolas e indígenas. Precisamos falar de justiça climática, reforma agrária e enfrentar o agronegócio e a mineração. Caso contrário, não haverá mudança substancial.
A reforma agrária é urgente e não é parcial. Precisamos pensar qual modelo nós queremos e ele precisa ser de mudanças substanciais. Trabalhamos com organizações que participam da COP e da Cúpula dos Povos para pensar soluções coletivas que diminuam as desigualdades. Mas, ao mesmo tempo, existe o PL da devastação. Como vamos pautar a reforma agrária se, ao mesmo tempo, estamos lutando para vetar alguns trechos do PL?
Temos um árduo trabalho de conscientização das pessoas e do governo pela frente. Temos um governo de coalizão, com interesses diversos. Muitas pessoas acham que políticas ambientais são ideológicas, quando na verdade são urgentes.
Conversa Bem Viver

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