Acabou de chegar às livrarias de todo o Brasil As Cartas do Boom, obra que reúne correspondências trocadas entre quatro dos nomes mais influentes e premiados da literatura latino-americana: Júlio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa.
A publicação foi viabilizada pela editora Record e traduzida por Mariana Carpinejar, que conta, ao Conversa Bem Viver, um pouco do que o leitor pode encontrar nas cerca de 600 páginas do livro que documenta a relação entre os escritores e revela bastidores de publicações, parcerias e também conflitos.
“Dá para sentir aquele gostinho de que eles foram realmente de carne e osso. O Gabriel García Márquez ficou endividado. Para escrever 100 Anos de Solidão, se trancafiou por meses dentro de casa. Já o Carlos Fuentes é aquele cara que tinha contato com todo mundo. Mário Vargas Llosa é mais sério, uma escrita mais sisuda. E o Júlio Cortázar é aquele amoroso, se declara para os amigos”, comenta.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Podemos dizer que o livro é quase um grupo de WhatsApp entre Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa?
Mariana Carpinejar – Dá para dizer que sim, porque realmente a intimidade entre eles é como uma conversa no WhatsApp. Mas o curioso é que no começo das cartas, quando eles ainda não tinham toda aquela confiança, eles se tratavam por “senhor”, com toda a formalidade. Dá para ver aos poucos eles se rendendo um ao outro e formando aquela amizade monumental que hoje é tão conhecida desse quarteto.
O Júlio Cortázar era muito sincero. Quando ele ia falar para um amigo de um livro que o amigo escreveu, ele destrinchava. Chega a ser meio constrangedor para quem lê, porque ele botava ponto por ponto do que que era bom no livro e o que podia melhorar. Tanto é que o Carlos Fuentes teve que reescrever todo o final de um livro dele, depois de ouvir uma crítica do Cortázar. Para ver o impacto e a importância que o Carlos Fuentes dava para o Cortázar, para a opinião do amigo.
Reescreveu todo o final do livro. Uma coisa engraçada aconteceu e é um pouquinho de maldade da minha parte destacar isso. Teve um livro que o Cortázar falou para o Carlos Fuentes assim: “eu acho que tu pode mais”. No livro seguinte falou: “eu acho melhor escrever como escrevia antes”. Ou seja, tem umas coisas engraçadas que aconteceram, mas o Júlio sempre muito preocupado com os amigos e as críticas eram construtivas. Eram críticas pesadas, ele era muito sincero, mas eram sempre construtivas.
Estavam esperando a morte de todos os quatros para publicar o livro ou foi uma coincidência? Houve alguma dificuldade com as famílias sobre trazer a público cartas tão íntimas?
Em espanhol, publicaram o livro antes de Llosa morrer [falecido em 13 de abril de 2025]. Ele foi o último e, agora, com a morte dele, sim, foi muito oportuna a publicação do livro. Mas, na verdade, eu já estava traduzindo esse livro antes de ele morrer. Eu fiquei um pouco mais de um ano traduzindo, porque o livro tem quase 600 páginas e o fato de ele ter morrido deixou o cenário mais quente para receber o livro, mas isso não foi premeditado pela editora Record, não.
Sobre as dificuldades com as famílias, teríamos que falar com a editora Record e com a editora Penguin, do espanhol. Para mim, como tradutora, é um trabalho mais solitário, dentro da minha casa, com o meu computador. Eu escolhi uma profissão que eu não preciso fazer a mediação com as famílias.
Todos esses quatro nomes foram notórios defensores das pautas à esquerda. Inclusive Gabriel García Márquez tem uma trajetória em Cuba com Fidel Castro. Mário Vargas Llosa foi o único que endireitou?
A questão do Mário, pela coisa como aconteceu, eu entendo o lado dele, porque realmente ele foi tratado muito mal pela esquerda e já vinha acontecendo um certo desencantamento. Os intelectuais começaram a ver que a esquerda não era tudo o que em teoria estava pregando. Já vinham acontecendo coisas como, por exemplo, a prisão injusta de Heberto Padilha, que é o poeta cubano, por Fidel Castro.
Primeiro, ele publicou um artigo justo, criticando o apoio de Fidel Castro à invasão da Tchecoslováquia, na invasão das tropas do Pacto de Varsóvia. Isso foi em 68. Como ele foi o único que apontou diretamente para a figura de Fidel Castro, ele ficou marcado. Em 69, ele deveria ir para uma reunião da revista Casa de las Américas, em Havana. É uma revista cubana, toda envolvida na política do momento e ele era colaborador da revista.
Por motivos que eu desconheço, ele não foi para essa reunião e começou a ser apontado como um desertor, simplesmente por não ter comparecido. Daí, começaram a falar: “primeiro, ele fez aquele artigo, depois, ele faltou na reunião. O cara é um vira-casaca”.
Todo mundo caiu em cima dele e isso aparece muito bem nas cartas, amigos apoiando, tentando pelo menos apoiar o Mário nessa situação tão difícil que estava todo mundo contra ele, tratando ele como um desertor, quando, na verdade, ele era, na época, tão de esquerda quanto os outros.
Pelo menos no que dá para ver nas cartas, não teria como criticar uma postura militar, não é deserção, não é endireitar. Ele tinha o direito de criticar a invasão na Tchecoslováquia. Que esquerda é essa que não tem como a gente dar a nossa opinião? Então, eu entendo o lado dele. Eu, particularmente, não endireitaria por isso, mas eu entendo que, por desavenças mais pessoais do que políticas, ele acabou sendo praticamente dado de bandeja para a direita.
Nesse mesmo período, tínhamos grandes nomes brasileiros que também eram amigos, como Jorge Amado e Graciliano Ramos. Eles também tinham alguma intimidade com autores que trocam cartas no livro?
Não tão intimamente, mas dois escritores nesse livro lamentaram a morte de Guimarães Rosa. O Guimarães Rosa daria para dizer que seria o brasileiro mais próximo dessa turma. Até pela questão da literatura dele ser considerada o tal do realismo mágico, o realismo fantástico.
Na verdade, a época do boom latino-americano ficou caracterizada como uma literatura de realismo fantástico. O que a gente poderia pensar é: fantástico para quem? Os escritores escreviam as coisas que aconteciam aqui, coisas cotidianas. Tem muitas coisas fantásticas que acontecem aqui. A colonização, por exemplo, é uma coisa fantástica, porque é injusta, porque não é humanamente viável, é fantástica.
A pobreza é uma coisa fantástica, porque não tem cabimento. Então, é uma coisa fantástica e o povo ter conseguido seguir em frente, apesar da pobreza e apesar da colonização, mais fantástico ainda. Então, nós somos fantásticos para quem? Para os europeus. É por isso que foi nesse período do boom que a nossa literatura foi vista pela primeira vez pelo mundo inteiro.
Tem essa parte boa de que finalmente estávamos sendo valorizados, mas também tem a parte ruim de que passamos por uma exotização. Os europeus acham que tudo que se escreve aqui é realismo fantástico. Fantástico para quem? Para eles. É do nosso dia a dia, do nosso cotidiano.
Garcia Márquez vai colocar no romance, o mais famoso da época do boom, 100 Anos de Solidão, sobre uma tia que tecia a própria mortalha, porque sabia que ia morrer no mesmo dia. Ele teve mesmo na vida real uma tia que estava tecendo a própria mortalha e, depois que ela terminou de tecer, ela deitou e morreu. São coisas fantásticas que acontecem nesse continente.
Você diria que eles não gostavam muito desse apelido de “realismo mágico”? Não era uma boa categoria para enquadrá-los?
Essa crítica da exotização, do realismo fantástico, eu faço já com distanciamento acadêmico universitário depois de muitos anos do boom, que foi entre 55 e 75. Dá para dizer que começou a sua decadência em 1976, pelo menos é assim que o livro se divide, colocando o stop em 55, que compreende entre 1955 e 1975, e o capítulo Fim de Festa é a partir de 1976.
O próprio livro faz essa divisão do boom. Eu, com distanciamento, vejo assim. A minha professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Karina Lucena, que também é uma estudiosa do boom, viu assim e me ensinou desse jeito, mas os próprios autores não viam desse jeito.
Não dá para ver nas cartas, em nenhum momento, essa preocupação que hoje a gente tem de que taxar tudo de realismo mágico. É uma exotização. Eles não tinham todo esse panorama diante deles, tudo acontecia muito rápido, tudo ia acontecendo e eles estavam muito dentro dos acontecimentos, não tinham essa visão mais crítica.
O fantástico de tudo isso é que o Gabriel García Márquez chegou a escrever em uma carta que ele estava suspeitando que 100 Anos de Solidão era uma grande porcaria. Como ele estava dentro, escrevendo a história, ele não conseguia ver a magnitude do que ele estava fazendo. Foi uma carta que ele escreveu para Carlos Fuentes:
“Master querido” — ele chamava de master como um apelido carinhoso. “Não tinha te respondido porque o romance, 100 Anos de Solidão, me deixou com uma ressaca terrível. De repente, fui tomado pelo pânico de, na verdade, não ter dito nada em 500 páginas e me trancafiei com o neurótico propósito de escrevê-lo de novo de outra maneira. Tudo se resumiu, felizmente, a uma boa lapidada para tudo ficar mais limpo e já está em Buenos Aires. Mandei sem mostrar para ninguém. Podes imaginar a situação em que me encontro, esperando que os leitores da Sudamericana, a editora do 100 Anos de Solidão, mandem dizer que é uma merda”.
Ele achava que a editora ia dizer que era uma merda. É inacreditável. E, no final, foi o livro que ficou o mais famoso de todos os tempos. O livro mais famoso do boom.
Agora, não tenho aqui na mão a resposta do Fuentes, mas o que eu posso te dizer é que todos os amigos elogiaram muito esse livro. Primeiro, o Garcia Márquez sempre ficava incrédulo. Porque as coisas foram acontecendo e, de repente, o livro ficou um tremendo sucesso. E os amigos apoiaram muito, elogiaram muito esse livro, souberam valorizar.
Eles valorizavam as obras um do outro?
Aliás, a obra de todos foi muito valorizada e dá para ver também esse livro As Cartas do Boom, também como uma metalinguagem, porque um comenta a obra do outro, principalmente o Júlio Cortázar, mas não somente ele.
Um comenta a obra do outro, um dá dicas para o outro. É muito rico ver tudo isso reunido em um só livro, todas as cartas que foram encontradas dessa amizade que ia muito além da literatura.
Gabriel García Márquez era aquele amigo chato que sempre estava sem dinheiro e sem trabalho. E daí todo mundo tentando ajudar: “não, mas vai ser bom morar nessa cidade porque o aluguel é mais em conta”. Dá para sentir aquele gostinho de que eles foram realmente de carne e osso.
O Gabriel García Márquez ficou endividado. Para escrever 100 Anos de Solidão, ele se trancafiou por meses dentro de casa, pediu para a esposa não incomodar, ficava o dia inteiro escrevendo por meses e não trabalhava. Só escrevia o livro, então, realmente, ficou endividado. Se esse livro não tivesse sido um tremendo sucesso, ele teria problemas. Ainda bem que foi.
Já o Carlos Fuentes é aquele cara que tinha contato com todo mundo, é aquele amigo que, se tu quer pedir uma dica de emprego, de contatos, ele sempre dava. E ele já tinha morado em tudo que é lugar do planeta. Ele era aquele cara charmoso que ficava colocando frases em inglês, brincalhão. No meio da carta, tem um monte de frases em inglês do Carlos Fuentes. Já o Mário Vargas Llosa é mais sério, uma escrita mais sisuda.
E o Júlio Cortázar é aquele amoroso, se declara para os amigos, todo coração, ele fazia questão de se expressar em palavras. Para falar de sentimentos e colocar em palavras, realmente o cara era o Júlio Cortázar. Sabe aquela amizade masculina? Também eu tive dificuldades de tradução, porque em espanhol, quando ele fala “te quiero”, eu não sabia se eu podia traduzir para “te amo”. No final eu traduzi para “te quero bem”. Assim, eu tive que modular, porque é aquela coisa da amizade masculina. É tabu, ainda mais para a época e pensando em uma tradução de época.
Conversa Bem Viver

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