A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que está acontecendo em Belém (PA), é uma oportunidade histórica para enfrentar o negacionismo climático e fortalecer o debate público sobre justiça socioambiental. É o que afirma a pesquisadora Débora Salles, coordenadora do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo ela, o encontro internacional ajuda a concentrar atenções e disseminar “informação de boa qualidade” num cenário global tomado por desinformação e discursos contra a ciência. “Sem dúvida, quando voltamos as nossas atenções para a discussão climática e para como estamos lidando com as mudanças climáticas, isso é uma janela de oportunidade para a disseminação de informação de boa qualidade”, afirma Salles. “A COP é a situação perfeita para discutirmos as questões socioambientais, trazendo informação de qualidade”, completa.
De acordo com a pesquisadora, o negacionismo não nasce apenas da política, mas também de estratégias corporativas antigas. “Quando pensamos, por exemplo, na indústria do tabaco, quantos anos essas empresas passaram fazendo campanhas dizendo que o tabaco não fazia nenhum mal à saúde? Isso também é negacionismo”, compara.
No Brasil, ela aponta o agronegócio como o principal vetor dessa desinformação. “O agro é mesmo o carro-chefe da desinformação socioambiental”, diz. “Temos grandes empresas que capturam o debate público e criam uma imagem de que o agro é a força econômica do país, de que alimentamos o mundo e, por isso, precisamos ser mais flexível nas políticas ambientais”, cita.
Salles pontua que o tema também tem marcado os debates em Belém. “O agro tem um espaço dedicado a ele dentro da COP, inclusive com protestos de movimentos populares contra essa atuação”, aponta. “É um espaço de disputa e de negociação, e precisamos ter cuidado com os setores que pressionam por flexibilização das políticas ambientais”, alerta. Ela acrescenta que “grandes empresas com impacto socioambiental vêm financiando a cobertura da COP e a presença de grandes veículos, o que limita a investigação.”
A pesquisadora destaca ainda o papel dos think tanks (organizações que produzem pesquisa, análise e aconselhamento sobre políticas públicas) conservadores, que produzem “pseudo-evidências” para defender os interesses de grandes corporações. “Esses think tanks são essenciais para o lobby dessas empresas e para a produção de dados enviesados, fracos, que corroboram com os argumentos delas”, denuncia.
Débora Salles defende que o enfrentamento ao negacionismo passa pela regulamentação da publicidade socioambiental, pela pressão popular por transparência e por um fortalecimento da divulgação científica. “Precisamos garantir que as empresas não possam vender petróleo e dizer que estão preocupadas com o meio ambiente”, clama. “É fundamental fortalecer comunicadores e cientistas que traduzem a ciência de forma acessível. Explicar uma verdade científica é muito mais difícil do que produzir uma mentira”, afirma.
Para ela, a COP30 também cumpre um papel essencial nesse esforço. “A conferência, ao reunir sociedade civil, governos e imprensa, ajuda a colocar luz sobre as estratégias de desinformação e cria um espaço de enfrentamento ao negacionismo climático. É um momento de reafirmar a importância da ciência e da verdade”, observa.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
