Política

Nos dez anos do impeachment de Dilma, especialista critica papel da mídia no golpe e fala dos desafios para eleição de 2026

Renata Mieli relembra como a imprensa comercial abandonou a falsa neutralidade para orquestrar a queda da presidenta e alavancar figuras como Moro e Bolsonaro

Brazilian former president Dilma Rousseff, from the leftist Workers' Party (PT), arrives at a polling station in Porto Alegre, in the Brazilian state of Rio Grande do Sul, during municipal elections on October 2, 2016. Brazilians furious at recession and corruption voted Sunday in municipal elections amid heightened security after a series of murders of candidates. Among the first to cast his ballot in the financial capital Sao Paulo was Brazilian president Michel Temer from the center-left PMDB party, who took over the presidency in August after turning on his former leftist ally Dilma Rousseff and helping to force her from the top job in an impeachment vote. (Photo by Gustavo ROTH / AFP)
Ex-presidenta Dilma Rousseff | Crédito: Gustavo ROTH / AFP

Dez anos atrás, a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff era afastada do cargo em um processo que ficou conhecido como golpe parlamentar, jurídico e midiático. Se o Congresso e o Judiciário deram os passos formais para a deposição, a mídia comercial, concentrada nas mãos de poucas famílias, teve papel fundamental em todo o percurso que levou ao impeachment, e também no que veio depois.

A doutora em Ciências da Comunicação Renata Mieli analisa no BdF Entrevista como a imprensa atuou para desestabilizar o governo Dilma, alavancar figuras como Sérgio Moro e Jair Bolsonaro, blindar Michel Temer e, nos anos seguintes, perder parte de sua credibilidade ao escancarar seu viés político, ao mesmo tempo em que o ecossistema informacional se complexificava com a ascensão das big techs.

Mieli lembra que o envolvimento da mídia em golpes contra presidentes democraticamente eleitos não é novidade no Brasil. “Essa tendência vem da própria origem do sistema comunicacional comercial do Brasil”, afirma. “Houve uma opção do Estado brasileiro em conceder ao setor privado a exploração das emissoras de rádio e televisão. Quem detinha esses meios eram os representantes da elite econômica.”

Essa característica se manteve ao longo das décadas. “Nos anos 60, se alinharam com o golpe civil-militar em oposição às reformas de base do presidente João Goulart. Foi assim na redemocratização, nas eleições de 1989, quando privilegiaram Collor em detrimento de Lula, e em vários momentos da história do país.”

Um aspecto crucial do processo que levou ao impeachment foi a colaboração entre veículos concorrentes. “Em pautas estruturantes, a opinião dos grandes meios hegemônicos é exatamente a mesma”, explica a pesquisadora. “Reforma trabalhista, previdenciária, política macroeconômica que beneficia taxas altas de juros, há uma linha editorial comum.”

Mieli relata um episódio emblemático: “Estava num encontro de blogueiros com o presidente Lula, e presenciei na antessala todos os repórteres dos diferentes veículos combinando a manchete do dia seguinte. Há uma colaboração em prol de um interesse estratégico”.

A cobertura das manifestações que pediam o impeachment de Dilma foi um ponto de virada na atuação da mídia. “Historicamente, os meios de comunicação sempre criminalizaram as manifestações de rua. Quando a direita foi às ruas, a mídia mudou o tom: eram as pessoas de bem, a família brasileira, o povo ordeiro”, recorda Mieli.

Os jornais chegavam a publicar data e local dos atos, num claro estímulo à participação. Havia uma coordenação na cobertura televisiva: entradas ao vivo nos estados menores funcionavam como “esquenta” para estimular a ida às manifestações em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ).

Paralelamente, construiu-se um cenário de crise econômica apocalíptica. “A mídia sempre manipulou dados. A cobertura econômica é hermética, a população tem dificuldade de entender indicadores. O Brasil estava muito longe de quebrar, tínhamos indicadores de emprego e renda ainda positivos, mas a narrativa criou um ambiente de insegurança.”

Para Mieli, a mídia teve papel determinante na criação de figuras como Sérgio Moro. “A Operação Lava Jato é uma operação midiático-jurídica. Havia combinação de vazamentos com a TV Globo, que ia junto fazer a cobertura das operações.”

A pesquisadora lembra que essa não foi a primeira vez. “Quem criou o Collor foi a mídia. Quem criou o Sérgio Moro foi a mídia. Quem projetou Jair Bolsonaro foram os grandes veículos de comunicação. Ele era um deputado federal medíocre, que aprovou um único projeto de lei em anos de mandato, e se tornou a figura que passou a vocalizar a família de bem, escolhido cirurgicamente para suceder Temer.”

Após o impeachment, a mídia precisou blindar Michel Temer, vice de Dilma e parte do governo que havia sido tão duramente criticado. “Como fazer com que as denúncias contra Dilma não respingassem nele? A mídia precisou estruturar uma campanha para destacar Temer, que nunca foi um político de grande expressão eleitoral.”

Um exemplo dessa engenharia narrativa foi a cobertura da reforma da Previdência. “Conseguiram mudar a narrativa, criando uma nova imagem do aposentado: não mais a pessoa que precisa descansar, mas alguém produtivo, que quer continuar trabalhando, ir à academia. O Temer foi ao Sílvio Santos falar disso, sem espaço para o contraditório.”

Mieli avalia que a mídia hegemônica já vinha perdendo credibilidade antes do governo Bolsonaro. “No processo do impeachment, eles precisaram abandonar a narrativa da neutralidade e objetividade, que era a base de sua credibilidade. Escancararam que têm lado.”

Com a ascensão das plataformas digitais, o cenário se complexificou. “As big techs passaram a competir com os veículos hegemônicos pela atenção da sociedade. O escândalo da Cambridge Analytica, o uso de perfilamento individual para direcionamento de desinformação e discurso de ódio fragmentaram ainda mais a esfera pública.”

Ao mesmo tempo, a audiência da mídia tradicional despencou. “O Jornal Nacional, que sempre pautou a política brasileira, perdeu audiência. Jornais impressos e revistas semanais entraram em crise existencial diante do fluxo informacional constante da internet.”

Para Mieli, o resgate histórico desse processo é fundamental para compreender os desafios do presente. “Fazer esse resgate é muito importante para as pessoas compreenderem os desafios que temos em 2026 e daqui para frente, olhando o papel dos meios de comunicação na cobertura política nacional e internacional desse momento muito delicado que vivemos hoje no mundo.”

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. 

Editado por: Maria Teresa Cruz

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