Dez anos atrás, a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff era afastada do cargo em um processo que ficou conhecido como golpe parlamentar, jurídico e midiático. Se o Congresso e o Judiciário deram os passos formais para a deposição, a mídia comercial, concentrada nas mãos de poucas famílias, teve papel fundamental em todo o percurso que levou ao impeachment, e também no que veio depois.
A doutora em Ciências da Comunicação Renata Mieli analisa no BdF Entrevista como a imprensa atuou para desestabilizar o governo Dilma, alavancar figuras como Sérgio Moro e Jair Bolsonaro, blindar Michel Temer e, nos anos seguintes, perder parte de sua credibilidade ao escancarar seu viés político, ao mesmo tempo em que o ecossistema informacional se complexificava com a ascensão das big techs.
Mieli lembra que o envolvimento da mídia em golpes contra presidentes democraticamente eleitos não é novidade no Brasil. “Essa tendência vem da própria origem do sistema comunicacional comercial do Brasil”, afirma. “Houve uma opção do Estado brasileiro em conceder ao setor privado a exploração das emissoras de rádio e televisão. Quem detinha esses meios eram os representantes da elite econômica.”
Essa característica se manteve ao longo das décadas. “Nos anos 60, se alinharam com o golpe civil-militar em oposição às reformas de base do presidente João Goulart. Foi assim na redemocratização, nas eleições de 1989, quando privilegiaram Collor em detrimento de Lula, e em vários momentos da história do país.”
Um aspecto crucial do processo que levou ao impeachment foi a colaboração entre veículos concorrentes. “Em pautas estruturantes, a opinião dos grandes meios hegemônicos é exatamente a mesma”, explica a pesquisadora. “Reforma trabalhista, previdenciária, política macroeconômica que beneficia taxas altas de juros, há uma linha editorial comum.”
Mieli relata um episódio emblemático: “Estava num encontro de blogueiros com o presidente Lula, e presenciei na antessala todos os repórteres dos diferentes veículos combinando a manchete do dia seguinte. Há uma colaboração em prol de um interesse estratégico”.
A cobertura das manifestações que pediam o impeachment de Dilma foi um ponto de virada na atuação da mídia. “Historicamente, os meios de comunicação sempre criminalizaram as manifestações de rua. Quando a direita foi às ruas, a mídia mudou o tom: eram as pessoas de bem, a família brasileira, o povo ordeiro”, recorda Mieli.
Os jornais chegavam a publicar data e local dos atos, num claro estímulo à participação. Havia uma coordenação na cobertura televisiva: entradas ao vivo nos estados menores funcionavam como “esquenta” para estimular a ida às manifestações em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ).
Paralelamente, construiu-se um cenário de crise econômica apocalíptica. “A mídia sempre manipulou dados. A cobertura econômica é hermética, a população tem dificuldade de entender indicadores. O Brasil estava muito longe de quebrar, tínhamos indicadores de emprego e renda ainda positivos, mas a narrativa criou um ambiente de insegurança.”
Para Mieli, a mídia teve papel determinante na criação de figuras como Sérgio Moro. “A Operação Lava Jato é uma operação midiático-jurídica. Havia combinação de vazamentos com a TV Globo, que ia junto fazer a cobertura das operações.”
A pesquisadora lembra que essa não foi a primeira vez. “Quem criou o Collor foi a mídia. Quem criou o Sérgio Moro foi a mídia. Quem projetou Jair Bolsonaro foram os grandes veículos de comunicação. Ele era um deputado federal medíocre, que aprovou um único projeto de lei em anos de mandato, e se tornou a figura que passou a vocalizar a família de bem, escolhido cirurgicamente para suceder Temer.”
Após o impeachment, a mídia precisou blindar Michel Temer, vice de Dilma e parte do governo que havia sido tão duramente criticado. “Como fazer com que as denúncias contra Dilma não respingassem nele? A mídia precisou estruturar uma campanha para destacar Temer, que nunca foi um político de grande expressão eleitoral.”
Um exemplo dessa engenharia narrativa foi a cobertura da reforma da Previdência. “Conseguiram mudar a narrativa, criando uma nova imagem do aposentado: não mais a pessoa que precisa descansar, mas alguém produtivo, que quer continuar trabalhando, ir à academia. O Temer foi ao Sílvio Santos falar disso, sem espaço para o contraditório.”
Mieli avalia que a mídia hegemônica já vinha perdendo credibilidade antes do governo Bolsonaro. “No processo do impeachment, eles precisaram abandonar a narrativa da neutralidade e objetividade, que era a base de sua credibilidade. Escancararam que têm lado.”
Com a ascensão das plataformas digitais, o cenário se complexificou. “As big techs passaram a competir com os veículos hegemônicos pela atenção da sociedade. O escândalo da Cambridge Analytica, o uso de perfilamento individual para direcionamento de desinformação e discurso de ódio fragmentaram ainda mais a esfera pública.”
Ao mesmo tempo, a audiência da mídia tradicional despencou. “O Jornal Nacional, que sempre pautou a política brasileira, perdeu audiência. Jornais impressos e revistas semanais entraram em crise existencial diante do fluxo informacional constante da internet.”
Para Mieli, o resgate histórico desse processo é fundamental para compreender os desafios do presente. “Fazer esse resgate é muito importante para as pessoas compreenderem os desafios que temos em 2026 e daqui para frente, olhando o papel dos meios de comunicação na cobertura política nacional e internacional desse momento muito delicado que vivemos hoje no mundo.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
