A popularização de medicamentos como o Ozempic e o Mounjaro criou terreno para a retomada do debate sobre a discriminação corporal na sociedade contemporânea. Ao BdF Entrevista, a filósofa, professora e autora do livro “Lute Como Uma Gorda” (Editora Jandaíra), Malu Jimenez, avalia que o advento dessas “canetas emagrecedoras” piorou e individualizou a culpabilização social sobre os corpos gordos, gerando uma constante “caça às gorduras” estimulada pelo lucro corporativo.
“Eu acho que não só piorou, como também tem uma condenação desses corpos para que eles existam. É como se as pessoas gordas não pudessem existir, como se você estivesse fazendo algo muito errado”, pontua a pesquisadora.
Longe de ser uma preocupação meramente estética, a gordofobia é descrita por Jimenez como um estigma estrutural que inviabiliza direitos humanos e afeta gravemente o acesso à saúde. “A gordofobia afeta a forma como nós somos atendidos no chão da saúde. As pessoas gordas chegam aos hospitais, chegam à clínica, e um diagnóstico de uma doença vem antes da escuta ou da investigação médica sobre as queixas dessa pessoa gorda”, relata.
Ela denuncia a negligência médica e a falta de infraestrutura hospitalar básica, como macas e aparelhos de ressonância magnética adaptados, que impedem investigações clínicas adequadas e diagnósticos no tempo correto.
Segundo a filósofa, existe uma fixação médica pelo emagrecimento que pode trazer consequências trágicas. “A gordofobia está inclusive na forma como a saúde acolhe esses corpos”, adverte a escritora, reforçando categoricamente que “gordofobia mata, com certeza”.
Como resposta a essa exclusão cotidiana, o ativismo gordo atua na esfera coletiva e política, demandando cidadania e visibilidade. Hoje, como presidente do Instituto Diversas, Jimenez lidera esforços para que o poder público crie políticas públicas de acolhimento e acessibilidade nas escolas, no mercado de trabalho e nos sistemas de saúde, em vez de focar exclusivamente em programas de perda de peso.
“O que a gente faz é lutar por políticas públicas de acolhimento desses corpos, para que essas pessoas possam existir como elas são”, conclui a filósofa, defendendo que o conceito de saúde deve ir muito além da beleza neoliberal e englobar o respeito a todas as existências. “A base da gordofobia vem dessa ideia de que é um corpo doente e ele precisa ser modificado”, destaca.
Confira a entrevista completa:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
