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Extrema direita vence no Peru e na Colômbia: o que está acontecendo na América Latina?

Hugo Albuquerque e Katia Marko analisam ingerência estadunidense em eleições e como será a governabilidade nesses países

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Keiko Fujimori
Keiko Fujimori e Abelardo de La Espriella | Crédito: AFP/Kaime Saldarriaga/AFP

Os recentes resultados das eleições no Peru e na Colômbia, que indicam vitórias da extrema direita, ilustram um momento de tendência ao conservadorismo. No entanto, devem ser analisados também outros fatores, como a influência dos Estados Unidos e das plataformas digitais, nas quais existe a possibilidade da manipulação das narrativas. Há ainda impactos da instabilidade política regional e as particularidades da realidade de cada país.

Na Colômbia, o candidato de esquerda Iván Cepeda reconheceu a vitória do ultradireitista Abelardo de La Espriella. Já no Peru, mesmo matematicamente a vitória sendo de Keiko Fujimori, Rodolfo Sánchez declarou que não reconhece o resultado e que vai questionar o processo por supostas fraudes ligadas a votos do exterior.

Esse é o tema do podcast de política internacional O Estrangeiro, que recebe o analista político Hugo Albuquerque e a jornalista Kátia Marko, do Brasil de Fato Rio Grande do Sul.

Derrota na Colômbia

De acordo com Hugo Albuquerque, o cenário de agora na Colômbia não difere tanto do de 2022, quando Gustavo Petro foi eleito. O especialista defende que não foi “uma goleada”.

“A Colômbia tem um problema, que é não ter reeleição. Você acaba tendo que submeter um candidato após quatro anos, que é um período muito curto”, comenta Albuquerque. “O Petro estava se recuperando, as últimas pesquisas indicavam um crescimento de aprovação do seu governo, muito em virtude da melhora da economia.”

Iván Cepeda, militante histórico da esqueda no país, foi escolhido como sucessor, mas não conquistou a vitória em lugares que fariam a diferença, como Bogotá. “O voto progressista na Colômbia é um voto da costa, como Cali”, analisa Albuquerque.

O cientista político destaca como positiva a campanha contra a abstenção, que levou muita gente às urnas no segundo turno, mesmo em uma realidade marcada pela violência política. “Mas, mesmo com quórum, o resultado foi muito parecido. Em 2022, a direita também chegou de última hora e conseguiu levar Rodolfo Hernández a ter votação boa contra o Petro, com margem pequena. E o Abelardo também foi criado de última hora, com a mistura de Bukele, de Milei, um pouco de Bolsonaro, e a coisa do combate ao crime.”

Governabilidade em tempo de polarização

Albuquerque avalia que Abelardo não terá maioria do Congresso, assim como Cepeda, caso tivesse vencido, não teria. “O Congresso está rachado, assim como no Brasil. Mas acho que ele terá problemas se quiser governar a Colômbia como Bukele fez em EL Salvador, porque a Colômbia é muito maior, então a tendência é aumentar a violência política”, aponta.

No caso do Peru, o analista acredita que Keiko Fujimori encontrará ainda mais dificuldades. “Ela não terá maioria na Câmara e terá metade dos senadores, caso consiga uma aliança. A gente precisa entender se ela não vai passar o trator. Porque ela vai ter os militares, os empresários limenhos, os Estados Unidos, mas ela vai ter uma dificuldade institucional. Ela pode ter um governo paralisado”, explica.

Assim como na Colômbia, lembra o analista, “você tem regiões inteiras que rechaçaram e rechaçam a Keiko, mas votaram nela contra a esquerda.” Ele compara a posição ao antipetismo no Brasil.

Big Techs e eleições

Para Katia Marko, outro resultado na Colômbia seria possível caso a reeleição fosse permitida no país. Contudo, a jornalista traz para o debate algo que considera crucial no atual momento na América Latina como um todo: a ingerência dos Estados Unidos por meio das big techs.

“Essa guerra híbrida, cognitiva, que a gente vem vivendo no mundo, mas com muita força na América Latina. Essas grandes plataformas — e Elon Musk já declarou isso — não enxergam as democracias como a gente vem trabalhando até hoje e a forma com que a gente acha que está disputando eleições. A disputa pelas fake news, pela Inteligência Artificial, acaba tendo muito poder. A gente precisa analisar isso para entender o que aconteceu na Colômbia, no Peru, na Bolívia, na Venezuela e o que vai acontecer no Brasil. Não estamos falando de uma democracia clássica como tivemos até hoje”, avalia.

Marko também destaca que existe uma perseguição de forma geral na América Latina contra movimentos populares, sob a justificativa de combater o narcoterrorismo. “Essa sensação de perigo é muito disseminada pela grande imprensa, e isso em todos os nossos países da América Latina. Isso é o que a gente vem chamando de guerra cognitiva, que é a guerra nas mentes humanas. É uma guerra que disputa o sentido da vida e isso interfere nas eleições”, relata.

Confira o programa completo no link abaixo:

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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