“Virou uma grande planilha de feats.” A frase de Thiago Pethit sintetiza o diagnóstico que o cantor e compositor faz da música contemporânea no episódio 101 do Sabe Som?, podcast do Brasil de Fato, apresentado pelo musico Thiago França. Em uma conversa que atravessa pandemia, mercado e criação artística, o músico reflete sobre o esvaziamento das cenas culturais e o impacto do algoritmo sobre a arte.
Para ele, o período pós-pandêmico deixou marcas profundas nas relações entre artistas, e a ideia de coletivo, que marcou o início de sua trajetória, foi sendo substituída por uma lógica mais individualizada e estratégica.
“Eu acho que antes da pandemia a gente tava assim, tinha uma coisa coletiva, né? Assim, no sentido nós, na música. […] Não tenho mais uma coisa da coletividade. Tem uma coisa do tipo: Vamos fazer um feat, uma collab, não sei o quê e vamos ver o que que dá, o que vai render para cada um.”
Segundo Pethit, o que começou como promessa de democratização se transformou em um espaço regido por impulsionamento financeiro e métricas. Para ele, essa lógica produz um efeito direto sobre a criação musical: “O algoritmo é anticriatividade total, né? Ele é anticriação.”
Para ele, o ambiente digital consolidou esse deslocamento. Sete anos após seu último disco autoral, ele afirma não se orientar por uma lógica linear de carreira, que a ideia de transformar cada lançamento em estratégia de conteúdo o desanima. “Esse lugar da criação de conteúdo, para mim, ele é o anti-eros, assim, é o antidesejo, é o lugar mais tanático, mais morte que eu consigo imaginar, sabe?”
E complementa: “A música eu faço. E acho que isso é o mais importante, assim, para mim. […] A parte da divulgação de um trabalho, né? É chegar em mais pessoas. Mas em que condições?”, questiona.
Um disco que ‘não terminou de dizer’
Lançado em 2019, Mal dos Trópicos reaparece na conversa como um trabalho que ainda reverbera o clima político e social do país. Concebido antes da pandemia, o álbum foi atravessado por ela e pelo contexto político que a antecedeu — e, segundo Pethit, nunca deixou de ecoar.
“É um disco que eu acho que ele não vence, assim, na minha cabeça, ele é um disco que ele não venceu até hoje, assim. […] É um disco de mal-estar e é um mal-estar que não acabou, assim, é um disco pré-Bolsonaro, prevendo Bolsonaro, é um disco que caiu na pandemia, assim, parecia feito para pandemia.”
A crise sanitária, no entanto, não foi apenas sanitária. Para o artista, o impacto político e social foi determinante naquele período. “A nossa pandemia não foi só uma pandemia. Não foi só uma questão sanitária.” Ele avalia que o momento desarticulou vínculos, enfraqueceu cenas culturais, especialmente em São Paulo, e alterou profundamente as formas de convivência e criação.
Ainda assim, ele reconhece que, mesmo fora da lógica do mercado, surgiram trabalhos fundamentais naquele contexto. “Eu acho que tem coisas que foram muito interessantes ali sendo feitas, como por exemplo o disco da Lin da Quebrada, que foi um disco que eu fiz a preparação e foi um disco que mexeu muito comigo. Foi um disco bem no meio da pandemia, assim.”
Ao comentar o processo, Pethit destaca a mudança estética da artista. “Foi um disco curioso, porque a Lin, por exemplo, vinha do disco anterior dela, que era um disco bem gritado, bem agressivo, bem punk, para se dizer assim, né? E que de repente veio um outro aspecto, que tinha uma melancolia e uma doçura e uma espécie de mal-estar também. Então você vê as letras de repente ganharem sentidos mais profundos naquilo tudo.”
Entre a carreira e o desejo
Nos últimos anos, o artista encontrou no cinema um novo campo de criação coletiva, assinando trilhas sonoras para longas e curtas. A experiência, segundo ele, reaproximou a arte da troca. “É um outro tipo de troca, né? É uma coisa de ninguém é que está competindo, a gente já está em área diferente. Tem os diretores, tem os atores, e tem eu fazendo a trilha. Está todo mundo caminhando junto para um objetivo, para uma ideia mais coletiva mesmo assim, né?”
Por fim, Pethit revela o objeto que simboliza sua trajetória: uma coroa do Teatro Oficina. Mais do que lembrança, a peça representa uma força que ele chama de dionisíaca, por ser um impulso de desejo, risco e criação que escapa à racionalidade produtivista.
“Acho que é um motor de ideal mesmo. Essa ideia dionisíaca, ela me guia mesmo, assim, me guia nas decisões, me guia nos desejos, me guia nos encontros. […] Eu sou artista porque tenho esse antídoto. […] Acho que a arte que ela salva, sabe? Ela abre caminho. E eu acho que essa é minha fé.”
