A megaoperação policial realizada na última terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou ao menos 121 mortos e se tornou a mais letal da história do país, superando o massacre do Carandiru, em 1992, quando 111 presos foram assassinados pela Polícia Militar de São Paulo. Classificada como “bem-sucedida” pelo governador Cláudio Castro (PL), a ação tem sido apontada por especialistas como uma evidência do colapso do modelo de segurança fluminense e provocou cobranças por protagonismo do governo federal.
“Uma ação do Estado cujo final tem 121 mortes é um fracasso absoluto. Não existe aspecto a ser apontado como sucesso”, rebateu o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência, João Trajano Santos Cé, em entrevista ao podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato. Para ele, o episódio mostra que o Rio “não tem política de segurança, tem política de guerra patrocinada pelo Estado”.
O ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino fez o mesmo diagnóstico. “Esse modelo de segurança pública está em xeque. Ele é ineficaz. Ele não protege a sociedade, não protege a população. Por isso, fazem esses espetáculos, não pegam a cabeça, a lavagem de dinheiro, a cúpula”, avaliou. Genoino classificou a incursão como “uma operação sem alvo, sem objetivo determinado. Era ocupar a região e matar as pessoas”.
Comparando a operação com a Carbono Oculto, da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo (MPSP), que atingiu o financiamento do Primeiro Comando da Capital (PCC) sem disparar tiros, Trajano destacou o contraste entre as abordagens. “A capacidade de estrangulamento das atividades dessas facções é muito maior se nós vamos exatamente naquilo que permite que elas se sofistiquem, que são os recursos financeiros e as conexões com o mundo legal”, explicou. “Partindo da ideia de que esses 121 mortos seriam pessoas ligadas ao tráfico, você perdeu ontem 121 testemunhas”, completou.
O professor também criticou a autonomia das polícias estaduais e o papel conivente de instituições de controle. “As polícias no Brasil têm uma margem de autonomia absurda em relação ao poder civil, e isso é chancelado por órgãos como o Ministério Público”, afirmou. “O órgão que deveria exercer controle externo é parceiro de um absurdo desse”, lamentou.
Os entrevistados lamentaram ainda a demora de uma manifestação mais enfática e solidária do governo Lula (PT). Trajano falou em um “total desamparo dessas pessoas”, e Genoino reforçou a necessidade de acolhimento às famílias e comunidades atingidas. “Eles estão normalizando a barbárie. Quando a violência contra os outros não gera indignação em nós, diminuímos nosso compromisso com o processo civilizatório do ser humano”, apontou o ex-deputado.
Extrema direita ocupa vácuo
Para a vereadora e secretária municipal Tainá de Paula (PT-RJ), a operação também mostra como a extrema direita domina o debate sobre segurança. “Há uma grande inabilidade de nós não compreendermos a necessidade de ter uma centralidade na pauta da segurança pública, tendo em vista que a extrema direita belicosa e ausente da discussão de direitos humanos não se furta em fazer sua promoção pessoal”, criticou.
A parlamentar defendeu a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que tramita na Câmara dos Deputados. Para ela, o projeto permite que estados com alta letalidade policial tenham um controle federal efetivo e uma maior transparência no uso de recursos públicos. “O Rio de Janeiro investe R$ 19 bilhões por ano em segurança pública e R$ 10 bilhões em educação. Há investimento público, mas não há o controle público desse dinheiro. Só contamos os corpos, e eles contam os desvios”, condenou.
Ela também cobrou ação uma direta do governo federal. “Estados que têm dados de segurança pública extremos precisam ter controle que é federal. A Polícia Federal precisa ser compelida e estimulada a exercer o seu poder nos estados”, disse.
‘GLO não resolve’
Genoino criticou a tentativa do governador Cláudio Castro de convocar uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e afirmou que a presença das Forças Armadas em ações de segurança é ineficaz. “GLO não resolve. Você não pode colocar as Forças Armadas prestando um serviço corriqueiro paralelo a uma operação desse porte. Se era para fazer com o governo federal, tinha que fazer uma reunião de alto nível”, afirmou.
O ex-deputado apoiou a criação de um Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) com comando civil e integração entre União, estados e municípios, também uma premissa da PEC. “O modelo de segurança pública que está na Constituição de 1988 está falido. Segurança pública não é guerra. É ação preventiva, inteligente e competente”, defendeu.
Para ouvir e assistir
O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda quinta-feira, às 11h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.
