Extrema direita

CPI do Crime Organizado tende a virar palanque e não enfrentar milícias, dizem especialistas

Pesquisadores avaliam que comissão repete velhas fórmulas e ignora controle das polícias e inteligência financeira

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nstalada nesta terça-feira (4), a comissão tem 120 dias para produzir um diagnóstico sobre o crime organizado no Brasil e propor medidas para combater facções e milícias
nstalada nesta terça-feira (4), a comissão tem 120 dias para produzir um diagnóstico sobre o crime organizado no Brasil e propor medidas para combater facções e milícias | Crédito: Lula Marques/Agência Brasil

A pesquisadora Carolina Grillo, do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e o historiador Valério Arcary avaliaram que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, instalada no Senado, tem um alto risco de se transformar em um palco eleitoral. Enquanto isso, operações letais, como a que matou 121 pessoas no Rio de Janeiro, vão continuar acontecendo sem reduzir o poder de facções criminosas e milícias.

Os especialistas foram entrevistados no podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato. Grillo afirmou ter recebido com otimismo a notícia da instalação da CPI, destacando a importância de investigar as relações entre crime organizado e política.

“Quando eu tive notícia de que essa CPI seria instalada, fiquei muito otimista, principalmente para que se possa investigar as relações entre o crime organizado e a política”, disse. O tema, segundo ela, é pouco enfrentado no debate público. “Eu não percebo um interesse por parte de muitos grupos políticos em tematizar a questão das milícias porque realmente há muitas candidaturas políticas que acabam possuindo relações, tentáculos com milícias aqui no Rio de Janeiro”, explicou.

No entanto, para Arcary, a comissão “vai ser um palanque da extrema direita” e está “indissociável da operação de chacina que foi organizada pelo [governador do Rio de Janeiro] Cláudio Castro”.

O historiador acredita que as ações de extermínio não desestruturam o crime. “O apelo que as organizações criminosas têm é maior do que o medo da repressão do Estado. Para uma parte da juventude popular, a oportunidade de construir uma vida com um horizonte de felicidade é muito reduzida”, disse.

A pesquisadora lembrou também o efeito do encarceramento. “Na década de 1990, [a população carcerária] era da ordem dos 100 mil presos. Hoje em dia, temos quase 1 milhão”, comparou. Na sua avaliação, é crucial frear grupos corruptos nas corporações. “Há a necessidade de que haja um controle mais rigoroso sobre o uso da força por parte de policiais. São operações que, muitas vezes, são realizadas para impor o pagamento de um arrego”, denuncia.

Ao contrário de incursões policiais, operações de inteligência são uma referência de ação eficaz, avalia Arcary. “O exemplo mais extraordinário foi a Carbono Oculto, que atingiu o núcleo central do PCC [Primeiro Comando da Capital, em São Paulo]”, citou. Grillo concordou. “Houve a possibilidade de confiscar um volume gigantesco de recursos na ação federal”, completou.

Por fim, a pesquisadora questionou as propostas de equiparar facções a terrorismo. “Em termos legais, as penas são as mesmas, mas não se trata de uma organização terrorista, não há nenhuma pretensão de mudança de regime político, de espalhar pânico na população para fragilizar as instituições, não se trata disso”, comparou.

Como possível solução, Arcary defendeu respostas sociais e a revisão da política de drogas. “Não há solução militar. Nós precisamos de um pouquinho de socialismo”, defendeu. Já Grillo pediu mais foco em prevenção e juventude. “Um programa muito interessante é o Pronasci Juventude. Há que se pensar em preservar a vida do jovem negro pobre e favorecer a inserção no mercado de trabalho”, exemplificou.

Para ouvir e assistir

O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda quinta-feira, às 11h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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