INTOLERÂNCIA

Mais de 76% das agressões contra jornalistas que cobrem as eleições vieram da direita

Desde maio do ano passado, foram 129 registros de agressões físicas e ataques digitais contra profissionais da mídia

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Em março deste ano, o ônibus de jornalistas que acompanhava a caravana do Lula foi atingido por tiros / Daniel Giovanaz/Brasil de Fato

O radicalismo de direita e de extrema direita é o responsável pela maioria de ataques contra jornalistas que trabalham em contexto político, partidário e eleitoral. O dado é um alerta significativo das ameaças à liberdade de imprensa e a democracia no Brasil.

De acordo com o relatório da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), foram 129 atos de violência contra profissionais da imprensa, de maio de 2017 ao início de outubro de 2018, período que compreende a cobertura das eleições. Deste total, 98 ocorrências envolvem agressores ligados a candidaturas de direita. 

Dos 59 registros de agressões físicas, 31 foram praticados por militantes da direita. Já no caso dos 70 casos de ataques digitais e incitação de ódio pela internet, 67 partiram dos conservadores. 

Segundo a gerente executiva Marina Atoji, da Abraji, o número real de ataques pode ser maior. 

"Antes de tudo, é importante notar que é um levantamento parcial, certamente há casos que a Abraji não toma conhecimento, dado a amplitude do país e das redes sociais. A ideia é produzir dados sobre este fenômeno, para conhecer a extensão dos ataques, dar visibilidade a eles e pensar o que pode ser feito para previni-los e reduzi-los", disse.

O jornalista Leonardo Sakamoto, que atua na cobertura da eleições e também em Direitos Humanos, é um dos profissionais brasileiros que mais sofreu com esse tipo de ameaça. 

"Nessa eleição, essencialmente, a gente tem sentido um aumento de ataques. Não deixa de ser surpreendente a facilidade com que alguém aborda um estranho a rua e faz uma ameaça de morte como se estivesse indo na padaria. Como se a falsa sensação de anonimato das redes estivesse transbordando para o lado de fora ", disse.

O relatório produzido pela Abraji também revela o perfil dos agressores. 

"Na esfera digital, a maioria dos ataques vem de perfis ditos politicamente conservadores, com grande alcance, incluindo promotores de Justiça, como o Ailton Benedito de Souza, do MPF [Ministério Público Federal] de Goiás, e Marcelo Rocha Monteiro do MP [Ministério Público] do Rio de Janeiro. Outros autores de destaque são influenciadores como Danilo Gentili, Flávio Gordon, MBL e Rodrigo Constantino. O Twitter e o Facebook foram os meios mais utilizados", disse.

Caravana

Um dos casos mais graves foi o atentado a tiros contra o ônibus que levava os jornalistas que acompanhavam a Caravana Lula Pelo Sul do País, no final do mês de março deste ano.

O jornalista Eduardo Matysiak, que estava na caravana à trabalho, relata que houve diversos episódios de incitação de violência e ódio por parte da direita.

"O pior disso tudo é o racha. Se você fala do Bolsonaro, você é Lula, é esquerdista. Eles não aceitam nada, a não ser a verdade deles. Agora está mais evidente, porque temos aí um candidato que prega o ódio e que deixou isso claro. Façam que não será punido", disse.

Apoiadores próximos ao candidato Jair Bolsonaro que, inclusive, participam das articulações da campanha do PSL, protagonizaram casos de perseguição a jornalistas e estão no relatório do Abraji, como o ator Alexandre Frota e Letícia Catel, assessora informal da campanha.

Letícia publicou uma vídeo na internet expondo uma jornalista que havia entrevistado o militar reformado. A assessora do candidato leu uma mensagem particular  sem autorização, na qual a jornalista dizia que "precisamos sobreviver à Bolsonaro", e fez um vídeo coagindo a jornalista. 

 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira