EUROPA

Novo premiê britânico deve forçar saída da União Europeia, com ou sem acordo

Escolhido para suceder Theresa May, Boris Johnson tem postura mais dura e pode levar a uma separação a qualquer preço

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Boris Johnson assumiu a tarefa de suceder Theresa May, que anunciou, em maio, sua renúncia ao cargo / Foto: Isabel Infantes/AFP

O Reino Unido conheceu nesta terça-feira (23) o novo líder do governista Partido Conservador e, por conseguinte, seu novo primeiro-ministro. Como já era esperado, o ex-chanceler britânico Boris Johnson assumiu a tarefa de suceder Theresa May, que anunciou, em maio, sua renúncia ao cargo. 

A troca ocorre no momento em que os britânicos decidem o futuro do Brexit, processo de separação entre o Reino Unido e a União Europeia, aprovado em junho de 2016 por meio de um referendo. De lá para cá, no entanto, a concretização do divórcio foi barrada sucessivamente pelo Parlamento britânico. 

Johnson, que tomou posse oficialmente nesta quarta-feira (24), e foi um dos principais agitadores do Brexit, deverá assumir uma postura mais dura que sua antecessora, podendo inclusive concluir a separação sem um acordo, o que preocupa parte dos britânicos. 

Os fracassos de May

Embora a aprovação do Brexit pudesse parecer, em um primeiro momento, a parte mais complicada da separação com o bloco europeu, os anos seguintes demonstraram que a grande dificuldade seria aprovar o acordo de saída no Parlamento britânico. 

May assumiu a missão de concluir o divórcio um mês depois do referendo, sucedendo o então primeiro-ministro David Cameron, que renunciou ao cargo. Cameron apoiava a permanência do Reino Unido na UE. 

De lá para cá, passados três anos, a ex-premiê iniciou um longo processo de negociações com Bruxelas, sede da administração da UE, além de enfrentar a oposição e seus próprios correligionários no Parlamento Britânico. 

O primeiro passo foi aprovar os termos do pacto com os líderes da UE, instituição composta por representantes dos 28 países do bloco. A assinatura ocorreu em 25 de novembro, após serem discutidos inúmeros pontos sobre como o divórcio deveria ocorrer. 

Após May chegar a um consenso com Bruxelas, foi a vez do acordo, um documento de 585 páginas, ser votado no Parlamento britânico. O texto foi levado para a casa em três ocasiões, a primeira ocorreu em 15 de janeiro e representou uma derrota histórica para May: o pacto foi rejeitado por 432 votos contra 202.

Aproximando-se do primeiro prazo final para a separação, inicialmente marcada para ocorrer em em 29 de março, May levou o texto com alterações para mais duas tentativas de aprovação, em 12 de março e 29 de março

Neste meio tempo, a ex-premiê foi alvo de duas moções de desconfiança, uma movida pelo opositor Partido Trabalhista, e outra por seus próprios correligionários do Partido Conservador, que estavam insatisfeitos com o atraso do Brexit. 

A não aprovação do acordo levou May a pedir que a UE adiasse o prazo para separação duas vezes. A última data-limite estabelecida pelo Conselho Europeu é 31 de outubro. 

May deixou o cargo oficialmente nesta quarta-feira. 

Boris Johnson

Especialistas acreditam que Johnson terá um caminho mais fácil na questão do Brexit, tanto por sua postura mais agressiva quanto pelo esgotamento criado em torno do assunto

Em seu discurso de posse, o novo premiê deu o tom do novo governo. “O povo britânico já se cansou de esperar, e chegou a hora de agir para dar uma liderança forte”, disse. 

Para o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP), Pedro Feliú Ribeiro, Johnson deverá jogar mais duro com o Parlamento britânico ao colocar na mesa a possibilidade de uma separação sem acordo, o chamado "no deal". Caso isso ocorra, o país deixará o bloco europeu sem um período de transição, cortando todos os laços com a UE de um dia para o outro, o que traria inúmeros prejuízos para o Reino Unido.

“O parlamento pode preferir um acordo pior [que o de May] mas sem tantos danos quanto o no deal. Boris pode chegar com uma agenda mais radical nesse sentido”, explica Feliú. 

Johnson, que além de chanceler foi prefeito de Londres entre 2008 e 2016, é um dos principais agitadores do Brexit e afirmou em diversas ocasiões que o Reino Unido deixará de fazer parte da UE até a data-limite de 31 de outubro, com ou sem acordo. 

Durante a campanha pela separação, ele ficou conhecido por ataques contra a UE, sendo muitas vezes acusado de mentir em suas declarações. Em uma das vezes, chegou a dizer que o país enviava 350 milhões de libras (aproximadamente R$1,6 bilhão) por semana à UE. Na época, críticos apontaram o exagero nas cifras e disseram que Johnson não considerou a quantidade de dinheiro que é devolvida pela UE, ou mesmo a parte da remessa que é devolvida para o Reino Unido. 

Em um plano mais amplo, o conservador é alinhado a uma tendência que ganhou força nos últimos anos e teve um papel essencial para o crescimento da extrema direita no continente europeu: a retórica anti-imigração e contra a integração europeia. A tendência está em sintonia com representantes ultranacionalistas europeus, como Matteo Salvini, na Itália, e Marine Le Pen, na França. 

Desafios do sucessor de May

O novo premiê britânico enfrentará uma série de dificuldades para dar prosseguimento ao Brexit, tendo que lidar com um Conselho Europeu cada vez mais fechado para a possibilidade de renegociar os termos da separação.

Sendo assim, é possível que Johnson tenha que levar o mesmo acordo de May para votação em um Parlamento britânico bastante polarizado.

Embora seja difícil precisar todas as consequências do "no deal", é possível dizer que elas seriam catastróficas, uma vez que diversos setores seriam afetados pelo encerramento da livre circulação de bens e serviços entre os países da UE.

Além do impacto econômico imediato, montadoras de veículos podem ficar paralisadas em questão de dias por falta de peças de reposição; o direito de circular e trabalhar em diferentes países da UE seria afetado; e o início de um controle mais rígido entre as fronteiras poderia gerar escassez de alimentos e medicamentos.

Um dos principais pontos de conflito diz respeito ao possível fechamento da fronteira entre a Irlanda do Norte (que faz parte do Reino Unido) e a República da Irlanda (país independente, membro da União Europeia). 

A eliminação da fronteira entre os dois territórios foi um dos principais arranjos do acordo de paz de 1998, que encerrou os conflitos entre defensores de um único território irlandês integrado à Grã Bretanha e defensores da República da Irlanda como Estado independente. 

Além disso, o Partido Conservador está bastante desgastado pelo já longo processo do Brexit. A legenda foi a quinta mais votada nas eleições para o Parlamento Europeu, conquistando apenas cinco assentos no pleito que ocorreu em maio.

A derrocada do partido também ficou evidente durante as eleições municipais. Na ocasião, os conservadores perderam mais de 1.300 cadeiras e o controle de quase 40 governos locais.

Edição: João Paulo Soares