Auxílio na Pandemia

Profissionais do esporte pressionam por rápida sanção de PL que socorre segmento

Aprovado na Câmara, texto pode esperar até 15 dias para ser chancelado por Bolsonaro

Brasil de Fato | Fortaleza (CE) |

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Hoje com 21 anos, atleta de taekwondo Macielvis Sousa tem o esporte como via de lazer e sustento - Arquivo pessoal

 

 

O estudante Macielvis Sousa, morador de Fortaleza (CE) e atleta de taekwondo, é um lutador no esporte e na arte de viver. Hoje com 21 anos, ele enfrenta diariamente uma rotina dividida entre a venda de jujubas em semáforos da capital e o desafio de administrar as despesas pessoais e profissionais em meio ao agravamento da crise socioeconômica do país. Diante dos estragos da pandemia, que levou à suspensão de campeonatos e eventos do gênero, o cearense é um dos muitos esportistas que aguardam com ansiedade a liberação do auxílio emergencial para trabalhadores do ramo.

Aprovada na última terça-feira (22) pela Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), por meio do Projeto de Lei (PL) 2824/20, a proposta prevê o encaminhamento de até R$ 1,6 bilhão ao segmento por conta da pandemia. A principal medida do PL é a liberação de um benefício de R$ 600 durante três meses para os profissionais da área que não tenham sido contemplados pelo auxílio emergencial aprovado em abril por meio da Lei 13.982/20 – que surgiu após intensa disputa entre parlamentares de diferentes bancadas e a equipe econômica do governo Bolsonaro, contrária à medida.  

Na época, alguns profissionais que atuam na cadeia do esporte conseguiram acessar o auxílio por conta do caráter informal de suas condições de trabalho, outros não. “Falaram que muita gente poderia ser aprovada, e eu não fui. Muitos atletas da minha equipe também não foram. Isso pesou pra gente, porque precisamos estar ali recebendo. Não estávamos, enquanto muita gente que não tinha nem direito estava recebendo mais que a gente”, compara Macielvis, ao fazer referência às denúncias de fraude na liberação do benefício.  

Agora, com a aprovação do PL 2824/20, que se arrastava desde maio no Congresso Nacional, o atleta de taekwondo conta que tem monitorado as páginas virtuais que mostram o andamento da proposta. Pelas normas vigentes, esse tipo de texto pode levar até 15 dias para ser sancionado pelo presidente da República, podendo ainda ser parcialmente vetado.

Enquanto o dinheiro não chega, Macielvis calcula os custos e prejuízos da pandemia e do abandono em que vive o setor de esportes no país. Antes do coronavírus, o atleta ganhava entre R$ 600 e R$ 1.200 mensais para treinar e lutar. Também fazia trabalhos paralelos como árbitro para receber cerca de R$ 100 a R$ 150 por diária em campeonatos, que são eventuais e duram geralmente dois ou três dias.    

Com a pandemia, o atleta viu os rendimentos despencarem junto com o corte de bolsas de incentivo a esportistas e a suspensão dos campeonatos. Com isso, foi parar nos sinais de trânsito de Fortaleza para vender balas e garantir uma renda mínima. Ele conta que a espera pela liberação do auxílio amplia a expectativa e os desafios dos competidores.

 “[O valor aprovado] poderia ser maior, claro. Mas, se esse dinheiro sair realmente – e eu espero que saia rápido –, vai ser ótimo porque muitos atletas poderiam colocar tudo no seu devido lugar. Nossa vida está uma bagunça. A gente está se virando como pode, tentando vender coisas como pode. Tenho amigos que estão vendendo os equipamentos pra se manter ou dando aula particular e outros que ganhavam pra dar aula e não estão conseguindo ganhar. Se sair, seria a melhor coisa do mundo”, afirma Macielvis.

Paraolímpico

Outros nomes do ramo entoam o mesmo coro e ressaltam a importância de se socorrer o setor neste momento. O nadador paraolímpico brasileiro Clodoaldo Silva, conhecido como “Tubarão das Piscinas”, por exemplo, fez uma provocação pública ao governo na última quarta (23), em texto publicado no portal UOL.  

Ele realçou um detalhe do PL 2824/20 tido como relevante e ainda pouco explorado: o trecho que insere o Comitê Brasileiro de Clubes Paralímpicos (CBCP) no Sistema Nacional do Desporto (SND). A novidade preenche um vácuo deixado pela Lei 9.615/98 e tende a impulsionar o segmento porque, entre outras coisas, esse tipo de comitê cuida da canalização de verbas públicas voltadas ao esporte.  

“Se o Brasil já se tornou uma potência paralímpica sem um trabalho mais robusto direcionado para os clubes, associações e entidades de base, imagina com a sanção do PL 2824? É urgente e providencial a sanção desse PL, senhor presidente da República”, pressionou Clodoaldo, que está entre os atletas mais populares do país.    

Operação

Em meio aos debates sobre a importância do PL, o vice-presidente da Federação Universitária Cearense de Esportes, Marcelo Soldon, levanta também outro aspecto: uma possível demora na liberação do benefício pode embarreirar o fluxo da verba, cuja distribuição vai contar com a participação de entidades oficiais do setor. O motivo está no texto do PL, que exige que os beneficiários estejam tenham cadastro no segmento esportivo, e no perfil ainda amador da maioria das organizações.   

Soldon destaca que o setor é marcado por práticas que destoam das necessidades administrativas e profissionais do mundo do esporte. Por conta disso, a chegada do dinheiro até o bolso do atleta e dos demais trabalhadores pode sofrer entraves relacionados à falta de estrutura das entidades.

 “O nicho do esporte é tratado como entretenimento. Na parte profissional, você tem praticamente o futebol e algumas raríssimas exceções no vôlei e no basquete, com algumas ligas, mas todo o segmento esportivo é muito amador. Pode ser muito difícil coordenar tudo isso”, argumenta o vice-presidente, que tem experiência com logística e gestão na Copa do Mundo da Fifa de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.  

Soldon pontua ainda a importância que o benefício pode ter na oxigenação do setor de esportes porque vai ajudar os profissionais a administrarem melhor as necessidades materiais que surgiram com a pandemia. Um auxílio que as próprias modalidades e entidades de cada ramo, mais uma vez, não terão condições estruturais de suprir.  

“Numa atividade esportiva pra treinamento, por exemplo, não é toda associação que vai conseguir dar as condições necessárias pra que o atleta retome. [São] coisas básicas, como máscara, álcool em gel, uma roupa de treino que ele precisa trocar com mais frequência. Um atleta de lutas, por exemplo, precisa trocar com mais frequência porque vai ter contato [mais próximo] com outro atleta, e por aí vai. Acho que o auxílio vai ajudar mais nesse sentido, de acelerar a retomada”, projeta.

O benefício

O texto do PL aprovado pelo Congresso Nacional é destinado a trabalhadores autônomos da área de educação física. Entre as categorias atendidas, o projeto cita atletas e paratletas, árbitros e auxiliares, preparadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, massagistas e outros segmentos que atuam em competições. Cronistas, jornalistas e radialistas do esporte também foram incluídos, mas não podem ter ligação com clubes ou outras entidades nacionais de administração relacionada ao segmento.

A proposta prevê como exigências que o profissional seja maior de 18 anos, não tenha emprego formal, não receba benefícios assistenciais ou previdenciários. Também é necessário ter renda familiar per capita de até meio salário mínimo ou renda familiar mensal total de até três salários. A medida não vale, por exemplo, para quem está recebendo seguro-desemprego.

No caso de mulheres que sejam provedoras de família monoparental, serão liberadas duas cotas, ou seja, três fatias de R$ 1.200. Pelo texto, estão aptos a receber as três parcelas de R$ 600 aqueles que tenham atuado na área esportiva nos 24 meses anteriores à data de publicação da proposta, caso ela se torne lei, e que tenham cadastro na área.   

Atletas ou paratletas com idade mínima de 14 anos também poderão ser beneficiados se tiverem ligação com clube esportivo ou alguma organização de alcance nacional, como é o caso de federações e confederações, por exemplo.   

Edição: Rodrigo Durão Coelho