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O que está em jogo para os EUA e a América Latina com a Cúpula das Américas?

Entre boicotes e tensões políticas, evento acontece nesta semana em Los Angeles, Estados Unidos

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Secretário-geral da OEA, Luis Almagro, e o presidente dos EUA, Joe Biden, serão os anfitriões do evento - OEA

A Cúpula da Américas acontece nesta semana na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Los Angeles, Estados Unidos, com uma série de polêmicas sobre os participantes. Apesar das pressões de distintos países, a Casa Branca decidiu banir a presença de representantes de Cuba, Venezuela e Nicarágua. 

Em protesto, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, decidiu não comparecer ao evento. O presidente boliviano Luis Arce também disse que não irá participar do encontro, assim como os chefes de Estado e de governo das 14 nações que compõem a Comunidade dos Estados Caribenhos (Caricom).

"Não pode haver uma cúpula das Américas sem a participação de todos os países do continente americano ou até pode haver, mas consideramos que isso representa seguir com a velha política de intervencionismo, e falta de respeito às nações e aos seus povos", declarou López Obrador. 

O chefe de Estado argentino, Alberto Fernández, teceu críticas sobre as exclusões, mas decidiu ir a Los Angeles e disse que levaria a voz da Comunidade do Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) — organismo atualmente dirigido pela Argentina — para o espaço.

Quando foi fundada, em 2010, a Celac se propunha ser um organismo alternativo à OEA. Meios de comunicação argentinos resenham que a decisão de Fernández teria sido um acordo com Obrador e outros governantes dos países excluídos da Cúpula para representar as vozes destoantes no evento.

"Os temas que Alberto Fernández pode discutir talvez são investimentos, porque a Argentina necessita a entrada de dólares. O que se espera é que ele faça um discurso duro cobrando uma postura não intervencionista dos EUA na região, como prometeu aos países que foram excluídos", analisa o
jornalista e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni.

"Ao vivo: palavras de abertura do país anfitrião EUA e o secretário-geral Luis Almagro no primeiro dia do Fórum Sociedade Civil. Não perda o evento, siga ao vivo"

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, repudiou a postura dos EUA, "o que estão fazendo é um ato de discriminação". Maduro também agradeceu o apoio do seu homólogo mexicano e ainda sugeriu a Fernández convidar o presidente Joe Biden para uma cúpula da Celac "para escutar a dignidade da nossa história", disse em transmissão televisiva. 

Com o tema "Construindo um futuro sustentável, resiliente e equitativo", a Organização dos Estados Americanos organiza sua IX Cúpula em meio à crise de legitimidade do organismo por denúncias da sua conivência com golpes de Estado, como na Bolívia em 2019, e na Venezuela, reconhecendo o opositor Juan Guaidó como autoridade do Executivo. 

"Os temas que interessam os EUA são em especial: a presença da China na região, que é o principal parceiro econômico de vários países, e uma certa legitimação das políticas de Washington em relação à guerra na Ucrânia. E aí o principal alvo é o Brasil, que tem uma posição ambígua em relação à Rússia, e a Argentina, já que o presidente Fernández esteve algumas semanas antes do início do conflito numa audiência com [o presidente da Rússia Vladimir] Putin", analisa Maringoni, membro do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil. 

Outro assunto é o aumento da produção de petróleo diante da suspensão da compra de combustível russo. Nesse caso, Colômbia, Equador, Venezuela e Brasil são os países com a indústria petrolífera mais proeminente na região.

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Maringoni avalia que, para Biden e Jair Bolsonaro (PL), prevalece um interesse eleitoral no evento. Por um lado, o chefe da Casa Branca pode perder a maioria no Congresso nas eleições de meio termo, que acontecem em novembro. Por outro, Bolsonaro também corre o risco de perder as eleições de outubro pra o ex-presidente Lula da Silva, segundo as pesquisas de opinião.

"A ida a Los Angeles deve ser entendida nessa lógica, provavelmente o que ele vai discutir é o aumento de investimento estadunidense imediato no Brasil ou garantias de que os EUA não irão deixar a venda da Eletrobras ou a privatização da Petrobras fracassarem por falta de investidores, portanto ter investimento estadunidense pesado", comenta o professor da UFABC.

"Já Biden precisa de notícias positivas para o seu eleitorado diante das eleições de meio termo que serão realizadas no final do ano. Todas as pesquisas apontam para uma derrota do Partido Democrata para o Partido Republicano", conclui.

Depois que a Venezuela deixou a OEA em 2019, a Nicarágua foi o segundo país a abandonar oficialmente a organização, em abril deste ano. Já Cuba foi banida do organismo ainda na década de 1960.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) foi fundada em 1948 com a assinatura, em Bogotá, Colômbia, da Carta da OEA que entrou em vigor em dezembro de 1951. O objetivo do organismo seria unificar os Estados americanos no pós-guerra, no entanto, sete décadas mais tarde, as cúpulas realizadas a cada quatros anos são marcadas pelas ausências.

"O que interessa na Cúpula são os temas ocultos, ela é uma grande oportunidade para fotos e encontros, mas o peso dela já foi dado na sua preparação. Não acho que sairão decisões importantes desta Cúpula", afirma Maringoni.

Edição: Thales Schmidt