Conjuntura

Análise: reeleição de Pacheco reduz fôlego da crise institucional criada por bolsonaristas

Leitura sobre freio nos conflitos entre Poderes é avaliação conjunta de diferentes personagens do jogo político

Brasil de Fato | Brasília (DF) |

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Pacheco se reelegeu e deverá ficar mais dois anos à frente da presidência do Senado - Roque de Sá/Agência Senado

 

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Apesar de sinalizar algumas dificuldades para o governo Lula no Senado, o placar de 49 votos a 32 que marcou a reeleição de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) como presidente da Casa reduz o calibre da crise institucional criada e alimentada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados. Foi esse o ponto que uniu diferentes comentários, entrevistas e discursos de bastidor que marcaram os momentos sequenciais à eleição na noite de quarta-feira (1º).

O placar não é suficiente para neutralizar a estridente oposição bolsonarista, mas a tendência é que agora os ataques dirigidos ao Supremo Tribunal Federal (STF) tropecem no freio imposto pela derrota do senador e ex-ministro de Bolsonaro Rogério Marinho (PL-RN).

“O resultado confirma o mais importante:  a governabilidade, a grande liderança que o presidente Lula tem hoje no país e a capacidade do Pacheco de expressar a ideia de uma casa com ponderação, com equilíbrio, uma casa que combata o extremismo”, resumiu Flávio Dino (PSB-MA), que se licenciou temporariamente do cargo de ministro da Justiça para tomar posse como senador e participar da eleição da mesa diretora da Casa.

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Rodrigo Pacheco durante primeira coletiva de imprensa após se reeleger presidente do Senado / Jonas Pereira/Agência Senado

“Éramos confiantes nessa vitória e, na nossa opinião, ela ajuda a consolidar o ambiente institucional democrático no Senado e cria um ambiente de diálogo inclusive com setores da oposição, os derrotados [na eleição], pra que a gente possa avançar agora nos projetos prioritários”, acenou o deputado e ministro das Relações Institucionais do governo, Alexandre Padilha (PT-SP).

A ação gravitacional de um conjunto de parlamentares bolsonaristas que tentam disputar o poder no Senado para embarreirar os planos do governo Lula na Casa e fazer valer o legado de Bolsonaro foi o que mais chamou a atenção na disputa que levou à recondução de Pacheco.

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O grupo, que tende a seguir fazendo barulho, é identificado com pautas que miram membros do Supremo. É o caso do impeachment do ministro Alexandre de Moraes e da chamada “CPI da Lava Toga”, pauta que surgiu nos últimos anos como resposta ao que os bolsonaristas chamam de “ativismo judicial” de personagens dos tribunais superiores. 

“Por isso a vitória relativamente tranquila de Pacheco desanuvia a crise que estava se armando caso Marinho fosse o vitorioso. Com Pacheco reconduzido, o ‘terceiro turno’ [eleitoral] foi completamente esvaziado. Foi mais uma vitória contra o bolsonarismo com expectativas golpistas. A agenda de Marinho manteria o confronto com o governo Lula e, de quebra, poderia radicalizar os enfrentamentos com o STF, em particular com Moraes”, ensaia o analista político Marcos Verlaine, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).  

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O clima de vitória de Pacheco alimentou os discursos em favor da democracia no plenário do Senado / Pedro França/Agência Senado

Ainda que pertença ao campo da direita liberal e não seja um clássico apoiador de Lula, Pacheco tem perfil mais moderado, por isso ao longo da corrida concentrou os esforços no sentido de se apresentar como o candidato do diálogo institucional. Foi também sob esse símbolo que a disputa extrapolou os limites do Congresso e ganhou os holofotes nas redes sociais, espaço onde tradicionalmente as eleições internas do Legislativo não têm tanta audiência. “Muitos votaram no Marinho por pressão da base eleitoral dos estados bolsonaristas, os da região Norte e Sul. Agora, vai haver distensionamento”, reforça Verlaine.

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Perfil

Apesar de a eleição do Senado ter reeditado o clima da disputa que se deu em 2022 entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL), Pacheco não esteve sempre ao lado do atual presidente da República. Em 2020, o senador se elegeu para o comando da Casa com o apoio do ex-capitão, então chefe do Executivo.

Embora no primeiro mandato à frente do Senado tenha tido menor alinhamento a Bolsonaro do que teve o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o parlamentar mineiro se comportou como aliado do último governo em diferentes pautas, especialmente na agenda econômica, marcada por uma série de medidas neoliberais e impopulares. Também votou pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016, quando era deputado federal.  


Senadores pró-Pacheco durante primeiras comemorações após mesa diretora do Senado divulgar resultado do pleito / Pedro França/Agência Senado

Agora, com o cenário que o Senado tem neste começo do terceiro governo Lula, o nome de Pacheco se tornou a vitória possível para a ala progressista, que se viu espremida entre a candidatura de extrema direita de Marinho e o favoritismo de Pacheco. “Eu entendo que essa recondução dele representa a vitória daqueles que são contra o ódio e querem uma política de conciliação nacional”, disse ao Brasil de Fato o senador Paulo Paim (PT-RS), ao mencionar a importância de se interromper a crise entre os Poderes.

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Para o petista, a vitória de Pacheco se torna ainda mais relevante diante do contexto pós-atentados de 8 de janeiro, que nas últimas semanas mobilizou o aparato institucional dos três Poderes em reação aos ataques.  

“Foi o próprio presidente Lula que apontou esse caminho. Ele avançou para uma frente ampla [na eleição], convidando partidos que até o ano passado não estavam próximos ao nosso ponto de vista em matéria de país. Mas, neste momento, assim como foi a eleição do Lira na Câmara,  foi uma costura muito grande que os partidos fizeram no Senado. E claro que o governo, na figura do presidente Lula, deu o exemplo da importância de varremos a política de ódio e frearmos essa crise”, encerra Paim.

 

 

 

 

Edição: Vivian Virissimo