Movimentos populares, sindicatos e grupos políticos vão protocolar, nesta sexta-feira (29), um pedido para que o governo brasileiro se posicione contra o deslocamento de navios militares estadunidenses no sul do Caribe. Em nota, as organizações afirmam que isso, somado às declarações do governo de Donald Trump, representam uma ameaça à Venezuela.
“Diante desse cenário, apelamos ao governo brasileiro para que, com base nos tradicionais laços de amizade que unem os dois povos e as duas nações, manifeste explicitamente seu apoio à Venezuela, reafirmando o compromisso com a paz, a cooperação e o respeito à soberania desse país irmão. A busca pela harmonia e o fortalecimento dos laços diplomáticos devem ser sempre as prioridades nas relações internacionais”, diz o comunicado.
O texto também lembra das acusações da Casa Branca de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, seria líder de uma suposta organização criminosa chamada Cartel dos Sóis, que levaria droga aos Estados Unidos. A existência desse grupo não foi provada pelo governo de Trump.
“A intensificação dessas ações provoca tensões na região por constituir uma ameaça de agressão a um país soberano. A Venezuela não deve ser alvo de provocações externas e ameaças, que visam a desestabilizar a sua ordem interna. Além disso, as recentes acusações feitas pelo presidente dos Estados Unidos contra o presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, são infundadas.”
Ao todo, 39 organizações assinaram o documento. Entre elas está o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Partido Comunista Brasileiro (PCB), a Internacional Antifascista, a Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil (CTB) e a União Nacional dos Estudantes (UNE).
O texto afirma que essas declarações não apenas desrespeitam a soberania da Venezuela, como também “ignoram os princípios de convivência pacífica entre as nações” e reforçam uma “retórica beligerante” que não está de acordo com a diplomacia internacional.
“É evidente que essas ameaças militares têm como objetivo incitar tensões internas na Venezuela, favorecendo a instabilidade no país e na região. Uma política de agressão, como a promovida pelos Estados Unidos, só contribui para o agravamento de uma situação que deve ser resolvida com diálogo e respeito à soberania e autodeterminação dos povos”, afirma o texto.
A nota destaca que ações de intimidação afetam toda a América Latina e lembra que a região foi declarada como uma Zona de Paz pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em 2014.
O MST já havia declarado apoio à Venezuela na semana passada em meio a ameaças militares dos Estados Unidos. Segundo o grupo, a chegada de navios para a costa do país caribenho representa mais uma “ofensiva imperialista” contra os países latino-americanos.
Submarino de propulsão nuclear
Brasil e Venezuela têm mantido contato para condenar as ameaças estadunidenses na região. A ideia da Venezuela é persuadir que o Brasil manifeste não só solidariedade ao país, como também denuncie a violação do Tratado de Tlatelolco, assinado no México em 1967 e ratificado pelos próprios Estados Unidos. Os países signatários concordaram em não testar, fabricar ou desenvolver qualquer arma nuclear.
Militares venezuelanos ouvidos pelo Brasil de Fato afirmam que o submarino estadunidense que está vindo para a região é um submarino de propulsão nuclear, ou seja, ele se desloca a partir da energia gerada pela quebra de núcleos atômicos. Ele pode, ou não, usar armas nucleares. A possibilidade de que ele carregue armas nucleares, no entanto, já foi suficiente para a denúncia venezuelana.
O governo brasileiro, no entanto, está reticente em denunciar, neste momento, uma violação deste tratado pelos Estados Unidos e entende que esse seria um passo a mais em uma relação já está conflituosa com Washington depois do tarifaço de Donald Trump.
O Brasil de Fato solicitou posicionamento ao Ministério das Relações Exteriores, e ainda não houve retorno. O espaço segue aberto às manifestações.
Ameaça dos EUA
A tensão aumentou na região na semana passada, depois que os Estados Unidos subiram o tom contra o governo Maduro. A porta-voz do governo de Donald Trump, Karoline Leavitt, afirmou que os Estados Unidos usariam “toda a força” contra a Venezuela. Antes, o Departamento de Estado havia aumentado a recompensa pela prisão de Nicolás Maduro para US$ 50 milhões e, sem apresentar provas, reiterou que o mandatário venezuelano seria chefe do Cartel dos Sóis, uma suposta organização criminosa, sobre a qual não há informações oficiais.
Depois disso, agências de notícias internacionais começaram a noticiar o envio de navios militares para a região. Ao todo, seriam três embarcações com 4 mil soldados estadunidenses que foram deslocados ao sul do Caribe para combater o tráfico de drogas. Na terça-feira (26), o cruzador de mísseis guiados USS Lake Erie e o submarino USS Newport News teriam sido incorporados à missão, além de uma nova tropa francesa, segundo a CNN.
Em resposta, o governo venezuelano anunciou que deslocaria uma tropa para o sul do Caribe e 15 mil soldados para a fronteira com a Colômbia. Além disso, o presidente Nicolás Maduro promoveu um alistamento em massa de voluntários à Milícia Nacional Bolivariana no último final de semana.
A milícia bolivariana é uma organização formada em 2009 composta por civis e militares aposentados em seus quadros. Eles recebem treinamento para defesa pessoal e fiscalização do território em diferentes contextos — urbano e rural. A milícia passou a compor uma das cinco Forças Armadas da Venezuela, que tem uma estrutura diferente do Brasil.
O governo reforçou a importância desse alistamento para a defesa da soberania nacional e disse que uma nova rodada de alistamento seria feita nesta sexta-feira (29) e sábado (30).