CHACINA MAIS LETAL

É urgente mexer em vespeiro

Fingindo mirar no Comando Vermelho, o governador Cláudio Castro acertou em cheio nas eleições de 2026

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Imagens de corpos enfileirados na comunidade da Penha, no Rio de Janeiro, chocou o mundo
Imagens de corpos enfileirados na comunidade da Penha, no Rio de Janeiro, chocou o mundo | Crédito: Pablo Porciuncula/AFP

Os últimos dias têm sido bem difíceis. A operação mais letal da história do Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, completou uma semana. As cenas de horror não saem da minha cabeça: marcas de tortura, indícios de execução sumária, corpos decapitados, dezenas de mortos enfileirados no meio da praça são lucas, como se tudo isso fosse normal.

Sangue de gente pobre, preta e favelada usado como palanque eleitoral e midiático por Cláudio Castro. Fingindo mirar no Comando Vermelho, o governador acertou em cheio nas eleições de 2026. É disso que se trata. Usar o suposto “combate ao crime” como justificativa para barbarizar na favela, obter apoio popular e sair na frente na corrida eleitoral. Paira na sociedade uma espécie de autorização tácita para eliminar corpos considerados descartáveis, historicamente marginalizados, criminalizados e desumanizados justamente para facilitar a naturalização da matança. Tudo isso em prol de um projeto político de poder. Cruel. Quando perdemos nossa humanidade? Quando perdemos nossa capacidade de indignação?

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Fiquei refletindo sobre o que mudou de 28 de outubro para cá. Nada. Absolutamente nada. A cidade não amanheceu nem 1% mais segura depois da chacina. O crime se reorganizou, o comércio de drogas continua de vento em popa, o território não foi retomado, a criminalidade não diminuiu e a população segue com medo e refém do fogo cruzado, implorando por uma (sensação de) segurança que nunca vem. Há mais de 30 anos, o Estado segue fazendo tudo igual: aposta todas as fichas no enfrentamento bélico dentro das favelas enquanto as lideranças políticas e empresariais do crime organizado permanecem intocadas, anônimas e protegidas em seus apartamentos de luxo em áreas nobres, a muitos quilômetros de distância das favelas.

A mídia hegemônica burguesa nada de braçada no falso argumento de que a esquerda não tem projeto de segurança pública pro Brasil. Porém, nós temos sim. Há décadas, ecoamos as vozes dos mais renomados especialistas em segurança pública. Eles apontam o caminho mais eficiente, que sempre foi ignorado pelo Estado: asfixiar e desmantelar os braços financeiro, político e empresarial que financiam e sustentam a existência das redes criminosas; intensificar a fiscalização nas fronteiras (afinal, armas e drogas não “nascem” nas favelas); investir pesado em equipes de inteligência e tecnologia; fortalecer as corregedorias das polícias, integrar as diversas forças de segurança do país; estados e municípios trabalhando em cooperação técnica com o governo federal.

Podemos citar várias ocasiões em que essa estratégia deu certo, sem disparar nenhum tiro. Aqui eu relembro três operações (essas sim, bem sucedidas): em agosto deste ano, a Polícia Federal bloqueou R$ 1,2 bilhão de 41 pessoas e 251 empresas em esquema de lavagem de dinheiro usado pelo PCC em São Paulo; em 2019, policiais apreenderam 117 fuzis no Méier, na casa do amigo do Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco; em 2017, a polícia interceptou 60 fuzis vindos dos Esatdos Unidos (EUA) que estavam escondidos em contêineres no Aeroporto Internacional do Galeão.

Nada disso é simples. Exige recursos, infraestrutura, logística, tecnologia, equipes capacitadas, gestão integrada. Mas exige, principalmente, coragem e vontade política. Implementar esse projeto de segurança pautado na inteligência, na defesa da vida e nos direitos humanos implica em acabar com a festa de centenas de pessoas com enorme influência política que lucram milhões com o crime. A questão é: quem está disposto a mexer em vespeiro?

Portanto, a operação mais letal da história do Rio de Janeiro não pode ser normalizada nem classificada como um “sucesso”. Pelo contrário, é um retumbante fracasso do Estado, um fracasso da sociedade e da humanidade. Outro dia, ouvi alguém dizer que ”megaoperação de sucesso” seria o Estado entrar na favela com saúde, educação, saneamento básico, urbanização, assistência social, emprego e lazer. É a mais pura verdade. Isso sim seria parar de “enxugar gelo” e fazer diferente do que tem sido feito há tantas décadas. Enxergar os moradores de favelas como sujeitos de direitos que são. A favela é uma potência poderosa e tem muito a nos ensinar, mas só aparece na mídia associada ao crime. Já passou da hora de reescrever essa narrativa e mudar toda a estrutura social que marginaliza e criminaliza esses territórios como estratégia eleitoral.

*Maíra do MST (PT) é vereadora do Rio, professora e doutoranda em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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