Disputa de potências

Analista vê risco de ‘guerra híbrida’ na América do Sul diante de escalada dos EUA

Para Amanda Harumy, presença militar na região é 'assimétrica' e não há instrumentos regionais para conter ataques

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Forças Armadas dos EUA em operação no Caribe; país mantém porta-aviões próximo à costa venezuelana
Forças Armadas dos EUA em operação no Caribe; país mantém porta-aviões próximo à costa venezuelana | Crédito: Divulgação/governo dos EUA

A analista internacional Amanda Harumy avalia que o avanço militar dos Estados Unidos na costa venezuelana representa uma escalada de tensão inédita na América do Sul desde o fim das ditaduras e pode afetar outros países da região. “Está cada vez mais escalado e os Estados Unidos demonstram que vão fazer um investimento político e militar”, afirmou, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Segundo ela, esse cenário pode evoluir para uma “guerra híbrida”, com potências disputando território em solo sul-americano. “Os russos se posicionam de forma estratégica na América do Sul há muito tempo. Acredito que existe uma disponibilidade de cooperação militar. Agora, o que nos deixa mais aflitos de imaginar é que isso poderia se tornar uma guerra híbrida, um encontro de potências militares em um outro território, ou seja, uma incursão norte-americana e uma incursão russa disputando a Venezuela. Isso seria muito grave”, classificou.

Harumy explica que ainda não está claro “qual é a capacidade dos Estados Unidos de realmente invadir, intervir territorialmente na Venezuela, no mar do Caribe ou em qualquer país da América do Sul”, mas que o país “vem sinalizando politicamente e militarmente que vai escalar e fazer essa pressão”. “O que nós estamos vendo agora são os Estados Unidos utilizando sua capacidade bélica e militar, que vale lembrar é assimétrica, desproporcional”, complementou.

Ela avalia que o governo do presidente Donald Trump tem usado o discurso do “narcoterrorismo” como justificativa para essas ações e operações de segurança que podem levar a uma intervenção direta. “O que mais nos preocupa é que esse ‘narcoterrorismo’ possa ser, assim como foram as armas químicas no Oriente Médio, uma desculpa para fazer fatos políticos que sejam convenientes a uma desestabilização e uma invasão”, alertou.

A analista também destacou que a Venezuela “é a linha de frente contra o imperialismo, contra os ataques direto dos Estados Unidos”, e lembrou que o país “já viveu esses tensionamentos políticos e econômicos”. “A guerra econômica que hoje o Brasil conhece a partir do tarifaço já existe contra o governo venezuelano desde 2017”, apontou.

Brasil tenta mediar, mas EUA ‘neutralizam influência’

Para Harumy, os ataques fazem parte de uma ofensiva mais ampla contra a América Latina. “Eu acredito que é uma ação orquestrada porque ao mesmo tempo que o governo Trump pressiona o Brasil a partir do tarifaço, a diplomacia brasileira e o presidente Lula são muito habilidosos em tentar colocar na mesa essa negociação a partir de um conceito de soberania, ele [Trump] amarra o Brasil dentro desse problema diplomático e tensiona mais profundamente países como Cuba, Venezuela e até mesmo Colômbia”, analisou.

Ela lembrou que um dos líderes republicanos mais ativos nessa agenda é o secretário dos EUA Marco Rubio, que defende uma retomada da influência estadunidense na região. “Ele defende que os Estados Unidos precisam reconquistar o quintal, reconquistar a influência sobre a América Latina, que tanto politicamente quanto economicamente tem sido substituída pelo mundo multipolar, não só pela China, mas também por outros atores, como até mesmo a Rússia”, disse.

Harumy destacou ainda o papel do Brasil e a falta de mecanismos regionais para lidar com o cenário. “O Brasil é o principal país da América do Sul, tem uma capacidade de diálogo diverso, uma diplomacia muito forte e possui o discurso da negociação, da paz, da mediação e do multilateralismo. Agora, até onde vai essa capacidade brasileira, uma vez que os Estados Unidos têm conseguido neutralizar a influência brasileira na América do Sul? Nós não estamos vendo uma grande capacidade do Brasil de posicionar a região”, avaliou.

Para conquistar essa capacidade, ela defendeu a retomada da integração latino-americana. “Infelizmente, não temos instrumentos regionais que possam dar conta desse tensionamento. Um dos instrumentos que nós, acadêmicos, sempre defendemos e que hoje faz falta é a Unasul [União de Nações Sul-Americanas]. A Unasul, se hoje existisse, estivesse estruturada, poderia ser um dos espaços de uma movimentação comum perante esse tensionamento e as infrações impostas pelos Estados Unidos”, pontuou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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