Uma ampla coalizão de entidades, organizações e coletivos manifestou publicamente sua “indignação e seu veemente repúdio” à homenagem prestada ao ditador Ernesto Geisel, que governou o Brasil durante a ditadura militar, entre os anos de 1974 e 1979.
A homenagem consiste na criação de um memorial que leva o nome de Geisel na Biblioteca da Universidade de Caxias do Sul – Campus Bento Gonçalves. A iniciativa é da Fundação Educacional da Região dos Vinhedos (Fervi), pelo Campus Universitário da Região dos Vinhedos (Carvi/UCS) e pela Fundação Katsuzo Yamamoto.
Graves violações e a aprovação do extermínio
O principal argumento da nota de repúdio foca no histórico de Geisel em relação aos direitos humanos. Ernesto Geisel foi listado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como um dos 377 nomes responsabilizados por graves violações de direitos humanos cometidas durante o regime ditatorial militar.
A gravidade dos crimes foi confirmada por documentos internacionais. Em 2018, Geisel apareceu em um documento elaborado pelo diretor da Central Intelligence Agency (CIA) dos Estados Unidos, William Egan Colby, datado de 11 de abril de 1974. Este conteúdo revelou que o ditador aprovou a continuidade da política de extermínio de opositores políticos, uma prática já implementada nos governos ditatoriais anteriores.
As entidades signatárias afirmam que uma série de estudos científicos recentes reuniram evidências sobre a violência e a supressão de direitos fundamentais que caracterizaram o regime. Muitas dessas pesquisas foram produzidas na própria Universidade de Caxias do Sul, uma das instituições promotoras da homenagem. Assim, a nota conclui que “não há como negar ou relativizar o caráter da ditadura e seus crimes”.
Ultraje à memória e ignorância das recomendações da CNV
Para os coletivos que assinam o repúdio, a homenagem a ditadores e pessoas implicadas em violações graves de direitos humanos representa um “ultraje à memória das vítimas” e de todos aqueles que lutaram pela democracia. Além disso, a iniciativa sinaliza à sociedade que tais crimes “podem ser tolerados – ou mesmo passíveis de homenagens”.
A criação do memorial é considerada inaceitável, pois contraria as recomendações do Relatório da Comissão Nacional da Verdade de 2014. Para promover o aprofundamento do Estado democrático de direito, prevenir crimes estatais e assegurar a não repetição de abusos, a CNV recomendou especificamente a revogação de homenagens aos autores de graves violações de direitos humanos ocorridas nos anos do regime ditatorial.
Mobilização de entidades
A nota de repúdio, datada de novembro de 2025, é endossada por uma extensa lista de organizações, demonstrando o amplo alcance da mobilização pela memória e justiça.
Entre os signatários estão importantes sindicatos e associações de docentes, como Associação de Docentes da Universidade Federal de Pelotas (AdufPel), a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Ouro Preto (Adufop) e o Andes – Sindicato Nacional das e dos Docentes de Ensino Superior. O movimento estudantil também se faz presente com a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Estadual dos Estudantes Dr. Juca (UEE Dr. Juca), e diversos diretórios centrais de estudantes, como o DCE-Ufrgs e o DCE-UFPel.
Organizações focadas em direitos humanos e movimentos sociais também assinam o documento, incluindo a Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos (AEPPP-RS), a Associação de Juristas pela Democracia (Ajurd), a Associação Juízas e Juízes para a Democracia – Nacional, a Associação Juízas e Juízes para a Democracia (AJD) – Núcleo José Paulo Bisol, o Movimento de Justiça e Direitos Humanos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra RS, a Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT RS), e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos – Brasil.
O documento conclui com a firme declaração: “Por memória, verdade, justiça e não repetição – Ditadura Nunca Mais!”.
