PATRIMÔNIO

Noite dos Museus lança holofotes também sobre a cultura hip hop

Maior evento cultural da cidade de Porto Alegre encerra com protagonismo do rap

No audio source provided.
Rashid foi atração de encerramento do palco principal do evento, na Praça da Alfândega, na noite de sábado (29)
Rashid foi atração de encerramento do palco principal do evento, na Praça da Alfândega, na noite de sábado (29) | Crédito: For Real Company Divulgação

Desde 2016, na capital gaúcha, pelo menos uma vez por ano, os prédios históricos ganham os holofotes em suas fachadas e atraem pessoas para tomarem as praças e ruas da cidade.

Em 2025, em quase 40 instituições de arte e patrimônio histórico, distribuídos por 12 bairros, com 65 mostras e mais de 100 atrações simultâneas (música, circo, teatro, danças, saraus, contação de histórias e performances), a Noite dos Museus reuniu 250 mil pessoas em Porto Alegre, segundo a Brigada Militar e a organização do evento.

Para 2026, comemorando a décima edição daquele que é o acontecimento anual da Cultura no estado nos últimos tempos, os produtores terão o desafio de inovar e crescer ainda mais. Os trabalhos já começaram: com 28 de novembro do ano que vem divulgado como a data oficial para a 10ª Noite dos Museus.

Enquanto o sol ainda não tinha baixado, próximo das 18h de sábado (29), o público ainda parecia tímido chegando aos prédios culturais do Centro Histórico. Algumas filas se iniciavam nas portas dos espaços de memória, mas a aglomeração mesmo só foi tomar forma assim que anoiteceu, ao redor dos dois grandes palcos erguidos na Praça da Matriz e na Praça da Alfândega.  

Uma das hipóteses para a dispersão de espectadores era a grande gama de opções de locais a serem visitados distribuídos pelo mapa porto-alegrense. A segunda era a coincidência da data com a realização do vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do sul (Ufrgs). 

Ironicamente, foi outra coincidência de promoção com a universidade que garantiu um fato especial para ficar marcado na memória desta edição do evento que exalta os lugares de memória da cidade. O rapper Emicida recebia o título Doutor Honoris Causa da Ufrgs no mesmo momento em que a Noite dos Museus começava, sendo prestigiado pelo colega e amigo Rashid, que seria a atração final de encerramento, a partir das 23h.

Assim que a reportagem chegou na Praça da Alfândega para a cobertura, já havia um zum zum zum sobre uma participação especial do músico, o que nem a curadoria e a organização confirmaram como oficial. A expectativa era grande, uma vez que Emicida tem uma história afetiva com a capital gaúcha, e deixou isso claro no seu discurso na universidade ao ser condecorado, lembrando que foi em Porto Alegre que lançou seu primeiro single em 2008, Triunfo.

E a profecia se cumpriu, na Praça da Alfândega, coração do evento. Ela se transformou, nos últimos anos, em um dos locais mais simbólicos do evento, sediando as maiores apresentações. 

E não foi somente Emicida que foi chamado para o palco de Rashid. O gaúcho de Pelotas Zudizilla, que tinha feito show antes, no mesmo local, formou um trio com eles para uma sessão de rima, reforçando a força da cultura das ruas e a representatividade do gênero para o grande e diverso público de jovens que ali se concentrava para vê-los. “Pode colocar o nosso nome na história da Noite dos Museus”, cantou Rashid durante a performance ovacionada.

O rap ganha protagonismo com título e cena reconhecida em Porto Alegre

Emicida fez uma participação surpresa no evento, quando já era madrugada de domingo (30) – Foto: For Real Company Divulgação 

A frase conclusiva da atração final da Noite dos Museus foi certeira. Reunir o trio Rashid, Emicida e Zudizilla no palco da Praça da Alfândega, no eixo central da cultura porto-alegrense, se transformou em um encerramento histórico para a trajetória do evento na cidade.

Neste ano, não foi só luz aos espaços de arte e prédios históricos que a nona edição da iniciativa lançou, mas também privilegiou e direcionou holofotes ao rap, tornando o gênero o protagonista de 2025. E não somente ali: ao mesmo tempo, Negra Jaque levava seus versos com pautas identitárias ao palco montado no belo e histórico Hospital Psiquiátrico São Pedro, no bairro Partenon, que estreava no roteiro de locais da Noite dos Museus. 

O rap e outras expressões da cultura do hip hop, como a dança, sempre fizeram parte da programação do evento, conforme o curador Roger Lerina. “Essa presença tem crescido nas edições mais recentes, ecoando a importância crescente dessas manifestações na cultura brasileira geral. No ano passado, com a entrada do Museu da Cultura Hip Hop RS no circuito do Noite dos Museus, essa ênfase ficou ainda mais destacada, incluindo uma programação de artistas locais do gênero especialmente pensada para aquele espaço – além da presença da apresentação de várias outras atrações ligadas a essa cultura em locais como o Mercado Público e o Espaço Força e Luz.”

Lerina ainda destacou que, neste ano, o ciclo de palestras “Despertar para o Futuro”, apresentado na tarde de sábado (29), na Casa de Cultura Mario Quintana, teve o encontro de dois nomes expressivos do hip hop gaúcho, Zudizilla e Negra Jaque, que falaram sobre música e ativismo no encontro “Representatividade e cultura: o despertar social”.

Nathy Poeta Desperta, DKg Dequilograma, Mires Bender e Art Thamy no Slam Escolar no Morro da Cruz – Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

A professora pública Mires Batista Bender (criadora do Coletivo Antirracista Quilombo do Morro, Coordenadora do EEABI – Espaço Educativo Afro-brasileiro e Indígena da Emef Morro da Cruz) prestigiou todos esses eventos no fim de semana. Primeiro, foi à Ufrgs, depois à Praça da Matriz e, por fim, fechou a Noite dos Museus – iniciativa que prestigia há anos – na Praça da Alfândega. 

“Ver o Emicida na universidade sendo laureado faz lembrar que, no estado mais racista do Brasil, as pessoas estão colocando o debate sobre racismo nesse lugar onde ele deve acontecer, que é o lugar da educação”, narra Bender, enxergando o reconhecimento, enfim, à importância que o debate do tema tem. 

“O público, da sua grande maioria de pessoas negras, lotando aquelas galerias para assistir Emicida é uma quebra de paradigma de onde se deve partir. E coloca em questão a educação, sim, pelo menos para mim, como uma professora que batalha todos os dias para que o reconhecimento dos grandes feitos das pessoas negras seja levado em conta”, avalia a professora.

Bender ainda ressalta o fato de a educação estar cada vez mais associada aos movimentos sociais e as escolhas de Emicida em seu discurso, “na sua fala, que não é rebuscada, que não busca recorrer à gramática tradicional, mas que fala do lugar de onde ele vem mesmo, para o grande público ouvir”.

Ela completa: “Quando ele traz todos os movimentos culturais da periferia para o palco da talvez melhor universidade do Brasil, há esse significado de representatividade e um signo identitário que salta aos olhos. Se houvesse silêncio, se não houvesse palavras ali sendo ditas, só essa imagem já fixaria um registro de grande vitalidade para representar essas lutas. A periferia como centro das iniciativas, como centro de propagação de cultura e de arte, e se deslocando como deveria ser desde o início, como se espera que continue sendo, e que isso registre um momento de expansão, esses temas sendo tratados, sendo ouvidos, sendo levados a mais pessoas”.

Zudizilla e Negra Jaque em encontro sobre música e ativismo com o curador Roger Lerina – Foto: For Real Company Divulgação

A pós-doutora em Letras, com ênfase em Literatura, conta que a apresentação comandada por Rashid na Praça da Alfândega já estava numa energia altíssima, com uma plateia bastante diversa e vibrante. “Aquele show já parecia assim um grito de alívio, e ver o Emicida participar no final foi muito emocionante. Um registro daqueles que vão ficar perenes na memória da gente.” 

Para a professora, ele subindo ao palco já é uma cena que se basta, mas ela visualiza um movimento, porque o músico carrega outras pessoas com ele para cima do palco: “Inteligências locais como por exemplo um DKG Dekilograma (um menino da cena do hip hop aqui de Porto Alegre, que tem uma luta longa e só agora começa a ser chamado no Rio, São Paulo); o DEDS Felipe (outro menino que agora está sendo premiado); Bruno Negrão, que atua agora em palcos mais nobres da cidade também; a própria Negra Jaque, já uma figura consolidada, mas que segue na batalha com o movimento de periferia dela, de liderança comunitária, no Galpão Cultural; a Nathy MC Poeta Desperta, outra que também está crescendo muito”.

Acompanhando os artistas do rap de Porto Alegre há um bom tempo, os levando para dentro da escola para dar oficina, Bender afirma: “Especialmente o show de hip hop na Praça, no grande evento da Noite dos Museus, é de suma importância para a galera da escola e da periferia, que pode nem ter acessado aquele espaço naquele momento, mas que vai ficar sabendo, pois repercutiu esse acontecimento. É muito significativo, sim, para essa galera do morro e também para a cena hip hop local”.

Segundo ela, quem segue esse trabalho, que vê a grande repercussão que eles têm na escola e acompanha a lida deles pela família hip hop sabe que essa visibilidade é fruto de muito suor, seriedade, dedicação, sem nunca se deixar abater pela onda contrária. “Está sempre tocando pra frente, que, aliás, é uma marca desse povo que só no Brasil lutou por 400 anos pelos seus direitos, sem nunca esmorecer. É assim que o povo negro batalha, é assim que a galera do hip hop leva o seu trabalho, como uma bandeira de luta mesmo. É por isso que ele só cresce a cada dia e só aumenta de importância e de significado pra gente.”

A arte despertou diferentes roteiros

Nona edição incluiu corrida noturna por importantes pontos, como Museu de Arte do Paço – Foto: For Real Company Divulgação

Conforme o sol caiu, e a noite foi tomando conta do sábado (29), o tom verde-limão foi a cor que mais se destacava no escuro do Centro Histórico. E não é uma referência a algum holofote em particular em um ponto geográfico.

A aglomeração de pessoas continha diversos espectadores trajando a chamativa camiseta da corrida noturna, novidade desta edição. A iniciativa que reuniu 3 mil participantes também uniu esporte, cultura, história e identidade, passando por prédios históricos importantes desta edição da Noite dos Museus: Mercado Público, Museu de Arte do Paço (Mapa), Museu da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Museu Militar do Comando Militar do Sul, Memorial do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, Casa de Cultura Mario Quintana e Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs).

O público se concentrou ainda em outros pontos importantes da cidade, como a Praça da Matriz, que tem em seu entorno diversas instituições que abriram durante o evento, como Palácio Piratini, Memorial do Judiciário do Rio Grande do Sul, Memorial do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Memorial do Legislativo do Rio Grande do Sul, Solar dos Câmara e Pinacoteca Ruben Berta. Quem passou por ali ainda curtiu o palco ao ar livre, montado na Esplanada da Assembleia Legislativa, que reuniu uma multidão para dançar e cantar alto com artistas como Tonho Crocco apresentando seu Tributo a Tim Maia.

Com o tema A Arte Desperta, a edição 2025 propôs transformar diferentes espaços da cidade em palcos vivos de arte, conectando patrimônio, memória e contemporaneidade em uma programação gratuita e diversa. O evento ainda contou com participação do Clube do Comércio de Porto Alegre, do Espaço Força e Luz, do Museu de Anatomia da UFCSPA – MAUPoA, do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, da Associação Comercial de Porto Alegre – ACPA, do Memorial da Justiça Eleitoral Ministro Teori Albino Zavascki, do Centro Histórico-Cultural Santa Casa e do Museu da Ufrgs.

A crítica de cinema e pesquisadora Fatimarlei Lunardelli fez o roteiro de algumas instituições pelo Centro Histórico e postou em sua rede social um comentário elogioso: “Uma noite porto-alegrense incrível! A cidade iluminada, pessoas nas ruas compartilhando amizade, arte, cultura e memória. Assisti com prazer o show de Pablo Lanzoni e Thiago Colombo no plenarinho do TRE-RS, com acolhida atenciosa da equipe do Memorial da Justiça Eleitoral, onde se podem ver preciosidades como o registro da candidatura ao Senado de João Goulart, em 1954, pelo Partido Trabalhista Brasileiro. Que bela ideia é a Noite dos Museus, que venham muitas!”.

Expressões da cultura hip hop, como dança, sempre fizeram parte da programação, conforme curador – Foto: For Real Company Divulgação 

Mas não foi só o Centro Histórico que ficou movimentado. O público se espalhou por diversas outras regiões da cidade, indo da Cidade Baixa, onde está o Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, à zona norte, na sede do Museu da Cultura Hip Hop RS, passando ainda pelo Instituto Caldeira, no Quarto Distrito. Milhares de visitantes circularam por bairros como o Moinhos de Vento, onde estão o Goethe-Institut e a Galeria de Arte do Dmae; o bairro Santana, que abriga o Planetário da Ufrgs; e o Farroupilha, onde estão o Centro Cultural da Ufrgs e a Fundação Ecarta. 

Novidades no circuito de visitação, como o Colégio Leonardo da Vinci – Alfa, no bairro Rio Branco, e o Museu Estadual Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro, no Partenon, também atraíram um grande número de pessoas para outras localidades.

“Estamos muito felizes com mais esta edição. Vimos uma grande mobilização de público em todos os bairros e também a realização espontânea de atrações artísticas por parte de pessoas, bares e restaurantes que aderiram ao evento mesmo sem participar da programação oficial. Isso mostra o quanto a comunidade abraçou o evento”, destaca Rodrigo Nascimento, idealizador da iniciativa e diretor da Rompecabezas, empresa responsável pelo planejamento e produção da Noite dos Museus.

O evento foi viabilizado pela Lei Rouanet de Incentivo a Projetos Culturais, com patrocínio master da Petrobras, patrocínio da Heineken e apoio da Caixa, planejamento e produção da Rompecabezas, financiamento do Pró-Cultura – Secretaria da Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Sul e realização do Instituto Noite dos Museus e do Ministério da Cultura, Governo Federal – Do lado do povo brasileiro.

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter