O Hospital São Lucas da PUCRS (HSL-PUCRS), de Porto Alegre, está em busca de voluntários entre 60 e 79 anos para participar de um estudo clínico que avalia a aplicação da vacina contra a dengue nessa faixa etária. A pesquisa é realizada em parceria com o Instituto Butantan, será desenvolvida em cinco centros da região Sul do país e contará com a participação de 997 pessoas.
Com a chegada do verão, chega muito calor, mormaços e tempestades por todos os lados. Ruim para a população, menos para o mosquito Aedes aegypti, que atua a mil em lugares onde não há cuidados básicos — focos de água parada e lixo acumulado são os locais onde os criadouros do inseto mais se proliferam. O Rio Grande do Sul registrou, até novembro, 84,7 mil casos prováveis de dengue, uma redução de 62% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram notificados 224 mil casos. Quanto aos óbitos, o estado confirmou 51 mortes neste ano, número inferior ao de 2024, quando houve 281 registros.
A saída para evitar a proliferação da doença é a vacina. Desde 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece vacinação contra a dengue, mas com limitações importantes. Atualmente, a rede pública utiliza um imunizante importado, produzido pelo laboratório japonês Takeda, que exige duas doses e é aplicado com intervalo de três meses. Há também a vacina nacional.
O Ministério da Saúde assinou, no dia 19 de dezembro, o contrato para a aquisição das primeiras doses do imunizante produzido pelo Instituto Butantan, de São Paulo. É o primeiro do mundo de dose única, com produção 100% nacional. Será ofertado exclusivamente pelo SUS a partir de 2026.
Estudo
O uso da vacina da dengue, até agora, é indicado para pessoas na faixa etária de 12 a 59 anos. Mas há estudos para ampliar o limite para pessoas acima dos 59 anos. As pesquisas, testes e outras etapas estão em andamento, como a realizada pelo Hospital São Lucas da PUCRS.
A pesquisa busca estender a aplicação da vacina da dengue para pessoas entre 60 e 79 anos, faixa etária para a qual ainda não há imunizante autorizado nem dados conclusivos. Conduzido em parceria com o Instituto Butantan, o estudo está previsto para começar na segunda semana de janeiro e será realizado pelo Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital Universitário da PUCRS, responsável pela coordenação.
A busca por voluntários já está em andamento. Quem quiser participar poderá se inscrever. Podem entrar no programa pessoas de 60 a 79 anos, avaliadas conforme critérios específicos de inclusão e exclusão. Além do grupo principal, também são necessários voluntários para formar um grupo secundário, composto por pessoas de 40 a 59 anos, que receberão somente a vacina já aprovada, sem uso de placebo.
“É uma forma de contribuir com a pesquisa e ainda sair daqui já vacinado”, explicou Isabelli Guasso, gerente de Estudos Clínicos em Infectologia do HSL-PUCRS, ao portal da universidade.
Os participantes serão acompanhados ao longo de 12 meses, com visitas periódicas, coletas de sangue e monitoramento contínuo da saúde. Segundo Guasso, o estudo representa um marco científico com impacto além das fronteiras nacionais. “Hoje não existe pesquisa nem vacina aprovada para essa faixa etária. Este estudo tem potencial para gerar evidências que interessam ao mundo todo”, afirma.
Idosos são o grupo mais vulnerável
Guasso diz que os idosos fazem parte do grupo mais vulnerável às complicações da dengue, e ampliar a proteção para essa população é uma demanda urgente em saúde pública. Ela reforça que a colaboração da comunidade é fundamental para o avanço científico.
“A vacina só chega ao mercado porque existem voluntários. Eles são a base da ciência. Quanto mais pessoas participarem, mais rápido conseguimos gerar resultados e disponibilizar essa proteção para quem mais precisa. Estamos muito felizes de ver essa etapa se aproximando”, reforça a pesquisadora.
O diretor técnico do HSL-PUCRS e infectologista, Fabiano Ramos, destacou a importância global da pesquisa à assessoria de imprensa do hospital. “A dengue continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública do país, e proteger a população idosa é um passo decisivo. Esse grupo é mais suscetível a complicações, por isso avaliar a segurança e a eficácia da vacina nessa faixa etária é fundamental para ampliarmos a cobertura e reduzirmos o risco de formas graves. O HSL tem um histórico sólido em pesquisa clínica e, mais uma vez, contribuímos com evidências que impactam diretamente a vida das pessoas.”
Como participar
Para participar do estudo, os voluntários devem:
• Ter entre 60 e 79 anos para participar do grupo principal ou entre 40 e 59 anos para participar do grupo secundário;
• Não ter participado de outros estudos de vacina contra a dengue;
• Caso apresentem comorbidades, como hipertensão ou diabetes, estas devem estar bem controladas;
• Pessoas que já tiveram dengue também podem se inscrever.
Instituto Butantan
O Instituto Butantan é o maior produtor de vacinas e soros da América Latina e o principal produtor de imunobiológicos do Brasil. Referência mundial de eficiência e qualidade, é responsável pela maioria dos soros hiperimunes utilizados no Brasil contra venenos de animais peçonhentos, toxinas bacterianas e o vírus da raiva. Também responde por grande volume da produção nacional de antígenos vacinais, produzindo 100% das vacinas contra o vírus influenza usadas na Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe.
O Butantan foi oficialmente inaugurado em fevereiro de 1901, inicialmente denominado Instituto Serumtherápico. Criado pelo médico Vital Brasil, seu objetivo inicial era produzir soro contra a peste bubônica (praga dos ratos). Localizado em São Paulo, tornou-se referência mundial em vacinas e soros.
A Comunicação do Instituto informa que é no Centro Bioindustrial do Butantan que a Produção da Vacina da Dengue (PDV) ganha forma. Desde abril de 2025, a planta industrial de 2.550 metros quadrados opera em capacidade máxima, 24 horas por dia, sete dias por semana. Esse desempenho permitiu que cerca de 1 milhão de doses do imunizante tetravalente ficassem prontas em apenas seis meses de operação.
Além da produção interna, o Butantan deu um salto estratégico ao firmar um acordo produtivo internacional com a chinesa WuXi Vaccines. A empresa, que oferece serviços de produção de medicamentos para outras farmacêuticas, vai possibilitar a fabricação de dezenas de milhões de doses adicionais da vacina da dengue.
Desenvolvido ao longo de 15 anos e aprovado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o produto passa por um rigoroso processo de fabricação. “Entre cultivo de células, produção do Insumo Farmacêutico Ativo [IFA], formulação do imunizante, envase, recrave e liofilização, o ciclo produtivo leva cerca de dois meses e envolve mais de 200 profissionais”, afirma o diretor técnico da Produção da Vacina da Dengue, Antonio Cesar Pereira da Silva.
Principais cuidados
• Não deixe água parada; destruir os locais onde o mosquito nasce e se desenvolve evita sua procriação.
• Deixe sempre bem tampados e lave com sabão as paredes internas de caixas d’água, poços, cacimbas, tambores ou tonéis, cisternas, jarras e filtros.
• Não deixe acumular água em pratos de vasos de plantas e xaxins. Coloque areia fina até a borda do pratinho.
• Em plantas que possam acumular água, retire sempre a água acumulada nas folhas.
• Não junte vasilhas e utensílios que possam acumular água (tampinhas de garrafa, cascas de ovo, latinhas, saquinhos plásticos, embalagens plásticas ou de vidro, copos descartáveis etc.) e guarde garrafas vazias de cabeça para baixo.
• Entregue pneus velhos ao serviço de limpeza urbana; caso precise mantê-los, guarde-os em local coberto.
• Deixe a tampa do vaso sanitário sempre fechada. Em banheiros pouco usados, dê descarga pelo menos uma vez por semana.
• Retire sempre a água acumulada da bandeja externa da geladeira e lave-a com água e sabão.
• Sempre que for trocar o garrafão de água mineral, lave bem o suporte onde a água fica acumulada.
• Mantenha sempre limpos lagos, cascatas e espelhos d’água decorativos. Crie peixes nesses locais, pois eles se alimentam das larvas dos mosquitos.
• Lave e troque a água dos bebedouros de aves e animais no mínimo uma vez por semana.
• Limpe frequentemente as calhas e a laje das casas; coloque areia nos cacos de vidro no muro que possam acumular água.
• Mantenha a água da piscina sempre tratada com cloro e limpe-a uma vez por semana.
• Mantenha o quintal limpo, recolhendo o lixo e detritos em volta das casas, limpando os latões e mantendo as lixeiras tampadas. Não jogue lixo em terrenos baldios, construções ou praças. Acione a limpeza urbana quando necessário.
• Permita sempre o acesso do agente de combate às endemias em sua residência ou estabelecimento comercial.
