O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, revelou nesta terça-feira (10) que escapou de um atentado orquestrado supostamente por grupos narcotraficantes próximo à cidade de Montería, no norte do país. Durante reunião ministerial, o mandatário relatou que o helicóptero presidencial tinha programado pouso para um evento na noite de segunda-feira (9), mas foi obrigado a abortar a operação ao perceber a emboscada.
Para a cientista política e analista internacional Ana Prestes, o episódio evidencia um problema estrutural. “Uma mudança no contexto político da Colômbia seria não ter atentado. Infelizmente, México e Colômbia são os dois países da América Latina onde ser político, candidato ou líder social é um alto risco de vida“, afirmou ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato. Ela lembrou que a vice-presidenta Francia Márquez também já foi alvo de emboscadas ao longo do mandato.
“Navegamos em alto mar por quatro horas e acabamos aterrissando em outro lugar, para não sermos alvejados”, declarou o líder colombiano. Petro contou que, há meses, vinha recebendo ameaças de narcotraficantes e alertas de forças de segurança sobre planos para atacá-lo.
Com as eleições legislativas no horizonte, o senador Iván Cepeda, apontado como sucessor político de Petro, emerge como alvo em múltiplas arenas. Segundo Prestes, há tentativas de “inabilitar sua candidatura” inclusive na esfera jurídico-eleitoral. “Cepeda é filho de uma vítima de assassinato político na Colômbia. Sua família conhece na pele a perseguição”, destacou.
A analista internacional também enfatizou que a violência política na Colômbia não é exclusividade da esquerda, mas atinge todo o espectro político. No entanto, historicamente, os setores progressistas, socialistas e comunistas são os mais perseguidos. Organizações como Temblores atualizam diariamente o número de líderes sociais assassinados no país, uma realidade que persiste mesmo com o plano de “paz total” proposto por Petro.
Prestes contextualizou o atentado dentro de um cenário regional dramático. “São eleições que acontecem num momento de cerco à América Latina e ao Caribe — cerco político, midiático, militar, econômico”, afirmou. Ela citou a presença de um destroyer estadunidense monitorado nas proximidades de Cuba, os bombardeios a embarcações no Pacífico, a imposição ao Panamá do afastamento da China e do projeto Cinturão e Rota, além do acordo militar assinado com o Paraguai pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.
“Nós, aqui no Brasil, vivenciamos com choque o assassinato de Marielle Franco. No México e na Colômbia, isso é uma realidade cotidiana no interior, em regiões territorializadas por disputas entre facções criminosas e lideranças sociais”, comparou Prestes.
O atentado contra Petro, ocorrido às vésperas do período eleitoral mais tenso da década, expõe as múltiplas camadas de uma crise: a violência endêmica do narcotráfico, a fragilidade das garantias democráticas e a ofensiva imperialista que, sob o pretexto de “combater o narcotráfico”, aperta o cerco sobre nações soberanas que ousam trilhar caminhos próprios.
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